Por Ana Pessoa
“Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, teve sua estreia nacional no 54º Festival de Cinema de Gramado, abrindo a Mostra Competitiva de Longas-Metragens Brasileiros. A sessão aconteceu um dia depois de “Antártida”, superprodução que abriu oficialmente o festival. Dois filmes muito diferentes entre si, em escala, gênero e modo de produção, mas que, colocados lado a lado, mostram a variedade de cinemas que o Brasil é capaz de produzir.
Foi mais ou menos assim que Lázaro Ramos colocou em conversa com a Cine Ninja durante sua passagem por Gramado. Presente no elenco dos dois filmes, ele disse que estar no festival também era, para ele, uma declaração de amor ao cinema brasileiro e um lembrete de que “a gente é foda! A gente pode tudo, todos os formatos são permitidos”.
E “Feito Pipa” carrega essa liberdade de um jeito muito próprio. No interior do Ceará, acompanha Gugu e a avó Dilma numa relação de muito carinho, cuidado e também muita arenga, esse jeito tão nordestino de implicar, provocar e discutir por besteira entre quem já tem intimidade de sobra. E é nessa convivência que eu também vejo no filme uma homenagem às avós brasileiras, essa quase entidade na formação afetiva de tantas famílias.
A partir daí, a história vai ganhando outras camadas sem transformar cada conflito numa tese ou sentir que precisa explicar tudo. A infância queer de Gugu aparece com a mesma naturalidade com que o filme olha para o envelhecer, para o amor na terceira idade e para a relação entre pai e filho, marcada ao mesmo tempo por uma violência silenciosa e por um afeto que quase nunca consegue ser dito.
Uma das maiores qualidades de “Feito Pipa” está justamente aí: ele não parece interessado em conduzir o espectador pela mão. Em alguns momentos, tudo aponta para uma resolução mais óbvia, mais confortável até, mas o filme recua desse lugar. Não para surpreender por surpreender, mas porque entende que as pessoas são mais complexas do que as respostas que a gente gostaria de encontrar para elas.
Gugu é um personagem tão bonito, e absurdamente bem interpretado pelo ator mirim Yuri Gomes, que encontra em Teca Pereira uma parceira à altura na construção da avó Dilma. É principalmente na relação entre os dois que o filme ganha força, mas o elenco inteiro acompanha muito bem. Lázaro Ramos e Carlos Francisco também estão brilhando e ajudam a dar mais densidade às relações daquela família.
Teca Pereira contou à Cine Ninja que Dilma a levou de volta a memórias muito pessoais e que o carinho da personagem foi uma das coisas que mais a tocou. Ao falar da relação entre avó e neto, resumiu de um jeito simples: “eles têm uma vida muito boa”.
André Araújo, roteirista de “Feito Pipa”, também vem do interior do Ceará. Em conversa com a Cine Ninja, contou que cresceu sentindo falta de se ver nas telas, mas também de reconhecer ali as pessoas e o mundo que conhecia de perto. Foi desse incômodo que nasceu parte do seu desejo de contar histórias e, como ele mesmo resumiu, de “projetar o meu mundo pro mundo”.
Esse mundo tão particular já encontrou públicos muito diferentes antes mesmo da estreia nacional. “Feito Pipa” passou por festivais como Berlim, Cartagena e Guadalajara, acumulando prêmios pelo caminho.
O filme não tenta apagar as marcas de onde vem para circular fora dali. Pelo contrário. Assume o território, as relações, o jeito de falar, o humor e os códigos daquela família. E foi carregando tudo isso que conseguiu tocar quem encontrou pelo caminho.
Allan Deberton destacou em Gramado que 95% de “Feito Pipa” foi rodado em Quixadá/CE. O projeto começou a ser pensado ainda em 2015, passou por diferentes formatos, laboratórios, crises, busca por financiamento e levou quase uma década até chegar à tela. Uma caminhada longa que, como brincou André durante a conversa, também foi possível porque Allan é muito otimista.
É uma trajetória bonita, mas que também diz muito sobre as condições de fazer cinema no Brasil. Produzir fora do eixo Rio-São Paulo ainda exige uma resistência enorme, depende de rede, política pública, financiamento, circulação e de uma insistência que muitas vezes ultrapassa o próprio tempo do projeto. E, depois que o filme finalmente existe, continua outro gargalo: fazer com que ele seja visto.
É aí que a fala de Lázaro Ramos lá do começo volta com outro peso. O cinema brasileiro pode fazer uma superprodução como “Antártida”, pode fazer um filme íntimo como “Feito Pipa”, pode ocupar muitos gêneros, escalas e linguagens. O problema é que as condições para que esses filmes consigam existir e depois chegar ao público ainda são muito desiguais.
“Feito Pipa” parte de uma experiência muito particular sem tratar isso como algo pequeno. Pelo contrário. O filme já mostrou, fora do Brasil, o quanto essa história consegue tocar públicos muito diferentes. Agora, com a estreia nacional em Gramado, começa outra etapa: a de finalmente encontrar o público brasileiro.
E tomara que encontre muita gente. Porque “Feito Pipa” é desses filmes que terminam e deixam uma vontade quase imediata de voltar para eles. Como uma música boa que acaba e a gente coloca para tocar de novo.
