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Cinema

Crítica | Os Degraus, de Sylvester Stallone

O sonho hollywoodiano. O post Crítica | Os Degraus, de Sylvester Stallone apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Gostando ou não dele, Sylvester Stallone é um dos grandes ícones do cinema hollywoodiano, um artista que transitou e ainda transita entre múltiplos gêneros e nas mais diversas capacidades, seja como ator, roteirista, diretor e/ou produtor, mesmo que, para muitos, ele seja normalmente lembrado apenas como um dos mais famosos “brucutus” dos filmes descerebrados de ação dos anos 80 ao lado do austríaco Arnold Schwarzenegger. No entanto, o começo de sua carreira nas artes cinematográficas não foi fácil e seu estouro quase instantâneo em Rocky: Um Lutador sempre é lembrado como uma das mais inspiradoras histórias de perseverança em um mercado normalmente inclemente e ingrato, em que meramente entrar é extremamente difícil e ser consistentemente bem-sucedido é um feito matematicamente improvável.

Em Os Degraus, o próprio Stallone conta os detalhes do começo de sua longeva carreira, de seu retorno da Europa em 1967, aos 21 anos, até a cerimônia do Oscar de 1977, que entregou três das 10 estatuetas a que concorreu, incluindo a principal, a Rocky: Um Lutador, filme que ele escreveu e lutou corajosamente para levar às telonas de seu jeito, inclusive com ele próprio, então um quase completo desconhecido, no papel principal. Escrevendo como um verdadeiro livro de memórias e não exatamente na forma de uma autobiografia rigidamente estruturada, o autor usa esses conturbados 10 anos iniciais de sua vida dedicada à Sétima Arte para lidar com traumas de seu passado, especialmente sua paralisia facial e as dolorosas relações com seu pai e sua mãe, para, de certa forma, corajosamente desnudá-los perante seu público e enfrentá-los de peito aberto, ainda que com pesar, em um relato que não se furta de pular temporalmente para trás e também para a frente da cápsula da década que é o foco da narrativa, o que empresta um tom muito pessoal e natural para uma história decididamente emocionante.

Para ilustrar suas escolhas e sua quase inacreditável teimosia em se recusar a simplesmente vender o roteiro de Rocky: Um Lutador, Stallone recorre a momentos-chave de sua vida, transitando entre o quase literal abandono emocional de seus pais, sua passagem por escolas de reputação complicada, seus encarceramentos, seus traumas, mas também sua relação com o bulmastife Butkus, sua namorada e primeira esposa Sasha e seu irmão mais novo Frank, nesse processo desconstruindo a imagem de machão que muitos têm dele e sem exatamente preocupar-se com ordem cronológica, algo que normalmente cria uma certa “paz” ordeira aos leitores, mas que, para mim, muitas vezes engessa e artificializa a narrativa. Stallone corre o risco de se enrolar nas idas e vindas na forma de longos “apostos”, mas ele – com a provável ajuda de seu editor — acerta em cheio todas as vezes em que recorre a essas quebras temporais, sempre com a preocupação de não desperdiçar palavras e oportunidades para dar contexto ao que deseja expressar e fixar na mente do leitor. Sua mensagem geral de nunca desistir de seu sonho pode parecer até brega, mas é relevante lembrar que nem todo sonho precisa ter a envergadura do de Stallone, até porque, como fica claro ao longo da leitura, muito do que ele conseguiu não dependeu exclusivamente dele, mas sim de uma fortuita combinação de sorte, apoio e talento sustentada por um desejo profundo de ser amado e reconhecido, algo que, segundo seu relato, Stallone tragicamente nunca experimentou quando jovem.

Poder-se-ia afirmar que Stallone abusa do “coitadismo” para elevar seus próprios feitos e amealhar simpatia dos leitores, mas tenho para mim que não só essa é uma característica comum às autobiografias, como o escritor demonstra ter um bom grau de consciência disso, algo que ele por vezes usa até como alívio cômico no que poderia ser um texto fortemente melodramático. Há maturidade no que ele escreve e, mais ainda, há verossimilhança no relato que realmente leva o leitor a traçar paralelos e conexões umbilicais entre Stallone e seu Rocky Balboa, entre o Zé Ninguém e um dos nomes mais conhecidos em seu meio profissional. Em um texto pessoal, por vezes pesado, mas sempre delicioso de ler.

No entanto, é importante lembrar que Os Degraus é um recorte específico do começo da carreira de um artista, pelo que é receita para frustração esperar fechamentos de histórias, como, por exemplo, uma abordagem sobre seu filho mais velho ou mesmo sobre o fim de seu relacionamento com Sasha. E mesmo elementos desses 10 anos encapsulados no livro são ignorados ou têm sua presença reduzida, como sua breve “carreira” em pornografia softcore, o que é comum em autobiografias, claro. Seja como for, esse mergulho catártico de Sylvester Stallone em seu começo de vida é uma grande surpresa literária, mesmo para quem conhece bem sua trajetória, que vai além de uma curiosidade exclusivamente para fãs ao entregar uma crônica honesta e dolorosa que tem um enorme vazio emocional como traumático pontapé inicial.

Obs: Li o livro duas vezes, uma da maneira tradicional, outra como audiolivro narrado pelo próprio Stallone, e eu recomendo fortemente àqueles que dominam o inglês e tenham essa oportunidade que escutem o ator falando dele mesmo, em um trabalho realmente emocionante.

Os Degraus (The Steps: A Memoir – EUA, 2026)
Autoria: Sylvester Stallone
Editora original: William Morrow
Data original de lançamento: 29 de setembro de 2026
Editora no Brasil: Editora Sextante
Data de lançamento no Brasil: 3 de novembro de 2026
Páginas: 288

AutobiografiaEditora SextanteEditora William Morrow and CompanyHomeRocky – franquiaSylvester Stallone

Fonte: Plano Critico.

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