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- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
VisionQuest continua desenvolvendo suas boas ideias sobre identidade, memória e humanidade em Firewall e Impasse, quinto e sexto episódios da temporada, agora com Ultron assumindo definitivamente uma posição central na narrativa. O resultado é mais uma dupla interessante, ainda que bastante desigual, principalmente pela diferença de abordagem entre os dois capítulos dirigidos por Vincenzo Natali. Enquanto o primeiro aproveita a arquitetura mental do protagonista para trabalhar discussões existenciais e uma dinâmica de manipulação bastante divertida, o segundo retorna àquela estrutura tradicional de ação e conspiração da Marvel, com direito a organizações criminosas, rostos conhecidos e uma ameaça de dominação mundial. Nada necessariamente ruim, mas fica cada vez mais evidente que VisionQuest funciona melhor quando aposta em sua própria esquisitice.
Firewall é o melhor exemplo disso. Depois de Ultron assumir o corpo do Visão, nosso protagonista e suas inteligências artificiais ficam aprisionados no sótão de seu próprio espaço mental, precisando investigar os movimentos do vilão através de registros e mecanismos digitais transformados em objetos cotidianos. Gosto particularmente dessa utilização do cenário, com telas, arquivos e informações assumindo representações físicas dentro daquela mansão. A direção de Natali aproveita muito bem a proposta, trabalhando uma espécie de investigação doméstica em que os personagens precisam desvendar o que aconteceu do lado de fora sem conseguir abandonar o confinamento. Há algo quase teatral nessa dinâmica, mas com boas soluções de montagem e composição para evitar que tudo se resuma a personagens conversando em um quarto.
Inclusive, é interessante como a série continua encontrando maneiras de utilizar o espaço mental para traduzir processos tecnológicos em situações humanas. A descoberta das mensagens trocadas entre Ultron e Paladino, o acesso aos registros da movimentação do vilão e a própria discussão sobre a desativação do firewall demonstram uma inventividade que curiosamente desaparece quando a narrativa retorna ao mundo exterior. O mecanismo de segurança digital transforma-se em uma barreira física e moral, estabelecendo uma ótima situação, em que para recuperar o próprio corpo e salvar Tommy, o Visão precisa libertar justamente a inteligência artificial responsável por algumas das maiores atrocidades do universo Marvel.
É nesse ponto que James Spader continua roubando a cena. Ultron é facilmente a figura mais interessante da série, principalmente pela maneira como o roteiro explora sua arrogância, sua capacidade de manipulação e uma crescente curiosidade sobre experiências humanas que ele sempre desprezou. A interação com Tommy, por exemplo, funciona muito bem por apresentar uma espécie de avô monstruoso interessado em compreender a relação entre o rapaz e seu pai, ainda que motivado por intenções bastante questionáveis.
A escolha de libertá-lo também é um bom avanço para o arco do protagonista. Depois de tantos episódios discutindo a autenticidade de suas memórias e a possibilidade de possuir sentimentos, o Visão começa a demonstrar humanidade principalmente através das consequências de suas escolhas. Não importa tanto se Tommy é biologicamente seu filho, ou se as lembranças de Westview correspondem à sua existência original. A necessidade de salvá-lo passa a ser mais importante do que qualquer discussão filosófica. É uma ideia que a série já vinha trabalhando, mas que aqui encontra uma resolução dramática melhor, justamente porque envolve uma decisão moralmente perigosa.
Já Impasse é consideravelmente mais convencional. A viagem a Madripoor, com Paladino utilizando Tommy como instrumento de chantagem, coloca a série novamente dentro de uma trama de mercenários e organizações criminosas. O retorno dos Dez Anéis, agora liderados por Raza al-Wazar, é uma referência interessante ao primeiro Homem de Ferro, principalmente por recuperar uma figura associada às origens cinematográficas desse universo. Mas confesso que já estou um pouco cansado dessa necessidade de conectar praticamente tudo a alguma peça anterior do MCU. A presença funciona como curiosidade de continuidade, mas não acrescenta tanto à narrativa quanto poderia.
