Inteligência artificial ajuda pesquisadores a identificar substâncias capazes de combater bactérias resistentes
Encontrar novos antibióticos se tornou um dos grandes desafios da medicina. Com o aumento das bactérias resistentes aos medicamentos disponíveis, cientistas procuram maneiras de acelerar a identificação de substâncias capazes de combater infecções. Uma contribuição importante nessa área acaba de receber reconhecimento internacional: dois pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) foram premiados por utilizar inteligência artificial na descoberta de novos candidatos a antibióticos.
Regina Barzilay e James Collins receberam o Prêmio Pritzker de Excelência em Pesquisa em Inteligência Artificial e Ciência de 2026. A premiação reconhece o trabalho conjunto dos pesquisadores na integração de aprendizado profundo, engenharia biológica e experimentos laboratoriais para identificar compostos com potencial de combater microrganismos resistentes aos tratamentos convencionais.
Halicina: a descoberta que chamou a atenção da comunidade científica
Um dos principais resultados dessa colaboração foi a identificação da halicina, apresentada em um estudo publicado em 2020 na revista científica Cell. A substância foi encontrada com a ajuda de um modelo de aprendizado profundo treinado para analisar 2.500 moléculas e selecionar aquelas com características que poderiam indicar atividade antibacteriana.
Inicialmente, a halicina havia sido investigada como possível medicamento para diabetes. A análise computacional, porém, apontou outro caminho: a molécula demonstrou capacidade de combater diferentes bactérias em testes de laboratório, incluindo espécies resistentes a antibióticos.
Entre os microrganismos avaliados estavam Clostridioides difficile, Acinetobacter baumannii e Mycobacterium tuberculosis, responsável pela tuberculose.
O resultado foi importante também pela velocidade do processo. Uma busca que tradicionalmente poderia levar anos foi realizada em poucas semanas, demonstrando como a inteligência artificial pode ajudar a selecionar candidatos promissores e direcionar os experimentos científicos.
Outra descoberta mira uma bactéria hospitalar resistente
O trabalho dos pesquisadores não terminou com a halicina. Em 2023, a equipe participou da identificação da abaucina, outro composto com potencial antibacteriano, mas com uma característica diferente: sua ação é direcionada principalmente à Acinetobacter baumannii.
Essa bactéria pode provocar infecções graves, especialmente em ambientes hospitalares, e está entre os microrganismos que apresentam grande preocupação devido à resistência aos medicamentos.
A atuação mais específica da abaucina é considerada uma característica relevante. Ao atingir um grupo restrito de bactérias, o composto pode, em princípio, reduzir os impactos sobre microrganismos benéficos que vivem no organismo e diminuir algumas pressões que favorecem o desenvolvimento de resistência.
Assim como no caso da halicina, os resultados representam descobertas experimentais. A substância ainda precisa passar pelas etapas necessárias de desenvolvimento e avaliação antes de qualquer eventual utilização como medicamento.
Inteligência artificial vai além da identificação de moléculas
A pesquisa também representa uma mudança na maneira como os cientistas utilizam a tecnologia. Em vez de apenas analisar grandes bancos de dados para encontrar substâncias que já existem, os sistemas mais recentes podem ajudar a projetar moléculas com características específicas.
O projeto Antibiotics-AI, desenvolvido no MIT em parceria com a organização sem fins lucrativos Phare Bio, reúne ferramentas computacionais e experimentos biológicos para procurar novos compostos contra diferentes bactérias consideradas prioritárias.
Segundo o grupo de pesquisa, a iniciativa já identificou e projetou nove candidatos a antibióticos com auxílio de inteligência artificial. O trabalho envolve a análise de bilhões de estruturas moleculares, seguida de testes para verificar quais substâncias apresentam atividade contra os microrganismos estudados.
A estratégia funciona como um processo de colaboração entre computador e laboratório: os modelos sugerem possibilidades, os pesquisadores testam os compostos e os resultados experimentais ajudam a aperfeiçoar as próximas análises.
A resistência aos antibióticos é um desafio mundial
A resistência antimicrobiana acontece quando bactérias desenvolvem mecanismos que reduzem ou impedem a ação dos medicamentos utilizados para combatê-las. Com isso, infecções que antes respondiam aos tratamentos podem se tornar mais difíceis de controlar.
O problema ameaça a eficácia de procedimentos médicos que dependem de antibióticos, como cirurgias, transplantes e tratamentos contra o câncer. Por esse motivo, a descoberta de novas classes de medicamentos é considerada uma prioridade para a saúde pública.
A inteligência artificial surge como uma ferramenta capaz de ampliar as possibilidades de pesquisa, permitindo analisar um número muito maior de moléculas do que seria viável em processos exclusivamente tradicionais.
Bruna Valle
jornalista
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Fonte: Antena 1.
