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- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todos os episódios da série e, aqui, de todo nosso material do universo Avatar.
Avatar: Os Sete Refúgios encerra seu primeiro livro com uma leva de episódios que, finalmente, transforma boa parte dos mistérios construídos ao longo da temporada em consequências dramáticas para suas protagonistas. Fantasmas e Espíritos, Batalha pelas Ruínas, O Domo e O Chacra Raiz formam um conjunto movimentado, com boas revelações, uma expansão da mitologia espiritual e um conflito emocional que funciona melhor do que algumas das ameaças externas apresentadas anteriormente. Continuo considerando a animação irregular, especialmente quando comparada aos antecessores, mas gostei da maneira como a série direciona seu encerramento para uma discussão bastante característica de Avatar, com a necessidade de compreender o próprio sofrimento antes de encontrar o equilíbrio.
O décimo episódio é particularmente interessante por finalmente aprofundar a origem de Pavi e Nisha, depois de tantos capítulos espalhando pistas sobre sua infância. A descoberta da antiga casa soterrada nas Terras Áridas funciona como uma espécie de arqueologia afetiva, com Pavi recuperando lembranças de uma vida que desconhecia. Gosto especialmente dessa oposição entre a menina que encontra vestígios felizes do passado e a irmã que, paralelamente, descobre uma memória profundamente traumática. A construção é simples, mas eficiente, principalmente por utilizar a separação física das personagens para estabelecer duas percepções bastante distintas de uma mesma história familiar.
A lembrança de Nisha sendo abandonada pelos pais introduz um conflito importante, ainda que a maneira como a série trabalha a informação tenha algo de conveniente. A personagem recupera justamente a memória necessária para alimentar sua insegurança, reencontra Pavi e decide esconder a verdade, preparando o terreno para uma revelação posterior inevitavelmente dolorosa. Não é uma construção especialmente inspirada, mas funciona pelo contraste entre as irmãs.
Batalha pelas Ruínas recupera ainda um elemento clássico da franquia ao introduzir o treinamento dos chacras, agora a partir dos ensinamentos de Agam. A associação do primeiro chacra ao medo estabelece um paralelo evidente com a jornada de Aang e sua orientação espiritual com o Guru Pathik, mas gosto da maneira como a nova série adapta esse conceito às particularidades das gêmeas.
A batalha nas ruínas, por sua vez, funciona como uma boa culminância do conflito político desenvolvido desde os primeiros episódios. Kayoko decide utilizar a energia da Anomalia contra os Sem-Rosto, demonstrando até que ponto sua obsessão por preservar a autoridade de Ellora passou a justificar praticamente qualquer atrocidade. É uma escolha coerente com a escalada autoritária da personagem, embora considere que o roteiro tenha simplificado demais sua caracterização nessa reta final. A chanceler começa a abandonar qualquer ambiguidade para assumir uma postura quase caricatural de governante incapaz de reconhecer os próprios erros.
Em termos de ação, o confronto apresenta boas ideias de escala, principalmente pela maneira como alterna o cerco aos Sem-Rosto, a tentativa das irmãs de conter a energia e a movimentação das forças da Brigada. Existe uma preocupação em distribuir diferentes objetivos dentro da sequência, algo que já havia elogiado anteriormente. Mas continuo sentindo falta de maior inventividade coreográfica e de um trabalho mais expressivo com os movimentos de dobra. A animação possui boas composições gerais, mas ainda não consegue reproduzir aquela fisicalidade marcial que tornava cada confronto da séries anteriores tão particular.
Essa limitação fica ainda mais evidente em O Domo, episódio que transforma a Anomalia em uma ameaça de proporções consideravelmente maiores. A imagem da gigantesca barreira de energia avançando sobre Ellora é visualmente interessante, principalmente pelo contraste entre a arquitetura monumental da cidade e uma manifestação espiritual que parece prestes a engoli-la. O problema é que a escala não se converte integralmente em tensão. Apesar de toda a movimentação dos personagens e da urgência narrativa, a ameaça permanece um pouco abstrata, especialmente porque a série ainda não estabeleceu muito bem os limites e as possibilidades da Anomalia.
É O Chacra Raiz que concentra as melhores ideias dramáticas do encerramento. A entrada das irmãs no Vazio da Memória finalmente revela a tragédia familiar que originou boa parte de seus conflitos. A decisão dos pais de abandonar Nisha aos cuidados do Lótus Branco, a tentativa desesperada da menina de impedir a separação e a liberação acidental dos poderes da Anomalia, provocando a morte dos pais e a amputação de Pavi, formam uma revelação cruel. O mais interessante é que a tragédia não nasce de uma maldade propriamente dita, mas de uma sucessão de decisões equivocadas, medo e desespero.
