Depois de uma década de carreira drag e do sucesso de “Melancholic Blue”, que já soma mais de três milhões de reproduções, Ivana Wonder lança seu primeiro álbum solo, “Primeiro Ato”. Cantora, compositora e artista visual, ela descreve o disco como a “versão mais fiel de mim”, um projeto construído menos a partir de referências sonoras específicas do que do próprio imaginário, moldado por nomes como Maysa, Ney Matogrosso, David Bowie e PJ Harvey. Com oito faixas — sete composições autorais e uma interpretação de Carlos Gomes, “Quem Sabe” —, o trabalho marca também sua estreia como letrista.

Um disco sem medo de ser exagerado
Ivana conta que se descobriu compositora durante a pandemia, período em que reuniu textos, frases e pensamentos que já guardava havia anos e passou a transformá-los em música — um processo distinto do que fazia no duo eletrônico Vermelho Wonder, quando a letra costumava nascer depois do ritmo. Sobre colocar essas palavras no mundo, ela reflete: “eu não estou escrevendo textos para guardar nos meus cadernos e deixar dentro dos meus baús” e reconhece que isso muda o peso de cada verso, criando uma “responsabilidade invisível em relação a como aquilo que eu escrevo pode tocar as pessoas”.
O resultado é um álbum que não teme o excesso: “o que eu queria era um disco sem medo. Sem medo de ser brega, sem medo de ser clichê, sem medo de exagerar”. Ivana também descreve a atmosfera que buscou construir em cada faixa: “existe um glamour ali, mas um glamour que também pode ser estranho, teatral, excessivo, rock and roll”. Ela nota ainda que canções antigas, como “Saudade de Mim” e “Melancholic Blue”, ganharam um significado mais leve depois de compartilhadas: o peso, diz, “se divide” entre quem escuta.
“Eu não sei se eu faço drag music”
Um dos eixos da entrevista é a discussão sobre os limites que o mercado impõe à sonoridade de artistas drag. Para Ivana, essa percepção é recente e limitada: “a gente passou a entender a drag principalmente a partir de uma cultura muito pop e norte-americanizada”, associada ao showbiz e à música dance, sobretudo após a popularização de RuPaul’s Drag Race. Ela se diz mais próxima de outra tradição, a das travestis e transformistas brasileiras das décadas de 1960 e 1970, citando o exemplo de Rogéria, que “fazia um show inteiro cantando Elis Regina, completamente montada e deslumbrante”.
Por isso, evita rotular seu próprio trabalho: “eu não sei se eu faço drag music. Eu faço música e sou uma drag”, afirma, explicando que nunca escreveu pensando em falar especificamente sobre a experiência drag, mas sobre suas “vivências enquanto ser humano”. “O que eu faço também não é drag music? Talvez a gente tenha criado uma ideia muito estreita de onde uma artista drag pode existir sonoramente”, diz ela, completando que suas ambições vão muito além da música — “quero cantar um musical, quero estar num filme como atriz, quero estar numa peça de teatro”.
Da precarização ao show de rock
Questionada sobre os planos para os palcos, Ivana não esconde a distância entre a ambição criativa e as condições reais do circuito independente. “Existe uma precarização muito grande do trabalho do artista independente”, diz, lembrando que toda a produção do disco — visuais, imagens, gravação — “sai do meu bolso”, inclusive por meio de uma vaquinha aberta para viabilizar parte do projeto. Ainda assim, ela já testou ao vivo o formato que pretende levar a outros palcos: um show de pré-estreia no espaço Bona, que descreve como “muito bonito e muito intenso” e que trouxe uma surpresa até para ela mesma — “é um show de rock”, um desejo antigo que finalmente conseguiu realizar.
Agora, o objetivo é fazer esse show circular. Ivana quer “alcançar festivais, fazer outros shows, chegar a outras cidades e sair um pouco de São Paulo”, movida pela lembrança de quem um dia foi espectadora antes de ocupar o palco: “eu fui uma bichinha do interior de São Paulo que se sentiu profundamente inspirada pelos artistas que via”. Com “Primeiro Ato” já disponível nas plataformas, a artista resume o que espera que o disco represente para quem a ouve: um convite para que cada pessoa também possa “ser aquilo que elas têm vontade de ser”.
