Entre teias e mistérios, Nicolas Cage assume o papel do ‘Homem-Aranha Noir’

Portal Inhaí
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Por Hyader Epaminondas

Depois de anos vendo a Sony, atual detentora dos direitos no audiovisual do personagem, insistir em decisões cada vez mais questionáveis, com produções como “Morbius”, “Madame Teia” e “Kraven, o Caçador” tentando transformar coadjuvantes e antagonistas em protagonistas de universos que nunca encontravam sua própria razão de existir, ficava evidente que todos compartilhavam o mesmo problema: a ausência do Homem-Aranha. Ao tentar expandir esses universos sem seu principal pilar, o estúdio acabou removendo justamente o elemento que dá contexto, conflito e densidade a muitos desses personagens, que só alcançam seu verdadeiro potencial em relação direta com Peter Parker.

Por isso, é curioso ver que a adaptação Noir do Prime Video segue o caminho oposto. Depois de mostrar um pequeno aperitivo em “Homem-Aranha no Aranhaverso”, onde essa estética funciona extremamente bem, a série, ao longo de seus oito episódios, entende que esse universo monocromático não é interessante apenas pela ambientação ou pelos personagens excêntricos, mas porque continua sendo, acima de tudo, uma ótima história do Homem-Aranha.

Com a opção de assistir à produção tanto na versão original em preto e branco quanto em cores, eu sei que deveria ter escolhido a experiência monocromática, mas foi impossível resistir à tela ultrassaturada que vibra em tons vivos, criando um contraste com o traje sombrio de Nicolas Cage na pele do Amigão da Vizinhança. Em vez do visual desenhado entre luz e sombra que normalmente dita as regras do gênero noir, a fotografia explode em uma paleta febril, usando os tons de preto do uniforme como moldura para destacar a melancolia do protagonista.

Cage, o ator mais assumidamente nerd de Hollywood, aposenta definitivamente a opulência infernal da moto flamejante do Motoqueiro Fantasma para encarnar o aracnídeo em sua faceta mais amadurecida pela perda. Nesse universo reinventado, o herói não é Peter Parker, mas assume a identidade de Ben Reilly.

Ele é a encarnação do Aranha que viveu demais, um homem envelhecido, fraturado pelo tempo, que escolheu abdicar dos grandes poderes e do fardo sufocante da responsabilidade após o falecimento do amor de sua vida. Reilly arrasta sua desilusão pelos becos de uma Nova York cinquentista, um cenário impregnado pela herança pulp dos romances de banca de jornal e pelos estereótipos deliciosamente clássicos do cinema policial de Hollywood. Em meio a clubes de jazz esfumaçados, o charme decadente de Cage opera como o centro de gravidade de uma metrópole em ruínas.

A sinestesia da investigação

A direção transforma a atmosfera urbana em uma experiência sensorial, com o granulado da série carregando o cheiro invisível de nicotina, o gosto amargo de café amanhecido e o perigo iminente das reviravoltas arquitetadas pela máfia local sob as sombras remanescentes da Lei Seca.

Os enquadramentos casam, com precisão cirúrgica, o expressionismo do cinema noir e o dinamismo das páginas dos quadrinhos. Através de planos zenitais e visões de cima para baixo, a câmera posiciona Reilly como uma criatura encurralada no centro de uma teia invisível de conspirações políticas e sociais, e Cage está caricato, mas no melhor sentido da palavra, abraçando um exagero que combina perfeitamente com o clima da época.

Nesse labirinto de concreto, as habilidades do herói são ressignificadas pela lógica da investigação noir. O sentido aranha deixa de ser um superpoder conveniente e se transforma em uma enxaqueca crônica, um martírio neurológico que Reilly tenta anestesiar com uma mistura de cafeína e álcool de contrabando. Essa abordagem também se reflete na construção física do personagem, com uma abordagem até então não explorada, trazendo para o audiovisual uma perspectiva totêmica do Homem-Aranha inspirada na fase de J. Michael Straczynski nos quadrinhos. Cage se movimenta com gestos circenses, poses exageradas e maneirismos caricatos que buscam emular uma aranha, tornando sua presença simultaneamente estranha, inquietante e hipnótica.

Enquanto Reilly opera nas sombras da ilegalidade, vasculhando a miséria urbana, Robbie Robertson, interpretado por Lamorne Morris, surge como o contraponto, entrevistando fontes à luz do dia à procura de respostas para o assassinato que inaugura a temporada. Através de seus textos na era de ouro do jornalismo impresso, Robertson tenta resgatar a dignidade perdida do aracnídeo em meio à sua jornada de redenção no Clarim Diário.

A dinâmica entre o detetive mascarado e o jornalista funciona como um solo e um coro, uma aliança indispensável para decifrar uma cidade onde os vilões clássicos do Aranha retornam despidos de sua cafonice uniformizada, ostentando visuais contidos, pés no chão e assustadoramente realistas. São versões do Electro, Lápide e Homem-Areia como nunca vimos antes. O verdadeiro horror da série não advém do fantástico, mas da constatação de uma Nova York cujo tecido social está totalmente esgarçado, asfixiado pela influência invisível do crime organizado que dita as regras do jogo e elege seus líderes políticos.

A trama retoma o retrato de uma geração de veteranos de guerra: homens que cruzaram o oceano para defender sua pátria e retornaram aos Estados Unidos apenas para encontrar o desamparo, a miséria institucionalizada e, muitas vezes, a única sensação de pertencimento nos braços acolhedores da criminalidade. Se nos cinemas o herói tece teias para salvar cidadãos, no universo Noir ele precisa costurar os retalhos de uma sociedade abandonada pelo próprio Estado.

É uma versão de um Homem-Aranha que, mesmo despido das ilusões da juventude, continua disposto a vestir a máscara novamente para impedir que sua cidade seja consumida pela criminalidade. A história se afasta bastante da versão dos quadrinhos do selo Noir, mas entende o que realmente importa: preservar a essência do personagem enquanto encontra uma identidade própria nessa primeira temporada extremamente divertida.



Por Midia Ninja

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