Gosto especialmente de como essa revelação reorganiza a relação entre as protagonistas. É um desenvolvimento forte, ainda que a maneira como Pavi imediatamente responsabiliza a irmã por tudo pareça um pouco acelerada. Entendo a reação emocional, mas sinto que a série poderia dedicar mais tempo ao impacto dessa descoberta antes de transformar a reconciliação anterior em um novo rompimento.
O clímax envolvendo a abertura do Chacra Raiz é também meio corrido e súbito, mas inegavelmente um dos melhores momentos da temporada, principalmente por transformar a compreensão do medo em uma conquista espiritual e não simplesmente em uma demonstração de força. É uma resolução coerente com a premissa apresentada desde o primeiro episódio, embora a própria mecânica da dobra de energia continue um pouco conveniente, sobretudo pela facilidade com que determinados perigos parecem ser solucionados a partir de novas manifestações de poder.
A aparição de Korra no plano cósmico também funciona como um momento de conexão com a mitologia anterior, especialmente pela representação dos antigos Avatares através das constelações. É uma imagem bonita, com certo senso de continuidade espiritual que estava faltando nessa nova era. Entretanto, continuo bastante curioso sobre a verdadeira participação de Korra no cataclismo. A série apresentou uma memória de sua predecessora destruindo a Cidade da República, mas ainda não forneceu contexto suficiente para compreender os acontecimentos. Espero que a revelação não se limite a um artifício para alimentar mistérios, principalmente considerando a importância da personagem para a franquia.
O encerramento, com Pavi decidindo partir para as Ilhas Flutuantes acompanhada de Jae, enquanto Nisha permanece emocionalmente devastada, é uma escolha interessante por romper a unidade que sustentou boa parte da temporada. Depois de tantos episódios insistindo na complementaridade das duas Avatares, a série finalmente coloca essa relação em crise, permitindo que ambas desenvolvam trajetórias próprias. Também fico satisfeito com a promessa de expansão geográfica, algo que venho cobrando desde a primeira leva de capítulos. Ellora foi um cenário importante e visualmente interessante, mas a franquia sempre encontrou parte de sua força na diversidade cultural, política e espiritual de seus diferentes territórios.
No saldo, considero os quatro episódios um bom encerramento para uma primeira temporada que teve mais acertos do que problemas, embora ainda esteja distante do nível de excelência alcançado por A Lenda de Aang, e também mais fraco do que o início de A Lenda de Korra. A relação entre Pavi e Nisha é facilmente o maior mérito da série, com um desenvolvimento que ganha densidade emocional justamente quando suas diferenças deixam de ser apenas comportamentais. A construção política de Ellora também funciona, especialmente pela maneira como transforma o medo do Avatar em instrumento de controle social. Por outro lado, a Anomalia continua sendo uma ameaça pouco definida, Kayoko perde nuances em sua escalada autoritária e a animação ainda não acompanha plenamente a ambição dos conflitos.
De qualquer maneira, gosto bastante do caminho escolhido para essa nova era. Avatar: Os Sete Refúgios não tenta simplesmente repetir a jornada de Aang ou Korra, encontrando uma identidade própria ao trabalhar a figura do Avatar como uma herança temida, fragmentada e atravessada por traumas históricos. O primeiro livro deixa algumas perguntas importantes sem resposta, mas constrói uma base interessante para o futuro. Agora, com Pavi iniciando uma jornada espiritual própria, Nisha precisando enfrentar a culpa e a rejeição, e a promessa de conhecermos outros refúgios, espero que a série consiga ampliar seu mundo sem perder o melhor que construiu até aqui. E, de preferência, com algumas lutas que finalmente façam jus ao nome Avatar.
Avatar: Sete Refúgios – 1X10 a 13: Fantasmas e Espíritos / Batalha pelas Ruínas / O Domo / O Chacra Raiz (Avatar: Seven Havens – 1X10 a 13: Ghosts and Spirits / Battle of the Ruins / The Dome / The Root Chakra) | EUA, 30 de outubro de 2026
Criação: Bryan Konietzko, Michael Dante DiMartino
Direção: Jasmine Goggins, Michael Chang, Kenji Ono, Alexandra Chiu
Roteiro: Jennifer Cho Suhr, Peter H. Lee, Sehaj Sethi, Chad Quandt
Elenco: Saheli Khan, Aishu Devan, Akshay Khanna, Major Curda, Sakina Jaffrey, Darren Barnet, Dianne Doan, Dee Bradley Baker
Duração: 20 min. aprox. (cada)
Aishu DevanAkshay KhannaAlexandra ChiuAnimaçãoAvatar: Sete RefúgiosAvatar: Sete Refúgios – 1ª TemporadaBryan KonietzkoChad QuandtDarren BarnetDee Bradley BakerDianne DoanHomeJasmine GogginsJennifer Cho SuhrKenji OnoMajor CurdaMichael ChangMichael Dante DiMartinoPeter H. LeeSaheli KhanSakina JaffreySehaj SethiUniverso Avatar
Fonte: Plano Critico.
