Das bets às dívidas: quem lucra com a Copa?

Portal Inhaí
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Por Mariana Luz – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Já podemos tirar o elefante da sala e reconhecer que eventos como a Copa do Mundo, no que diz respeito ao futebol masculino, não são acessíveis. Entre celebridades, convidados e figuras políticas desse universo, ali estão os poucos sortudos com o privilégio de participar sem se afundar em dívidas, ou se afundando em busca de um sonho realizado. Você até pode ver algum deputado criticando a inveja alheia por estar em território estadunidense assistindo aos jogos, mas com um salário de quase R$ 50 mil mensais e praticando a escala 4×3, convenhamos que ele não serve de parâmetro por aqui.

Falando em dívidas, os últimos dados de 2025 e 2026 no Brasil mostram cerca de 80% das famílias inadimplentes e quase 13% declarando não ter condições de quitar seus débitos em atraso. Em 2025, também foram registrados 8,9 milhões de CNPJs negativados no país. Estaria o sonho neoliberal do empreendedor de si mesmo em xeque?

Em contraponto, no ano de 2025 — o primeiro sob a regulação das bets —, o Brasil encerrou o ano na quinta posição entre os maiores mercados de apostas do mundo. O governo estima que 12% da população brasileira seja composta por apostadores ativos. O contorno social ganha tons preocupantes quando, de acordo com o Senado Federal, cerca de R$ 3,7 bilhões foram transferidos para empresas de apostas a partir de contas de beneficiários do Bolsa Família (dados de janeiro de 2025).

E as bets, inevitavelmente, estão em todo lugar. A CazéTV é patrocinada por três grandes aplicativos de apostas; a todo-poderosa Globo também conta com três empresas do ramo entre suas marcas patrocinadoras. No futebol nacional, as bets são presença mais do que garantida. O valor total dos patrocínios máster na Série A do Campeonato Brasileiro cresceu 125% entre 2023 a 2025.

Uma pesquisa não tão aprofundada para este artigo levantou a cifra de quase R$ 50 bilhões entre patrocínios para a Copa, receitas de transmissão, valores movimentados pelas bets no Brasil e o mercado de apostas como um todo. Seu cérebro não precisa derreter para dimensionar esse dinheiro: o valor é maior do que o PIB atual de 61 países.

A partir do momento em que a lógica de mercado se fez presente nas organizações esportivas, conceitos como produto, performance e produtividade passaram a vigorar, e os números modificaram o próprio discurso do esporte. O atleta deixou de ser apenas um jogador para se tornar uma marca. O torcedor, um consumidor. E o jogo, uma mercadoria. Nesse modelo, a Copa não é apenas uma competição: é a maior vitrine do capitalismo contemporâneo. A democratização e a popularização dos esportes via internet caminham na contramão, pela via da ampla divulgação de casas de apostas e marcas, atingindo parcelas da população mais vulneráveis a esse tipo de incentivo. 

O que me traz de volta à questão do início: o que nós, meros mortais e amantes do futebol, podemos fazer? É possível boicotar esse tipo de evento — ou nossos clubes do coração? De uma apaixonada pelo esporte para outro: infelizmente, também não tenho essas respostas.

Talvez um caminho que acalme nossa consciência e mantenha o amor pelo jogo aceso seja o da informação. Usar os fatos para conscientizar, pressionar, exigir mudanças. O que fica é a certeza de que, independentemente do resultado em campo, alguém já ganhou muito antes de a bola rolar — e que, para que isso seja possível, muita gente também perdeu.



Por Midia Ninja

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