Por Clayton Nobre
Entre os documentários exibidos na quarta edição do Bonito CineSur, Minha Terra Estrangeira, dirigido por João Moreira Salles, Louise Botkay e pelo Coletivo Lakapoy, ocupa um lugar singular. Partindo da candidatura de Almir Suruí a uma vaga na Câmara dos Deputados em 2022 e acompanhando também a trajetória internacional da ativista Txai Suruí, o filme rapidamente deixa para trás o registro convencional de uma disputa eleitoral. O que começa como o acompanhamento de uma candidatura se transforma em uma reflexão sobre pertencimento, deslocamento e os desafios de fazer a luta indígena ser compreendida em diferentes mundos. A sessão em Bonito contou com a presença de João Moreira Salles e Louise Botkay para um debate com o público. Os realizadores indígenas não puderam participar por motivos de saúde.
Embora acompanhe uma campanha política, Minha Terra Estrangeira inevitavelmente remete a Entreatos, documentário que João Moreira Salles realizou durante a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Nos dois filmes, a eleição funciona como ponto de partida, não como destino. O interesse está menos na disputa pelo poder do que naquilo que ela revela sobre seus personagens: os bastidores, os silêncios, as hesitações.
Se Entreatos buscava compreender a política pela intimidade de um candidato, Minha Terra Estrangeira desloca o olhar para aquilo que a política institucional não consegue abarcar. A candidatura de Almir Suruí é apenas uma porta de entrada para discutir pertencimento, deslocamento e, sobretudo, a longa duração da resistência indígena, uma história que não começa nem termina dentro de um calendário eleitoral.
O aspecto mais potente do documentário está justamente na construção paralela de Almir e sua filha Txai. Ainda que vivam experiências muito distintas, ambos percorrem trajetórias marcadas pela necessidade permanente de traduzir o próprio mundo. A principal barreira parece ser a língua, como João comenta em debate com a plateia. Mas o filme demonstra rapidamente que o desafio é muito maior do que aprender um idioma. O que ambos enfrentam é a tarefa de converter experiências, valores e formas de compreender a floresta para públicos que não compartilham dessas referências, especialmente no caso de Txai, e para um público que precisa embarcar numa luta institicional em defesa da própria floresta em detrimento de uma ampla campanha colonial que posicionou drasticamente o estado de Rondônia no campo do bolsonarismo.
Para Txai, essa tradução acontece em inglês. Em fóruns internacionais, conferências e encontros diplomáticos, ela precisa explicar uma realidade que frequentemente escapa às categorias do debate climático global. A insegurança diante de um idioma que não é o seu aparece em poucos momentos mas o filme faz questão de preservar essas cenas de vulnerabilidade, recusando qualquer idealização da personagem.

Já Almir enfrenta um obstáculo aparentemente mais simples, mas talvez ainda mais profundo: traduzir sua experiência para a linguagem da política institucional brasileira. O português é apenas uma das camadas desse desafio. Sua campanha exige que ele adapte discursos, códigos e estratégias para um ambiente político que historicamente não foi pensado para acolher lideranças indígenas. O filme sugere que, em ambos os casos, comunicar é sempre negociar, perder nuances, reconstruir sentidos e aceitar que parte da experiência permanecerá intraduzível.
É justamente quando abandonam a postura pública e deixam transparecer suas fragilidades que Almir e Txai se tornam personagens extraordinários e apaixonantes. O discurso de Txai após o resultado do primeiro turno das eleições, assim como as lágrimas de Almir antes do discurso ao final da campanha, são momentos de forte conexão. A força dessas lideranças não está na ausência de medo, mas na disposição de continuar mesmo quando a derrota parece iminente. O espectador deixa de enxergá-los apenas como lideranças políticas e passa a acompanhá-los como pessoas atravessadas por dúvidas, frustrações e pequenas vitórias.
Terra Estrangeira
Durante conversa com jornalistas antes da sessão, perguntei aos diretores se o título do filme estabelecia alguma relação com Terra Estrangeira, clássico dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. A resposta, segundo eles, já está presente nas primeiras imagens do documentário. Antes mesmo de enfrentar adversários políticos, Almir precisa vencer a própria geografia brasileira para fazer campanha. Viaja milhares de quilômetros, inclusive entre diferentes territórios indígenas, como alguém que percorre um país que permanentemente lhe impõe obstáculos. A sensação de deslocamento é constante, como se transitasse por uma terra que também lhe fosse estrangeira.
Essa condição se torna ainda mais significativa quando lembramos que a campanha acontece em um contexto profundamente marcado pelo bolsonarismo. Se a gente pensa que o diálogo é fácil entre parentes já que a representatitividade e uma causa comum estão colocadas, logo nos frustramos. Mesmo em territórios indígenas, os efeitos da polarização política aparecem durante o processo eleitoral, revelando um cenário muito mais complexo do que as leituras simplificadas costumam sugerir.
Ao mesmo tempo, Txai vive sua própria experiência de estrangeiridade. Em suas viagens internacionais, precisa aprender protocolos, idiomas e formas de atuação completamente novas para defender causas que nasceram em seu território.
Há ainda outra camada possível para interpretar esse título. Se Almir precisa tornar familiar um país que frequentemente lhe parece estranho, também precisa aprender a habitar as ferramentas da modernidade. O iPhone, as redes sociais, os vídeos de campanha e a comunicação digital aparecem como mais uma língua que foi aprendida. O filme amplia, assim, a ideia de tradução para além das palavras: trata-se de traduzir modos de vida para tecnologias, instituições e linguagens que outrora não eram pensadas a partir da perspectiva indígena e, sim, nem na perspectiva branca.
Outro aspecto revelador surgiu quando perguntei aos diretores sobre o processo de colaboração entre a equipe e o Coletivo Lakapoy. Louise Botkay explicou que, desde o início, o filme foi concebido como um processo coletivo, com participação ativa dos realizadores indígenas durante toda a campanha de Almir Suruí e nas filmagens realizadas ao longo do projeto.