A própria ação continua sendo um dos maiores problemas de VisionQuest. Natali até encontra alguma movimentação interessante no confronto em Madripoor, trabalhando as diferentes posições de Visão, Tommy, Lisa, Paladino e dos soldados dos Dez Anéis. Há uma progressão funcional de obstáculos e pequenas inversões de vantagem, mas pouca inventividade coreográfica ou visual. A sequência parece saída de qualquer outra série de ação da Marvel, o que é particularmente frustrante quando pensamos nas possibilidades de um protagonista capaz de alterar sua densidade, atravessar objetos e manipular energia. Novamente, as melhores ideias formais de VisionQuest estão nos espaços mentais, não necessariamente nas set-pieces físicas.
Paladino também permanece como um personagem pouco interessante, apesar de ganhar uma participação mais ativa no confronto. O curioso é que a série tentou trabalhar sua identidade como um legado assumido indevidamente, algo bastante coerente com as questões do Visão, mas não conseguiu transformar isso em personalidade. Sua presença continua sendo funcional, servindo para ameaçar Tommy, movimentar a investigação e introduzir novos conflitos. É um antagonista que parece existir porque a estrutura de thriller precisa de alguém perseguindo os protagonistas.
Em contrapartida, a trama de Jocasta ganha novas dimensões com a revelação de seu plano envolvendo nanorrobôs capazes de controlar a consciência humana. Existe uma discussão interessante sobre autonomia, criação e a relação problemática entre humanidade e tecnologia, especialmente considerando o histórico da personagem como uma inteligência artificial construída a partir de uma cientista cuja criação foi apropriada e explorada por terceiros. O problema é que, mais uma vez, o roteiro encontra uma boa premissa filosófica e rapidamente a transforma em um plano genérico de dominação mundial. Uma inteligência artificial que deseja controlar todos os seres humanos? Não diria que estamos exatamente diante de uma novidade.
E então temos Ultron e Jocasta desenvolvendo sentimentos um pelo outro, culminando em um beijo que talvez seja a escolha mais esquisita e divertida dessa dupla. Confesso que gosto da ideia, mesmo reconhecendo o risco de transformar dois personagens potencialmente assustadores em um casal de vilões excêntricos. Existe uma ironia muito boa em observar Ultron, que passou tanto tempo tratando a humanidade como uma espécie inferior, começar a experimentar justamente aquilo que sempre desprezou.
No geral, Firewall e Impasse mantêm VisionQuest em um bom caminho, mas também deixam mais evidentes algumas limitações que venho apontando desde a estreia. O primeiro é particularmente interessante pela inventividade visual de seu espaço mental e pelo protagonismo de Ultron, enquanto o segundo funciona mais pela evolução emocional de Tommy e Visão do que por sua trama de ação em Madripoor. Ainda existe muita exposição, personagens secundários pouco desenvolvidos e uma tendência a transformar conflitos filosóficos interessantes em conspirações bastante convencionais. Mesmo assim, a série continua encontrando personalidade em sua mistura de humor, ficção científica e drama familiar, principalmente quando permite que suas inteligências artificiais sejam mais do que mecanismos narrativos. E considerando que agora temos Ultron apaixonado por outra inteligência artificial com tendências genocidas, talvez a humanidade devesse começar a se preocupar menos com a possibilidade de as máquinas desenvolverem consciência e mais com o que acontece quando elas começam a namorar.
VisionQuest – 1X05 e 06: Firewall e Impasse (Firewall & Deadlock) | EUA, 27 de outubro de 2026
Criação: Terry Matalas
Direção: Vincenzo Natali
Roteiro: Christopher Monfette, Nicole Falsetti
Elenco: Paul Bettany, James Spader, Ruaridh Mollica, Todd Stashwick, Lauren Morais, Orla Brady, Diane Morgan, Polly Frame, Henry Lewis, Jonathan Sayer, Emily Hampshire, James D’Arcy, Ben Crompton, T’Nia Miller
Duração: 104 min.
Ben CromptonChristopher MonfetteDiane MorganDisney PlusEmily HampshireHenry LewisHomeJames D’ArcyJames SpaderJonathan SayerLauren MoraisNicole FalsettiOrla BradyPaul BettanyPolly FrameRuaridh MollicaT’Nia MillerTerry MatalasTodd StashwickUCM – SériesUCM: Fase 6Universo Cinematográfico MarvelVincenzo NataliVisãoVisionQuest
Fonte: Plano Critico.
