Quando Arthur Elias foi anunciado como técnico da Seleção Brasileira feminina, em 1º de setembro de 2023, o Brasil vinha de uma eliminação na fase de grupos da Copa do Mundo da Austrália e da Nova Zelândia — algo que não acontecia desde 1995. Quase três anos depois, a equipe soma uma medalha olímpica, dois títulos e uma Copa do Mundo em casa pela frente.
O caminho entre um ponto e outro ajuda a entender o que mudou.
A herança de 2023
Arthur chegou para substituir a sueca Pia Sundhage e assinou contrato de quatro anos , até o fim do Mundial de 2027. Vinha do Corinthians, onde conquistou quatro Brasileirões, três Libertadores e três Paulistas.
A missão era dupla: recuperar a competitividade no curto prazo e, ao mesmo tempo, administrar a transição entre a geração de Marta, Tamires e Cristiane e um grupo de jogadoras que ainda buscava espaço.
Nos primeiros meses, o treinador usou as convocações como período de observação — a primeira delas foi realizada na Granja Comary, sem amistosos, reunindo 30 atletas apenas para treinamentos.
O primeiro teste competitivo veio no início de 2024, na Copa Ouro da Concacaf. O Brasil chegou à final, mas acabou derrotado pelos Estados Unidos.
Paris 2024: a prata que mudou a percepção
Os Jogos Olímpicos foram o divisor de águas. Nas quartas de final, o Brasil venceu a França, anfitriã da competição, por 1 a 0. Na semifinal, superou a Espanha, então campeã mundial, por 4 a 2. A final contra os Estados Unidos terminou em 1 a 0 para as norte-americanas, com gol de Mallory Swanson.
Foi a terceira medalha de prata olímpica do futebol feminino brasileiro, depois de Atenas 2004 e Pequim 2008, e o retorno ao pódio após 16 anos. A campanha ainda teve a expulsão de Marta na fase de grupos, contra a Espanha, o que obrigou o grupo a se reorganizar sem a principal referência da equipe em parte do torneio.
Copa América, e depois o FIFA Series
Em 2025, o Brasil foi ao Equador defender a hegemonia continental — já eram oito títulos em nove edições. A convocação mostrou o tamanho da renovação: apenas nove jogadoras da lista de 2022 permaneceram.
A final contra a Colômbia, em Quito, terminou 4 a 4 após a prorrogação, com o Brasil reagindo mais de uma vez. Nos pênaltis, a Seleção venceu e conquistou o nono título continental — o primeiro de Arthur no comando. Marta foi decisiva na decisão; Lorena, goleira de uma geração mais nova, defendeu cobranças. O ano terminou com dez vitórias, dois empates e três derrotas, aproveitamento de 71,1%.
Em abril de 2026, veio o segundo título. Na primeira edição feminina do FIFA Series, disputada na Arena Pantanal, em Cuiabá, o Brasil venceu os três jogos: 5 a 1 na Coreia do Sul, 6 a 1 na Zâmbia e 1 a 0 no Canadá, com gol de Aline Gomes na decisão. Foi uma campanha com 100% de aproveitamento.
Em junho, em amistoso disputado no Brasil, a Seleção venceu os Estados Unidos de virada, com gols de Tainá Maranhão e Bia Zaneratto, diante de mais de 37 mil torcedores — recorde de público da equipe no Nordeste.
A renovação que não virou ruptura
A escolha central de Arthur foi não romper com o passado. Em vez de dispensar as veteranas, ele misturou três grupos: jogadoras experientes, atletas em fase madura e jovens.
O caso mais visível é o de Marta. Ela segue sendo convocada, mas deixou de ser a centralidade permanente do time: em alguns jogos, começa no banco; em outros, entra para mudar o ritmo do ataque. A lógica é preparar a Seleção para jogar sem ela sem abrir mão do que ela ainda entrega.
A abertura também vale para nomes que voltaram. Em 2026, Tamires, aos 38 anos, foi rechamada depois do Mundial de Clubes; Luana retornou após um ano e quatro meses de tratamento contra um linfoma. Ao anunciar a lista, Arthur defendeu a convocação de atletas mais velhas e disse que a Seleção está aberta a todas, independentemente da idade.
O que ainda falta responder
A um ano do Mundial, o elenco não está fechado. Em Itu, no interior de São Paulo, a comissão técnica reuniu 30 jogadoras em um período de treinos com o objetivo declarado de observar quem pode disputar as 26 vagas.
Algumas perguntas seguem em aberto: quem será a goleira titular, qual será a dupla de zaga e como o Brasil distribuirá entre várias atletas as funções que Marta exerceu por anos. Há ainda o desafio de manter o equilíbrio defensivo em um time que pressiona alto, além de contar com profundidade de elenco para sete jogos em poucas semanas. Lesões pesam nessa conta — a zagueira Tainara, do Cruzeiro, rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo em maio.
Um ano até a Copa em casa
A Copa do Mundo de 2027 será disputada entre 24 de junho e 25 de julho, a primeira sediada na América do Sul. O Brasil nunca venceu o torneio: a melhor campanha segue sendo o vice-campeonato de 2007, na China, com o terceiro lugar de 2019 logo atrás.
Jogar em casa muda a equação nos dois sentidos. Amplia o apoio e a visibilidade, mas também a cobrança. Arthur Elias assumiu dizendo que a Seleção precisava voltar a ser protagonista mundial. Em 2026, o Brasil chega ao último ano de preparação com dois títulos, uma prata olímpica e uma lista que ainda não está pronta.
