Trump reconhece derrota, mas diz que vai usar poder de veto
Com a derrota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições de meio de mandato (midterms), realizadas nesta terça-feira (3), a expectativa histórica de que o republicano volte suas atenções para a política externa nos dois últimos anos de governo pode não se confirmar.
Embora esse seja um comportamento observado entre presidentes americanos anteriores que perdem força no Congresso, especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que Trump deve seguir um caminho diferente já que sua atuação internacional, especialmente a guerra contra o Irã, contribuiu para o desgaste de sua popularidade e para a derrota eleitoral.
Isso não significa que outros países não devem ser afetados pela derrota republicana. Na América Latina, os especialistas apontam desde um possível afastamento dos EUA de questões envolvendo a Venezuela até uma intensificação da pressão sobre Cuba. Para o Brasil, a tendência é de continuidade das políticas americanas, embora o novo Congresso possa ampliar a fiscalização sobre medidas do governo Trump.
Já no Oriente Médio, a nova maioria democrata pode dificultar o financiamento da guerra contra o Irã e aumentar a pressão por um acordo para encerrar o conflito.
Entenda mais abaixo:
Por que Trump pode contrariar o histórico dos ‘patos mancos’?
Historicamente, presidentes americanos tendem a voltar suas atenções para a política externa nos últimos anos de mandato. Isso acontece especialmente ao perderem força no Congresso, quando são chamados de “patos mancos”. A expressão é usada para políticos que ainda estão no cargo, mas já são vistos como figuras com menos poder e influência.
Com mais dificuldades para aprovar medidas internas, eles buscam resultados nas relações internacionais, onde possuem maior autonomia para agir.
- 🔎Esse comportamento inclui exemplos como Bill Clinton, que tentou negociar um acordo de paz entre israelenses e palestinos no fim do governo, e Barack Obama, que, após a derrota democrata nas eleições de meio de mandato de 2014, fechou um acordo nuclear com o Irã e restabeleceu relações diplomáticas com Cuba, conforme lembra uma análise publicada pela revista Foreign Affairs.
Trump, porém, deve ir contra esse precedente.
O presidente deve deixar a política externa em segundo plano e concentrar esforços na economia americana, especialmente no aumento do custo de vida, segundo a avaliação de Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM) e professor de Relações Internacionais da ESPM.
“Eu acredito que para ele conseguir manter uma sobrevivência política, ele precisa dar resultados, porque os norte-americanos votam por resultados econômicos”, afirma.
Na mesma linha, as dificuldades enfrentadas pelos EUA na guerra contra o Irã e a crescente competição com a China tornam novas intervenções internacionais mais arriscadas explica Vinicius Rodrigues Vieira, professor de Economia e Relações Internacionais da Faap.
“Essa seria a expectativa no passado”, avalia. “Nada mais claro do que as dificuldades enfrentadas no Irã para demonstrar que caso Trump queira abrir novas frentes de batalha em política externa, ele terá acho que mais problemas do que soluções”.
Já Vitelio Brustolin, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), considera que as ações do governo Trump em relação a outros países não devem sofrer grandes mudanças.
“Os passos que foram dados e que foram, inclusive, ratificados na estratégia nacional de defesa e na estratégia de segurança nacional, eles não têm como recuar”, diz.
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Quais as possíveis consequências para a América Latina? E para o Brasil?
Ainda assim, países já envolvidos em disputas diplomáticas com o governo Trump podem sofrer consequências, segundo os especialistas.
Na avaliação de Brustolin, a pressão sobre países latino-americanos deve continuar em uma tentativa de limitar a influência chinesa e ampliar o combate ao narcotráfico. Para ele, essa pressão deve ser ainda maior no Brasil porque países vizinhos, que elegeram candidatos apoiados por Trump nas últimas eleições presidenciais, concordam com as operações militares.
- ➡️Antes da vitória de Lula, candidatos de direita haviam conquistado as últimas cinco eleições presidenciais ocorridas na América do Sul. Após as eleições no Brasil, o mapa da América do Sul ficou desenhado com sete países de direita e cinco de esquerda. Leia mais aqui.
“[Apesar disso], não percebo que haja uma repercussão direta na redução ou na aplicação de mais tarifas contra o Brasil, por conta desse novo congresso dos Estados Unidos”, continua. “O que pode acontecer é que questões relacionadas ao Brasil sejam usadas pela nova Câmara e pelo novo Senado para questionar autoridades do governo Trump, inclusive o Marco Rubio e o Pete Hegseth, secretário de guerra dos Estados Unidos”.
