Se existe uma sigla que atravessou o cotidiano das pessoas ativistas no Brasil em 2025, é impossível ignorar três letras: COP. A Conferência das Partes, que por quase três décadas mobilizou majoritariamente ambientalistas e especialistas da pauta climática, tornou-se neste ano um eixo central de articulação política, social e simbólica muito mais amplo.
Foi difícil encontrar algum espectro dos movimentos sociais — povos tradicionais, coletivos antirracistas, feministas, LGBTQIAPN+, ambientalistas, organizações da sociedade civil, ONGs, partidos de esquerda, militância progressista e até setores críticos à própria conferência — que não estivesse presente em Belém ou conectado às atividades e articulações que antecederam o evento. Entre engajamento direto e críticas estruturais, a COP passou a ser entendida como espaço estratégico de disputa sobre o futuro do planeta e da democracia.

Nesse cenário, ganha destaque o papel histórico dos conselhos municipais de controle social, previstos na Constituição Federal de 1988. Esses espaços são fundamentais para o fortalecimento da democracia participativa, permitindo que a sociedade civil atue diretamente na formulação, fiscalização e avaliação de políticas públicas em áreas como saúde, assistência social, educação, cultura, meio ambiente e direitos humanos. Mais do que instâncias formais, os conselhos são instrumentos de pertencimento, acolhimento e corresponsabilidade coletiva, promovendo transversalidade entre secretarias, políticas públicas e territórios.
Em Peruíbe, 2025 marcou o primeiro ano de uma nova gestão municipal e apresentou um crescimento significativo de eventos socioculturais. Esse movimento trouxe impactos positivos e negativos à qualidade de vida local. Positivos, por ampliar a diversidade cultural, fortalecer identidades e dar visibilidade a segmentos historicamente marginalizados. Negativos, pelo aumento da emissão de carbono, especialmente de CO₂, associado à intensificação de atividades humanas, deslocamentos e consumo.

Embora inserido em um microterritório da Baixada Santista, Peruíbe não está isolada do contexto global. Vivemos recordes históricos de aquecimento global, agravamento do efeito estufa e eventos climáticos extremos, com níveis atmosféricos nunca vistos em milhões de anos. Esse cenário exige respostas urgentes: investimento em energias renováveis, mudança de hábitos de consumo, ampliação da coleta seletiva, políticas públicas de mitigação e compensação de carbono, como o plantio sistemático de árvores.
O texto de Vitório, que inspira esta reflexão de encerramento de ano, propõe exatamente essa leitura integrada: nossos territórios funcionam como o “efeito borboleta”. Pequenas ações locais se somam e reverberam globalmente. Não estamos separados do meio ambiente ecológico. A crise climática não é um problema distante, nem exclusivamente técnico — ela atravessa corpos, identidades, direitos e modos de existir.
Essa compreensão dialoga diretamente com o legado de Papa Francisco (in memoriam), que deixou uma das sínteses mais potentes do nosso tempo ao afirmar, na encíclica Fratelli Tutti:
“Somos todos irmãos e irmãs nesta Casa Comum; interligados ao meio ambiente ecológico; em comunhão — na união, na partilha e na participação conjunta — para o bem-estar de todas as pessoas.”
A fala de Francisco reforça que não existe justiça social sem justiça ambiental. Não há direitos humanos garantidos em um planeta adoecido. Defender a população LGBTQIAPN+, combater o racismo, o machismo, a transfobia e a xenofobia também passa, necessariamente, por defender o clima, os territórios e todas as formas de vida.
Encerrar 2025 com essa reflexão é reconhecer que a luta por direitos não pode caminhar dissociada do cuidado com a Casa Comum. Que os trilhos da solidariedade construídos ao longo deste ano nos conduzam a 2026 com coragem, consciência crítica e compromisso coletivo. Que sigamos apontando responsabilidades, defendendo a democracia e imaginando — juntos — um projeto de mundo baseado no bem-viver.
Até a próxima trincheira. Até 2026. Que os militantes descansem — porque amanhã, a luta continua.

Vitório César
Decano no Movimento Político Homossexual (1977–1981); publicitário e sociólogo, pós-graduado em Gestão no Terceiro Setor; ativista antirracista, feminista, anti-xenofobia, ambientalista e epicurista; defensor de uma economia humanista, solidária, cooperativa e que não mata; presidente do Conselho Municipal da Diversidade Sexual e de Gênero de Peruíbe/SP.
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