Por Nathalin Gorska – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A Seleção Brasileira é a maior campeã da história das Copas do Mundo, com cinco títulos conquistados. No entanto, desde 2002, quando levantou a taça pela última vez, o torcedor brasileiro convive com a espera pelo tão sonhado hexacampeonato. Passadas mais de duas décadas, a pergunta que acompanha cada nova geração é a mesma: quando o Brasil voltará a ser campeão do mundo?
Não é à toa que o Brasil leva o título de país do futebol. Essa relação foi construída ao longo de uma história vitoriosa. Os títulos conquistados em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 transformaram a nação em uma potência a nível mundial. Gerações inteiras cresceram associando a Seleção Brasileira ao sucesso e ao talento. Nomes como Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká não só conquistaram títulos, mas ajudaram a consolidar uma conexão emocional entre o povo brasileiro e a camisa amarela.
No entanto, desde a conquista da Copa do Mundo de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, o Brasil não voltou a levantar o troféu mais importante do futebol. São 24 anos de espera pelo hexa, um período marcado por eliminações dolorosas e pressão em jogadores, técnicos e dirigentes.
A trajetória brasileira nas Copas desde então evidencia essa frustração. Em 2006, uma seleção repleta de estrelas foi eliminada pela França nas quartas de final. Em 2010, a derrota para a Holanda interrompeu novamente o sonho do título. Quatro anos depois, o país viveu um dos capítulos mais traumáticos de sua história esportiva: a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, em Belo Horizonte, na semifinal da Copa do Mundo de 2014.
Para muitos torcedores, o resultado representou uma ruptura simbólica. A seleção que antes parecia invencível passou a ser vista com desconfiança.
Nos anos seguintes, o Brasil voltou a montar equipes competitivas e revelou talentos, ainda assim, as eliminações nas quartas de final das Copas de 2018, contra a Bélgica, e de 2022, diante da Croácia, reforçaram a sensação de que a seleção não consegue transformar seu potencial em conquistas mundiais.
Os reflexos desse cenário aparecem nas pesquisas de opinião. Um levantamento do Datafolha apontou que 54% dos brasileiros com até 16 anos não têm interesse pela Copa do Mundo masculina. O dado chama atenção por revelar um possível distanciamento justamente da geração que nunca viu o Brasil ser campeão mundial.
Outra pesquisa, realizada pela AtlasIntel, indica que o vínculo emocional entre torcida e seleção também passa por transformações. Segundo o levantamento, 39,8% dos entrevistados afirmam sentir desconfiança em relação à Seleção Brasileira. Outros 31,8% dizem sentir indiferença, enquanto apenas 23,1% demonstram esperança.
Os números ajudam a explicar uma mudança perceptível nas ruas. Se em outras décadas era comum encontrar cidades inteiras decoradas durante os períodos de Copa do Mundo, hoje a mobilização parece menor.
Existem várias explicações para essa mudança. Com o avanço das redes sociais, a relação entre público e atletas se alterou. Os jogadores estão mais próximos dos torcedores, mas também mais expostos às críticas. O ambiente digital ampliou debates, polarizações e cobranças, tornando o vínculo mais complexo do que em décadas anteriores.
Ainda assim, seria precipitado afirmar que o brasileiro perdeu completamente sua paixão pela Seleção Brasileira. A Copa do Mundo continua sendo o evento esportivo mais acompanhado do planeta e mobiliza milhões de pessoas a cada edição. O que parece estar em curso não é necessariamente o fim dessa relação, mas uma transformação.
É nesse contexto que surge uma pergunta cada vez mais presente entre torcedores, pesquisadores e profissionais: o brasileiro está cansado da Seleção Brasileira ou só frustrado por uma espera que já dura mais de 20 anos?
Para compreender melhor esse cenário, o NINJA Esporte Clube conversou com Rodrigo Santana (26), jornalista e torcedor que faz parte da geração que, apesar de ter nascido na última vitória da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo, não vivenciou o Brasil ser campeão. Santana comentou sobre o distanciamento que a seleção enfrentou em Copas passadas, mas enfatiza que percebeu um maior envolvimento da torcida para a Copa do Mundo de 2026.
Além disso, falou sobre o que o hexacampeonato poderia significar: “Poderia ser [a vitória da seleção] um passo a mais para poder aproximar novamente a torcida, já que um dos motivos desse afastamento é por uma geração que não vence o principal: A Copa do Mundo”.
O NEC também conversou com Rodrigo Oliveira (32), que, durante a Copa do Mundo de 2002, viveu o campeonato à la Brasil. Oliveira estava internado em uma unidade semi-intensiva, por complicações de saúde, e, ainda assim, não deixou de acompanhar os jogos da Seleção Brasileira, que, em sua maioria, aconteciam de madrugada, por conta do fuso horário.
Quando questionado sobre o apoio da torcida de 2002 em comparação com as torcidas atuais, deu mais detalhes sobre as diferenças que encontra: “Pelo menos até 2010 eu via as pessoas torcendo muito mais pela seleção do que ocorreu de 2014 para cá. Naquela época, eu via muita bandeira nas casas […], mas principalmente depois de 2014 e 2018, eu vejo pouquíssimas pessoas terem o engajamento de torcer para a seleção”, conta.
Oliveira ainda acrescenta que um dos motivos de uma parcela da população estar distante da Seleção Brasileira é a política. Para ele, a apropriação da camisa da seleção para fins políticos criou, nos torcedores, receio de vestir o manto verde e amarelo.
O fato é que, apesar de todos os contras, ainda existirão aqueles que, mesmo após derrotas e anos sem experimentar a vitória, continuarão a acreditar e, acima de tudo, a sonhar com o hexacampeonato. Afinal, para muitos brasileiros, a esperança de voltar a gritar “campeão” permanece viva. E, quem sabe, algum dia, voltarão a se cumprir as palavras: “Verás que um filho teu não foge à luta”.
*Com dados de Datafolha e AtlasIntel.