João Moreira Salles revelou aquele que talvez seja o episódio mais significativo de toda a produção. A colaboração mais profunda, segundo ele, não aconteceu durante as filmagens, mas depois, na ilha de edição.
Quando os integrantes do Coletivo Lakapoy assistiram ao primeiro corte, foram categóricos: “o filme estava errado”.
À primeira vista, a afirmação poderia soar como uma discordância sobre escolhas de montagem. Mas o problema era muito mais profundo. João havia construído Minha Terra Estrangeira segundo a lógica clássica de um filme de campanha eleitoral: uma narrativa cronológica, conduzida pela expectativa do resultado das urnas e encerrada na vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 2022. Era um desfecho natural para quem compreende a política a partir dos ciclos eleitorais. Para os realizadores indígenas, porém, a vitória de Lula não encerrava história alguma. A eleição era um acontecimento importante, mas incapaz de servir como conclusão de uma narrativa sobre a luta dos povos indígenas. A resistência não começa em uma campanha, tampouco termina quando um candidato vence as eleições. Ela atravessa governos, gerações e séculos. Seu tempo é outro.
Essa observação obrigou a equipe a repensar a própria estrutura do documentário. Mais do que reorganizar cenas, significava abandonar uma maneira ocidental de construir narrativas, marcada por começos, clímax e desfechos, para acolher outra percepção do tempo, em que a continuidade da resistência importa mais do que o encerramento de um ciclo político.
É justamente aqui que a principal ideia de Minha Terra Estrangeira ganha sua expressão mais radical. Ao longo de todo o filme, Almir traduz sua luta para a linguagem da política brasileira. Txai traduz sua experiência para o inglês diante de plateias internacionais. Ambos atravessam fronteiras culturais, linguísticas e institucionais na tentativa de tornar compreensível uma realidade que frequentemente escapa às categorias do mundo não indígena. Mas, no fim das contas, não são apenas eles que precisam traduzir. O próprio filme também.

Ao aceitar que os realizadores indígenas desmontassem a lógica narrativa inicialmente concebida, João Moreira Salles, Louise Botkay, assim como os montadores Eduardo Escorel e Laís Lifschitz, fizeram mais do que dividir a direção de um documentário, mas permitiram que outra forma de compreender o tempo transformasse a própria linguagem do cinema.
Em outro diálogo com os participantes do Bonito CineSur, desta vez uma aula sobre o processo de construção de um filme documentário, João Moreira Salles compartilhou uma compreensão de que este gênero se constrói a partir da responsabilidade do documentarista com sua personagem. No diálogo com o espectador, um ponto fundamental para uma experiência ética seria posicionar o ponto de vista tanto da personagem quanto do documentarista: “eu e ele falamos de nós para vocês”, em detrimento de “eu falo sobre ele para nós”.
O debate abre muitas portas para mais diálogos, mas trago essa aula para apontar, agora, mais um detalhe importante sobre “estrangeiridade” de Minha Terra Estrangeira. Não sendo um filme 100% indígena, nem 100% branco, assistimos a um documentário feito justamente deste encontro: “eu e ele falamos de nós”. Percebemos esse diálogo claramente na conversa informal entre Txai e João, quando ela confidencia o que poderia ser para ela um filme 100% autoral: poderia ser um filme de amor, e não de sua luta, já que só a luta não traduz o que seria sua vida como uma jovem mulher indígena. Aqui são dois personagens negociando suas performances em terra estrangeira.