Já na avaliação de Vieira, entre os países da América Latina, o Brasil não deve ser o mais afetado.
“Eu vejo menos uma interferência no Brasil. Muito mais provável que ele volte todas as atenções para Cuba, porque Cuba, mais do que qualquer país latino-americano, mobiliza o eleitor americano em relação a qualquer questão e pode vender bem o Rubio como potencial sucessor do movimento Maga (Make America Great Again)”
Uebel, por outro lado, acredita que a derrota republicana deve levar a um afastamento gradual dos Estados Unidos da América Latina.
Para ele, a prioridade de Trump será recuperar sua força política internamente, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, deve concentrar esforços em uma possível candidatura à Presidência em 2028.
“Se hoje a prioridade do presidente Trump vai ser a sua sobrevivência política, Venezuela não é mais prioridade. A América Latina não é mais prioridade”, afirmou.
Apesar disso, assim como Brustolin, o professor não descarta a continuidade das ações militares na região.
O que pode mudar nos conflitos no Irã, em Israel e na Ucrânia?
- Irã
A guerra do Irã, na avaliação dos especialistas, ultrapassa a barreira entre política interna e externa nos EUA, já que o conflito elevou os preços do petróleo e dos combustíveis no país, pressionando o custo de vida dos americanos.
Na avaliação de Uebel, o resultado das eleições deve levar o presidente a reduzir gradualmente o envolvimento no conflito, justamente porque a guerra passou a representar um desgaste político e econômico para o governo.
- ➡️Após o resultado nas urnas, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, atrelou a derrota republicana à guerra no Irã. Em entrevista à imprensa americana, o presidente republicano também reconheceu o papel do conflito na vitória da oposição.
Vieira também acredita que Trump deve buscar uma saída negociada para o conflito, mas ressalta que o presidente tentará apresentar um eventual acordo como uma vitória americana.
“Ele vai querer declarar alguma vitória no Irã. E, para tanto, me parece que ele precisa encontrar uma saída honrosa. Os democratas, agora com controle da Câmara e do Senado, podem impeli-lo a buscar ali uma negociação e aceitar o acordo menos pior possível, desde que ele possa vender-se como vencedor da batalha”, afirma.
Brustolin considera improvável um recuo imediato. Segundo ele, Trump ainda pode tentar garantir recursos para a guerra antes da posse do novo Congresso, em 3 de janeiro, quando os democratas passarão a ter maior poder para fiscalizar e restringir o financiamento de operações militares.
- Israel
Em relação a Israel, os especialistas também apontam a possibilidade de uma redução do envolvimento americano. Na terça-feira (3), Trump anunciou que pretende encerrar a ajuda financeira anual de aproximadamente US$ 4 bilhões ao país a partir de 2027.
Para Brustolin, porém, o anúncio teve caráter eleitoral e não significa o fim da cooperação militar entre os dois países. Segundo ele, mesmo sem os repasses anuais, Israel poderá continuar comprando armamentos americanos, incluindo caças e equipamentos de defesa antiaérea.
“Os EUA não vão mais repassar US$ 4 bi para Israel por ano, mas tudo que Israel quiser comprar, vai poder comprar”, explica. “Então os caças vão continuar sendo vendidos, equipamentos de defesa antiaérea e todo o restante vai continuar sendo fornecido. Israel só não vai mais ter acesso a um repasse anual”.
Já Uebel considera que o anúncio de Trump é um dos primeiros sinais de um possível afastamento dos conflitos no Oriente Médio, em uma tentativa de recuperar o apoio de eleitores insatisfeitos com os gastos internacionais.
- Guerra da Ucrânia
Na Ucrânia, a derrota republicana também pode afetar o envolvimento dos Estados Unidos nas negociações para encerrar a guerra com a Rússia.
Vieira avalia que Trump pode tentar acelerar um acordo de paz, mas ressalta que os democratas ainda precisam encontrar um consenso sobre o grau de envolvimento americano em conflitos internacionais.
Segundo ele, há divergências dentro do partido entre uma postura mais isolacionista e outra favorável a uma atuação internacional mais ativa.
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Discurso de Donald Trump no dia anterior às eleições de meio de mandato — Foto: Jonathan Ernst/ Reuters
Discurso de Donald Trump no dia anterior às eleições de meio de mandato — Foto: Jonathan Ernst/ Reuters
Fonte: G1.
