Cerca de 60 jornalistas credenciados para acessar a sala de imprensa da Casa Rosada se depararam nesta quinta-feira com o bloqueio de seus registros por meio de impressão digital, sendo impedidos de entrar. Pela primeira vez na história do país, o acesso de jornalistas à sala de imprensa foi vetado.
O governo do presidente argentino, Javier Milei, que costuma repetir a frase “não odiamos o suficiente os jornalistas”, já havia estabelecido uma série de exigências para os correspondentes na Casa Rosada, incluindo o registro de diversos dados, além de códigos de vestimenta.
A proibição da entrada desses jornalistas credenciados ocorreu no mesmo dia em que Milei recebia na Casa Rosada o bilionário norte-americano Peter Thiel, executivo do Vale do Silício e teórico da extrema direita, cuja frase mais conhecida é: “a liberdade e a democracia já não são compatíveis”.
Thiel é também o criador da Palantir Technologies, empresa especializada em análise massiva de dados e vigilância preditiva, recursos utilizados pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) contra migrantes em situação irregular. Israel também utilizou essa tecnologia contra palestinos na Faixa de Gaza.
Justamente no dia em que Milei receberia Thiel, uma referência em espionagem massiva, a Casa Rosada argumentou que a proibição da entrada de jornalistas se deveu a uma denúncia de “espionagem ilegal”.
Assim afirmou na rede X o secretário de imprensa do governo, Javier Lanari: “Esclarecimento. A decisão de retirar as impressões digitais dos jornalistas credenciados da Casa Rosada foi tomada de maneira preventiva diante da denúncia da Casa Militar por espionagem ilegal”; acrescentou que a medida tem “o único objetivo de garantir a segurança nacional”.
Segundo informou a Agência Noticias Argentinas, o que ocorreu foi uma filmagem não autorizada dentro da sede da Presidência realizada por um programa do canal TN, denunciada pela Casa Militar, responsável pela segurança do presidente. Outros veículos detalharam que um jornalista filmou espaços da Casa Rosada usando óculos com câmera embutida.
O jornalista e uma apresentadora foram denunciados pela Casa Militar, e o presidente publicou uma série de insultos em sua conta no X: “Lixos repugnantes. Gostaria de ver esses lixos imundos, que portam credencial de jornalistas (95%), saírem para defender o que fizeram esses dois delinquentes. Espero que isso chegue aos responsáveis máximos”.
Segundo a Casa Militar, “o vídeo mostra de forma inequívoca que o autor da reportagem registrou sem filtro a atividade da sede principal do governo por meio de uma gravação sub-reptícia”, com “óculos inteligentes”.
A aversão de Milei à imprensa cresceu nas últimas semanas, quando alguns jornalistas que antes elogiavam sua gestão e evitavam confrontá-lo em entrevistas passaram a questionar o manejo dos dados públicos pelo governo, assim como o suposto enriquecimento ilícito de seu chefe de Gabinete, Manuel Adorni, e a falta de resposta oficial sobre o caso.
O deputado da Coalizão Cívica Maximiliano Ferraro publicou nesta quinta-feira: “Basta, pessoal. Não houve nenhum tipo de espionagem ilegal. Restituam imediatamente as credenciais e o acesso à Casa Rosada dos jornalistas credenciados”. Segundo a revista Noticias, diversos blocos opositores preparam pedidos de informação para que o governo explique a medida.
Por sua vez, os jornalistas credenciados na Casa Rosada divulgaram um comunicado pedindo a reversão da decisão. “A medida, que segue sem justificativa oficial por parte do governo nacional, sugere um avanço explícito contra a liberdade de imprensa, o exercício da profissão e o direito de acesso à informação de toda a cidadania”, afirmaram.
“Solicitamos uma pronta resolução do caso e exigimos do governo o fim dos ataques à imprensa”, concluíram, após repudiar esse “ato de censura que se soma à escalada de abusos de poder por parte de Javier Milei, que não apenas insulta, difama e hostiliza jornalistas e trabalhadores da imprensa, como também pressiona por demissões, como é de conhecimento público”.
