Por Vinicius Francisco
“Uma semana eu estou em Berlim. Na outra, estou dentro do Complexo do Alemão no meio de uma operação policial.”
A frase de Tuany Nascimento, artista da Cia. REC e uma das criadoras de Lavagem, ajuda a traduzir parte das contradições que atravessam a companhia e o próprio espetáculo, apresentado neste fim de semana no Sesc Pompeia, em São Paulo.
Em cena, seis artistas dividem o espaço com baldes, água, sabão e espuma. O gesto cotidiano de lavar se repete até deixar de ser banal. Os corpos são molhados, cobertos, esfregados e atravessados por imagens que remetem a trabalho, êxodo, rituais, renascimento, desigualdade e resistência.
A pergunta que paira sobre a obra é simples apenas na aparência: o que precisa ser limpo?
A sujeira de uma casa? Os rastros da história? As marcas da desigualdade? As hierarquias que determinam quem serve, quem é servido, quem pode circular e quem permanece preso a um lugar social?
Em Lavagem, realidade e fantasia se misturam. A espuma cria beleza, mas também pode esconder. As bolhas constroem, por alguns instantes, um universo de sonho que contrasta com uma realidade onde a mobilidade social continua distante para grande parte da população.
Para Tuany, porém, aquilo que aparece no palco não é apenas metáfora.
“Quando penso nas minhas vivências, no meu território e no trabalho, acho que Lavagem é memória de muita coisa que eu vi e vivi. Quase tudo da minha história está dentro dele.”
Algumas cenas levam a artista diretamente à infância e às lembranças da mãe trabalhando como faxineira.
“Tem cenas que me remetem muito a coisas que vivi com a minha mãe, de fazer faxina na casa de outras pessoas e depois voltar para dentro da favela. Esse trajeto atravessava a minha infância.”
Para ela, a repetição dos movimentos também carrega a memória de um trabalho exaustivo e da tentativa constante de seguir em frente.
“Essa tentativa de se reerguer, de renascer a partir de um trabalho repetitivo e exaustivo, são coisas que ficam da minha essência dentro do espetáculo.”

Um corpo negro coberto por espuma branca
A origem de Lavagem também parte das experiências dos próprios artistas da companhia.
Segundo a diretora Alice Ripoll, foi Alan Ferreira quem trouxe a primeira imagem que começaria a dar forma ao espetáculo.
“Ele falou: ‘Estou imaginando uma cena de um corpo negro com uma espuma branca’.”
A imagem abriu caminho para outras memórias. Alan trouxe histórias de mães, avós e mulheres da família que passaram parte da vida trabalhando com limpeza. Ao mesmo tempo, apareceu uma contradição histórica: a associação racista entre corpos negros e a ideia de sujeira.
“Esse foi o pontapé inicial”, explica Alice.
A partir dali, outras camadas foram sendo construídas coletivamente. A ideia original é de Alan Ferreira, e a criação de Lavagem é assinada por ele ao lado de Hiltinho Fantástico, Katiany Correia, Rômulo Galvão, Tony Hewerton e Tuany Nascimento.
Alice explica que essa construção coletiva faz parte da própria maneira de trabalhar da Cia. REC.
“A gente nunca trabalhou de uma maneira em que eu crio uma coreografia e ensino para eles. A criação acontece muito a partir das coisas que eles estão trazendo.”
Para a diretora, isso permite que cada artista permaneça reconhecível dentro do coletivo.
“Eles não estão ali reproduzindo a coreografia de uma coreógrafa. Estão se expressando através daquela movimentação.”
Uma companhia que nasceu do desejo de continuar
A história da Cia. REC começou há mais de 15 anos, depois que Alice passou a dar aulas de dança para jovens por meio de uma ONG no Rio de Janeiro.
Quando aquela parceria terminou, eles decidiram continuar juntos.
Não havia patrocínio, turnê internacional ou um projeto pronto esperando pelo grupo.
“Eu tinha vontade de pesquisar direção e eles tinham vontade de dançar. A gente teve um afeto muito forte e o desejo de continuar juntos”, conta Alice.
O encontro nasceu, segundo ela, da afinidade artística.
Vieram as primeiras criações, os festivais brasileiros e, posteriormente, uma trajetória que levou a companhia a importantes espaços internacionais, entre eles o Centre Pompidou, na França; o Kunstenfestivaldesarts, na Bélgica; o Wiener Festwochen, na Áustria; o Kampnagel, na Alemanha; e o Zürcher Theater Spektakel, na Suíça.
Alice, no entanto, rejeita uma narrativa simplificada de superação.
Ela reconhece que sua formação e sua origem social são diferentes das trajetórias dos artistas com quem começou a trabalhar.
“Eu não nasci na favela. Venho de outro contexto e tive uma formação mais tradicional em dança contemporânea. Não dá para dizer que foi simplesmente um grupo que veio da favela e fez esse caminho sozinho, porque as dificuldades seriam muito maiores.”
A diretora cita ferramentas que fazem diferença na possibilidade de circulação de um artista, como falar inglês, saber elaborar projetos e conhecer determinados códigos do circuito cultural.
“A gente não pode fechar os olhos para isso. Ainda existe esse abismo.”

Circular pelo mundo não apaga a desigualdade
É justamente esse abismo que aparece quando Tuany fala sobre sua própria trajetória.
