Dorinha — Travesti, mãe de santo e resistência viva dos Coelhos

Ghe Santos
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No coração do Recife, entre vielas, comércio e memórias que atravessam gerações, mora Dorinha — travesti, periférica, mãe de santo e figura de referência no bairro dos Coelhos. Registrada no curta Mãe Dorinha (2019), produzido nas oficinas do projeto Documentando sob a articulação do cineasta Marlom Meirelles e em parceria com o coletivo Leões do Norte, sua história é narrada como exemplo de resistência, cuidado e ancestralidade. Ao contrário de boatos que circularam, Dorinha está viva — e continua sendo, nas palavras e nos gestos, “a última”.

Um corpo que nomeia e acolhe

Mais do que um nome numa ficha técnica, Dorinha ocupa um lugar simbólico no tecido social dos Coelhos. A prática de “batizar” as travestis mais novas — dá-las um nome, acolhê-las, introduzi-las numa rede de proteção e pertencimento — é parte central da sua atuação. Esse ofício de nomear é rito e reafirmação: nasce da necessidade de criar laços em contextos onde o abandono, a violência e a invisibilidade são recorrentes.

No curta Mãe Dorinha, a personagem é apresentada como alguém que conjuga espiritualidade e cuidado social. Como mãe de santo, ela guarda um axé que se projeta para além do terreiro: seu espaço ritual conecta-se com a rua, com as moradoras e moradores, com as travestis que buscam acolhida. Em meio a um cenário de perdas — muitas amigas e referenciadas foram assassinadas nos anos recentes, reflexo da transfobia letal que atravessa o país — Dorinha persiste e protege.

Entre o candomblé e a rua: espiritualidade como política

A relação entre fé e identidade é um elemento central na vida de Dorinha. O candomblé, religião de matriz africana que legitimou sua atuação como mãe de santo, não é aqui apenas esfera íntima: é força política. No terreiro, ritos, cantos e nomes são instrumentos de cuidado; na rua, essa autoridade mística transforma-se em acolhimento prático — orientações, teto, engajamento comunitário.

Essa intersecção (identidade de gênero × religião de matriz africana × periferia) dá à Dorinha uma presença singular: ela é simultaneamente exemplo espiritual, liderança local e referência afetiva. O documentário que a tem como personagem coloca essa complexa tessitura em foco e a apresenta como um “corpo político”, alguém cuja existência desafia normas sociais e abre espaços de sentido para quem a cerca.

“Eu sou a última”: voz, afirmação e provocação

Em uma das falas mais contundentes atribuídas a ela, que trazemos aqui na íntegra por ser um trecho que sintetiza identidade, humor e autoridade, Dorinha diz:

“e essas bicha nova perigosíssima que quer ser perigosa eu só digo isso que elas vão tudo na minha frente porque eu sou a ultima eu sou a ultima”

A frase é potente em vários níveis. Há ali o humor duro e a ironia — o reconhecimento de novas gerações que se arriscam, a observação sobre posturas de perigo numa rua que já devorou muitas existências — e, ao mesmo tempo, a afirmação de uma liderança: “eu sou a última”. Essa palavra — “última” — pode ser lida como aviso, legado e desafio. Aviso: ela viu o que o perigo faz; legado: carrega saudade e ensinamento; desafio: coloca a si mesma como quem resiste até o fim, como quem guarda memória e nomeia continuidade.

Documentando: cine e coletividade

O curta Mãe Dorinha nasceu no âmbito do projeto Documentando, iniciativa de formação audiovisual que desde 2009 tem levado oficinas e autonomia técnica a diversas regiões de Pernambuco. Idealizado por Marlom Meirelles e executado em articulação com atores locais, o projeto já produziu dezenas de curtas que tinham — e têm — um ponto em comum: dar voz a quem frequentemente fica fora dos circuitos mainstream.

A parceria com a ONG Leões do Norte — movimento LGBT histórico do estado — foi essencial para que personagens como Dorinha chegassem à tela. Leões do Norte atua na defesa de direitos, acolhimento e visibilidade; o Documentando ofereceu a plataforma técnica para registrar esses rostos e vozes. O resultado é um arquivo audiovisual que funciona como memória e documento político: curtos que, somados, compõem um panorama de vidas periféricas, dissidentes e resistentes em Pernambuco.

O anonimato como escolha e proteção

Importante destacar: não há, nos registros públicos pesquisados, menção ao nome civil de Dorinha. Esse anonimato não é apenas omissão jornalística; muitas vezes, é escolha de proteção. Em contextos de transfobia violenta, preservar identidade civil — quando o protagonista atua publicamente como uma figura travesti e mãe de santo — pode ser medida de segurança para evitar exposição e risco. Respeitar essa fronteira entre o nome do terreiro, a identidade pública e a vida privada é, portanto, também um gesto ético.

Por que contar essa história importa?

Contar Dorinha é contar as encruzilhadas do Recife central: onde religião de matriz africana, luta por visibilidade trans e economia informal se cruzam; onde perdas cotidianas moldam narrativas de cuidado; onde o cinema comunitário atua como arquivo de resistência. Ao colocar no holofote uma figura viva, que acolhe e nomeia, a narrativa confronta o apagamento que frequentemente atinge travestis e mães de santo periféricas.

Além disso, histórias como a de Dorinha ampliam compreensão pública sobre questões como: redes de afeto em periferias, intersecções entre religião e gênero, práticas de solidariedade em ambientes marcados pela violência. São também lembretes de que documentários curtos — quando produzidos com ética e participação comunitária — podem fortalecer memórias e acionar políticas de visibilidade e proteção.

Como acompanhar e apoiar

  • Assista ao curta Mãe Dorinha no portal do projeto Documentando para ver a narrativa na voz, no gesto e no cotidiano de Dorinha.
  • Procure informações e ações promovidas pelo coletivo Leões do Norte — apoiar coletivos locais é apoiar as redes que protegem e fortalecem vidas dissidentes.
  • Ao produzir conteúdo sobre pessoas em situação de vulnerabilidade, priorize consentimento, cuidado com a exposição e, quando necessário, a preservação do anonimato.

Dorinha é, hoje, um sinal de que é possível sobreviver e cuidar em contextos hostis. Seu terreiro, sua voz e a fala contundente — “eu sou a última” — permanecem como marca de uma vida que ensina a nomear, acolher e resistir. Como registro audiovisual e como presença comunitária, ela segue atuante: mãe, travesti, símbolo de resistência no centro do Recife.

Créditos: Mãe Dorinha (2019) — Projeto Documentando / Marlom Meirelles. Apoio e articulação: Leões do Norte.

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