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Bonnie Langford passou boa parte da carreira nos palcos de teatro musical e viveu Roxie Hart, de Chicago, em Londres e na Broadway: a assassina que inventa para si a figura de moça inocente e conquista a imprensa e o júri com essa encenação. Não me parece acaso que Simon A. Forward tenha escrito para ela um roteiro em que toda a disputa gira em torno de uma “imagem roubada”. Como em outras Short Trips, Langford dá um show de interpretação, algo ainda mais reforçado aqui pelo caráter de dupla persona que ela precisa encarnar. O alvo da brincadeira é a fama da própria personagem. Desde Terror of the Vervoids, de Pip e Jane Baker, em que Mel aparece obrigando o 6º Doutor a pedalar uma bicicleta ergométrica e a beber suco de cenoura, boa parte do público da Série Clássica passou a ver a personagem como caricatura, e Forward usa essas manias como matéria do presente episódio, maravilhosamente intitulado Mel-évola (Mel-evolent, no original).
Forward aproveita essas manias logo no início, quando o Doutor se esconde no teatro da TARDIS para escapar do suco saudável da companheira. E é ali, entre manequins e araras de figurino, que Mel, sempre curiosa, encontra um antigo visualizador espaço-temporal e vê nele o próprio rosto pintado com batom preto, acima de roupas escuras. A imagem a incomoda, já que se trata de uma versão macabra dela mesma, difícil de entender e de aceitar, e o incômodo cresce quando ela e o Doutor descobrem que essa sósia sombria comanda uma invasão à nave. Para enfrentar a ameaça, o Doutor recorre a um truque de teatro e veste Mel de “Rainha Bruxa”, para que ela se misture aos invasores sem ser reconhecida. Enquanto Mel atravessa o visualizador até o lado dos inimigos, o aparelho precisa de energia, e quem a fornece é o próprio Doutor, pedalando na sala de controle a mesma bicicleta ergométrica de que ele vivia fugindo.
Pedalar a bicicleta da qual sempre fugiu, agora para ajudar a companheira, é a primeira de várias inversões com que Forward reabilita Mel, porque as manias que o público ridicularizava (a energia de academia, a disciplina, a voz animada) passam a ser justamente as ferramentas de que ela precisa para sair viva dessa aventura. Quando o Doutor, falando com ela por meio dos brincos de rubi, aconselha “Domine o papel e domine o espaço à sua volta”, ele está ensinando Mel a imitar uma rainha, e o conselho traz a ideia de poder político e social que atravessa o episódio inteiro: para ser obedecida, a Rainha Bruxa depende de gestos que podem ser ensaiados (o passo, a postura, o tom de voz, o jeito de ocupar a sala, de tratar as pessoas), e qualquer indivíduo disciplinado consegue aprendê-los. Como esses gestos se aprendem, a conclusão política aqui é incômoda e, por isso mesmo, interessante: se a tirania depende apenas de figurino e de ensaio, a distância entre a Mel solar e a Rainha Bruxa é basicamente uma troca de roupa e de postura. O que nos traz muita coisa para pensar a respeito de nós e de nossas versões pouco elogiáveis.
Pois é exatamente essa versão pouco elogiável que Mel encontra do outro lado do visualizador, e o texto faz questão de que a gente a enxergue em detalhes: os aposentos da companheira, agora cobertos de teias e mofo, lembram a ela a Miss Havisham de Grandes Esperanças, de Charles Dickens, a noiva abandonada que envelhece trancada numa casa em ruínas, enquanto a moldura do aparelho remete ao espelho de Lewis Carroll e ao da rainha má dos Irmãos Grimm (Dalí, Roger Dean e Bosch também aparecem, mas só como atalho para imaginarmos a paisagem).
Gosto muito do jeito como Mel derrota a sósia sem dar um único golpe, apenas contando aos duendes que trabalham para a vilã que eles morreriam com o plano dela (“Eu sei que ela pretende destruir vocês”), revelação suficiente para virar o bando contra a rainha. Pelo caminho do conto de fadas, Forward chega aqui à mesma conclusão que Étienne de La Boétie defendeu no Discurso da Servidão Voluntária, a de que o tirano só tem o poder que seus subordinados aceitam lhe dar, e a Rainha Bruxa perde o dela no instante em que os duendes descobrem que são descartáveis. É uma pena que o autor chegue a essa conclusão com tanta pressa, explicando de uma vez só a origem do Thrusk (o parasita do vórtice temporal que criou a vilã a partir da imagem de Mel), resolvendo a revolta com um único discurso e deixando quase sem espaço Lady Tamira, a Senhora do Tempo cuja nave o parasita infectou e cuja regeneração ele mantinha paralisada. Nos momentos finais, Mel prega uma peça no Doutor e finge que o armário de roupas ainda dá passagem para outro lugar, e com essa piada voltamos ao ponto de partida desta crítica: assim como Roxie Hart em Chicago, Mel aprendeu que uma boa encenação convence a plateia, e agora se diverte usando contra o Doutor, de brincadeira (e para o bem), o mesmo talento que o Thrusk usou para dominar os duendes, com objetivos nada simpáticos.
Short Trips – 8X02: Mel-évola (Mel-evolent) — Reino Unido, 28 de fevereiro de 2018
Direção: Helen Goldwyn
Roteiro: Simon A. Forward
Elenco: Melanie Bush
Duração: 44 minutos
6º DoutorBig Finish ProductionsBonnie LangfordDoctor Who: Short Trips (audio)Doctor Who: Universo Expandido – AudiodramasHelen GoldwynMelanie BushShort TripsShort Trips: 8ª TemporadaSimon A. Forward
Fonte: Plano Critico.