Para uma artista que continua vivendo no Complexo do Alemão, viajar internacionalmente através da dança representa a realização de algo que, durante muito tempo, parecia distante.
“Para quem vem do território de onde eu venho, às vezes pensar em sair do próprio estado já parece muito. Quando você percebe que está saindo do seu país através da arte, é realizar sonhos que pareciam impossíveis.”
Mas sair também significa voltar.
“Quando volto para a minha favela com uma mala cheia de histórias, conhecimento e culturas diferentes que conheci pelo mundo, consigo ser um exemplo palpável para quem está ali.”
Tuany não transforma essa conquista em uma história de meritocracia.
“Eu ainda sou invisibilizada em alguns lugares. Ainda sinto a desigualdade gritar do meu lado quando estou no meu país e, principalmente, quando estou fora dele.”
Uma das barreiras aparece no próprio idioma.
“Eu ainda não falo inglês fluentemente porque não tive esse conhecimento dentro das escolas no ensino fundamental e médio.”
É nesse contexto que Tuany lança uma das frases mais fortes ao falar de sua trajetória:
“Quando a gente fala de um artista periférico que está circulando o mundo, ele ainda não venceu.”
Para ela, o desafio não termina quando uma oportunidade aparece. O problema é ter condições de permanecer na arte.
“O artista que está dentro da favela precisa sobreviver para esperar as coisas acontecerem. E sobreviver não permite necessariamente que ele vivencie a arte de forma plena.”
Tuany conta conhecer bailarinos que precisam escolher entre continuar estudando dança e aceitar trabalhos temporários para colocar comida na mesa.
“Enquanto a gente não tiver educação de qualidade e formação para que esses artistas estudem, cuidem do próprio corpo e possam se preparar para serem futuros diretores, vai passar um e depois vir outro na fila.”
Do Japão ao Sesc Pompeia
A própria trajetória de Lavagem revela como essas barreiras ultrapassam a experiência individual.
Segundo Alice Ripoll, apesar da extensa circulação da Cia. REC, o grupo não possui patrocínio permanente.
São as apresentações e turnês que ajudam a manter a companhia.
“Na Europa, quando eu falo que a gente não tem um patrocínio constante, eles ficam: ‘mas como assim?’. A conta não fecha.”
Alice afirma que a REC chega a apresentar seus trabalhos mais vezes fora do Brasil do que dentro do próprio país.
Lavagem é um exemplo emblemático.
O espetáculo já atravessou diferentes países e chegou até o Japão, mas, segundo a diretora, nunca foi apresentado no Rio de Janeiro, cidade onde foi criado.
“Você vê que loucura. Foi para muitos países, chegou até o Japão e nunca conseguiu ser apresentado no Rio.”
Para Alice, a situação evidencia um problema maior.
“Para qualquer companhia de dança é uma luta muito grande conseguir continuidade e circular pelo Brasil.”
Nos bastidores dessa trajetória está também Joana D’Aguiar, diretora de produção de Lavagem, responsável por parte da engrenagem necessária para fazer uma companhia independente circular entre teatros, festivais, cidades e países sem contar com financiamento permanente.
Agora, depois de tantas viagens e de poucas apresentações no Brasil, Lavagem encontra o público de São Paulo no Sesc Pompeia.
Chegar é uma coisa. Permanecer é outra.
Tuany dança desde os cinco anos.
Mas foi somente aos 25 que conseguiu viver profissionalmente da dança e pagar suas contas com a arte.
Foram 20 anos.
Hoje, quando conversa com jovens de sua comunidade, sua principal recomendação é estudar.
“Conhecimento ninguém tira de você.”
Para Tuany, existe uma diferença fundamental entre receber uma oportunidade e conseguir construir uma trajetória a partir dela.
“Você pode ter uma oportunidade e vivê-la uma vez só. É o estudo contínuo, do corpo, do intelecto, da técnica e do emocional, que vai te garantir continuar ali.”
Ao assistir a Lavagem no Sesc Pompeia, a força visual da água e da espuma chama atenção imediatamente. Mas, conforme os movimentos se repetem, o ato de lavar passa a carregar outras dimensões.
Há beleza, mas também exaustão.
Há sonho, mas também trabalho.
Há corpos sendo cobertos pela espuma e histórias que se recusam a desaparecer.
Talvez seja justamente aí que a trajetória da Cia. REC encontre a potência de Lavagem: artistas que atravessam fronteiras sem precisar apagar o território de onde vêm e que transformam suas próprias experiências em linguagem artística.
De Berlim ao Alemão, do Japão a São Paulo, os quilômetros percorridos são muitos.
Mas algumas distâncias sociais ainda permanecem muito maiores.
SERVIÇO
Lavagem | Alice Ripoll e Cia. REC
22 de agosto, sábado, às 19h
23 de agosto, domingo, às 17h
Sesc Pompeia | Galpão
Rua Clélia, 93, Pompeia, São Paulo
Duração: 60 minutos
Classificação etária: 14 anos
Ingressos:
R$ 60,00, inteira
R$ 30,00, meia-entrada
R$ 18,00, Credencial Plena
Direção: Alice Ripoll
Ideia original: Alan Ferreira
Criação: Alan Ferreira, Hiltinho Fantástico, Katiany Correia, Rômulo Galvão, Tony Hewerton e Tuany Nascimento
Direção de produção: Joana D’Aguiar
