Por Renan Paiva
No esporte, a violência nem sempre aparece como agressão. Às vezes chega disfarçada de disciplina, de formação de caráter, de preparação para o alto rendimento. Está no grito humilhante do treinador, no assédio que ninguém nomeia, na pressão sobre o corpo das atletas ou no silêncio de quem depende daquela estrutura para continuar competindo.
É contra essa cultura que o Safe Sport Day mobiliza organizações esportivas do mundo inteiro neste sábado (8). Em 2026, o chamado da campanha é direto: “Stand up. Speak out. Play your part” traduzindo ‘’Levante-se, fale, faça a sua parte’’.
O que é a campanha
O Safe Sport Day é conduzido pela Safe Sport International, organização que é membro fundadora das Salvaguardas Internacionais para Crianças no Esporte. A proposta vai além do post nas redes: a campanha pede que cada organização escolha uma ação concreta, adotar protocolos, treinar equipes, revisar critérios de contratação, criar canais de escuta ou prestar contas sobre o que já fez.
Este ano a campanha também chama atenção para um grupo que costuma ficar de fora do debate: as crianças e adolescentes que não são atletas, mas fazem o esporte acontecer, quem apita, quem treina os menores, quem recolhe bola. A entidade disponibiliza materiais gratuitos para clubes, federações e projetos que queiram aderir.
Quando o sofrimento vira método
Por décadas, o esporte conviveu com a ideia de que sofrer faz parte do caminho até o pódio. O atleta que reclama vira fraco. A criança que sente medo é acusada de falta de comprometimento. A mulher que denuncia assédio é questionada sobre a roupa, sobre o comportamento, sobre o momento escolhido para falar.
Um levantamento da Unesco, citado pela campanha internacional, aponta que 21% das atletas mulheres e 11% dos homens ouvidos relataram ter sofrido alguma forma de abuso sexual quando ainda eram crianças no esporte.
Esses dados ajudam a mostrar que situações de violência e comportamentos inadequados no esporte não são necessariamente episódios isolados. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) reúne, na página do Programa Esporte Seguro, referências a estudos e consensos científicos, como o publicado pelo Comitê Olímpico Internacional, que apontam a existência de diferentes formas de violência no ambiente esportivo. As evidências também indicam que o impacto pode variar conforme o contexto e atingir atletas de diferentes idades, gêneros e orientações sexuais.
O que o COB fez esta semana
Dois dias antes da data, na quinta-feira (6), o COB realizou o III Fórum Esporte Seguro no Hotel Hilton Copacabana, no Rio de Janeiro, com o tema “Esporte Seguro é para Todos”. O encontro reuniu atletas, treinadores, gestores e profissionais de saúde em quatro painéis.
A ex-nadadora olímpica Joanna Maranhão abriu o primeiro deles, “O Atleta no Centro do Esporte Seguro”, seguido de mesa-redonda com a ginasta Daiane dos Santos e Fernanda Nunes, presidente da Comissão de Atletas do COB. O segundo painel tratou de governança e prevenção, com Hannah Hinton, vice-presidente de auditoria e compliance do U.S. Center for SafeSport.
A presença de ex-atletas nesse debate tem peso próprio: quem viveu a rotina de treinos, competições e hierarquias conhece o custo do silêncio. “Promover um ambiente esportivo seguro é uma responsabilidade compartilhada”, disse Mariany Nonaka, ex-atleta olímpica de tênis de mesa e especialista em Esporte Seguro no COB.
O acesso ao esporte também é desigual
A campanha internacional inclui entre seus objetivos dar visibilidade a vozes marginalizadas e essa é uma parte pouco discutida do assunto. Crianças negras, pessoas com deficiência, jovens LGBTQIAPN+, meninas e moradores de periferias enfrentam barreiras para entrar e para permanecer no esporte. Quando conseguem chegar, nem sempre encontram profissionais capacitados, protocolos de proteção ou canais de denúncia.
Não à toa, o próprio Programa Esporte Seguro mantém cursos gratuitos sobre igualdade de gênero, esporte antirracista e prevenção ao assédio e abuso, com versões específicas para adultos e para jovens de 12 a 17 anos.
Onde denunciar
O COB mantém um canal de ouvidoria e ética independente, disponível 24 horas, administrado por empresa terceirizada, com garantia de sigilo e possibilidade de relato anônimo. O canal atende integrantes do Time Brasil, colaboradores, prestadores de serviço e voluntários ligados ao COB.
Para quem está fora dessa estrutura ou não se sente seguro usando um canal institucional — existem os serviços públicos: Disque 100, Ligue 180, Conselho Tutelar, delegacias especializadas, Ministério Público e Vara da Infância e da Juventude.
Mas denunciar não pode ser a única estratégia. A proteção começa antes: na formação de quem treina, na supervisão das relações, na escuta de crianças e adolescentes e na disposição de interromper práticas abusivas antes que virem rotina.
O jogo só é justo quando todo mundo está seguro
O Dia do Esporte Seguro existe porque ainda há instituições que precisam ser cobradas, vítimas que precisam ser ouvidas e comunidades que precisam saber que nenhum troféu justifica a violação de um direito.
Neste 8 de agosto, o pedido é simples e difícil ao mesmo tempo: falar sobre o que ficou escondido por muito tempo e assumir responsabilidade. Porque esporte seguro não é favor institucional nem prêmio de boa conduta. É direito, e é para todas e todos.
Serviço
Canal de Ouvidoria e Ética do Programa Esporte Seguro (COB), disponível 24 horas:
• WhatsApp: +55 31 98947-7889 (código de acesso: COB)
• Telefone: 0800 591 5446
• Site: canal.ouvidordigital.com.br/cob
Canais públicos: Disque 100 (violações de direitos humanos) e Ligue 180 (mulheres em situação de violência). Também é possível acionar Conselho Tutelar, delegacias especializadas e Ministério Público.
