Por Sara Trindade – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A trajetória da seleção argelina mostra o entrelace entre a luta política e o futebol. Depois de 12 anos distante dos gramados da Copa do Mundo, a Argélia está de volta ao maior evento esportivo do mundo em 2026. No entanto, o caminho dos argelinos vai além do tempo da peregrinação até o Mundial deste ano ou das tentativas de vitória durante os cinco torneios em que participou. Isso porque a equipe nasceu da luta contra a colonização francesa, que durou 132 anos.
A vitória da Argélia contra a Somália nas Eliminatórias Africanas marcou a volta da seleção em um contexto que remonta às lutas políticas de mais de um século, expondo uma ferida histórica que não cicatrizou. O cenário social de 2026 apresenta políticas migratórias mais rígidas na França e a luta de resistência de africanos na Europa.
A Copa de 2026 marca a quinta participação da seleção argelina no torneio, após participações históricas como a de 1982 e sua última aparição em 2014, quando conseguiu seu melhor resultado na competição, chegando às oitavas de final. As poucas participações das “Raposas do Deserto”, apelido carinhoso da equipe, foram suficientes para impactar o futebol mundial e marcar sua identidade de luta política no esporte.

A Argélia transformou o futebol em uma ferramenta de resistência contra o colonialismo francês
Em 1954, no contexto de colonização da Argélia pela França, diversos pequenos partidos nacionalistas se juntaram para criar a Frente de Libertação Nacional (FLN), organização revolucionária que se dedicou à independência do país por meio de confronto armado. Após não obter grandes resultados nos duelos militares, a FLN passou a investir em chamar atenção da opinião pública para a ilegitimidade da colonização, pressionando as Nações Unidas a reconhecerem a independência do país.
Nesse contexto, os argelinos montaram uma seleção não-oficial de futebol com jogadores argelinos que estavam atuando na França. Mohamed Boumezrag, um ex-jogador argelino com passagem pelo futebol francês, é apontado como mentor da ideia. Naquele período, após a Segunda Guerra Mundial e a volta do campeonato Francês, a presença dos atletas da colônia em times franceses tinha se tornado ainda maior, com 16 atletas nascidos na Argélia atuando no país.

A partir disso, 11 jogadores foram contatados. Todos os atletas aderiram ao projeto, mesmo que isso significasse abrir mão de carreiras em ascenção. Dois desses jogadores, Rachid Mekhloufi e Mustapha Zitouni, atuavam pela seleção francesa e estavam na lista de pré-convocados para a Copa do Mundo da Suécia. Muitos desses talentos foram motivados pelos horrores vividos por parentes durante a guerra pela independência.
Mesmo diante de ameaças de punição da Federação Internacional de Futebol (FIFA) e protestos da Federação Francesa de Futebol (FFF), a equipe iniciou sua missão pela liberdade disputando com diversos clubes. Em quatro anos, foram 92 jogos, com 65 vitórias, 13 empates e 14 derrotas. A equipe foi dissolvida em março de 1962 com o final da guerra e a independência argelina. Com isso, a equipe não-oficial deu lugar à seleção oficial da Argélia, que nasceu da luta pela liberdade.
O jogo da vergonha: Argélia vs Alemanha Ocidental em 1982
A luta da Argélia contra a dominação europeia saiu da política para adentrar ao futebol. Na Copa do Mundo de 1982, a seleção argelina entrou em campo contra a Alemanha Ocidental na estreia do Grupo B, em Gijón, na Espanha. A equipe surpreendeu com um resultado de 2 x 1 contra os alemães, sendo a primeira vez que uma seleção africana vencia uma europeia em Copas do Mundo.
Com o resultado, a Argélia dependia do placar entre Alemanha e Áustria. Sabendo que uma vitória da seleção alemã por exatamente 1 x 0 classificaria as duas equipes europeias, os alemães abriram o placar aos 10 minutos de jogo. No entanto, após o gol, os dois times passaram o restante do jogo sem qualquer intenção de atacar, em um verdadeiro “jogo de comadre”, sob muitas vaias do público.
O confronto ficou conhecido como “Vergonha de Gijón”. O acontecimento histórico fez a FIFA determinar que o jogos finais da fase de grupos acontecessem simultaneamente, para impedir que as equipes soubessem os resultados dos adversários, reduzindo o risco de manipulação.

Copa de 2026: como chega a Argélia para o torneio
O primeiro confronto da Argélia na Copa do Mundo de 2026 é contra a atual campeã, a Argentina. As duas equipes se enfrentaram apenas uma vez em um amistoso em 2010, onde os argentinos saíram com a melhor, em um placar de 4 x 2, onde Messi, integrante do elenco argentino de 2026, fez um gol.
A equipe chega com um time que combina veteranos, como os remanescentes de 2014, Mahrez e Mandi, com novatos como Maza, de 20 anos. Os argelinos esperam repetir o feito de 2014, quando conseguiram, pela primeira e única vez, passar da fase de grupos da competição.
No elenco, aparecem as questões históricas que formaram a seleção argelina: dos 26 jogadores, metade nasceu na França, sendo a equipe com mais jogadores franceses além da própria seleção francesa. Esses jogadores possuem ascendência africana, herdada do contexto colonial vivido pela Argélia durante anos.
Vitória além das quatro linhas
A participação da Argélia em uma Copa do Mundo marcada por políticas migratórias rígidas e disputas históricas significa uma vitória que remonta a anos de luta. Além da celebração da volta ao torneio mundial, os argelinos comemoram 64 anos de independência em 2026. Uma liberdade marcada pelo contexto do futebol.

