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Cinema

Crítica | a Paixão Segundo g.h., de Clarice Lispector

A subjetividade de Clarice Lispector que implode convenções sociais. O post Crítica | A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Publicado em 1964, A Paixão Segundo G.H., ocupa um lugar central e monumental na trajetória literária de Clarice Lispector, representando o ápice de sua investigação metafísica e de sua radical experimentação com a linguagem. Lançado em um ano de profunda ruptura política e social no Brasil, marcado pelo início da ditadura militar, o livro parece se afastar deliberadamente do realismo documental da época para mergulhar em uma revolução puramente íntima e ontológica. O legado dessa publicação reside justamente na sua capacidade de implodir as estruturas tradicionais do romance, oferecendo uma obra que desafia as fronteiras entre a literatura, a filosofia e a mística, consolidando Lispector como uma das vozes mais originais e universais da literatura do século XX.

No contexto atual, a obra ressoa de forma poderosa com as crises existenciais e a fragmentação da identidade contemporânea. Em um mundo saturado de aparências, redes sociais e performances de ego, a jornada da protagonista convida a uma dolorosa, mas necessária, destituição das máscaras sociais. O livro se conecta com a atualidade ao questionar o antropocentrismo e ao propor uma reconfiguração da nossa relação com o outro e com o meio ambiente, antecipando debates sobre a alteridade extrema e a coexistência com o não humano. A descida de G.H. ao cerne da matéria viva serve como um espelho para a angústia de uma sociedade que busca desesperadamente um sentido para além das convenções burguesas.

O espaço do romance é minimalista e altamente simbólico, concentrando-se quase inteiramente no quarto de empregada do apartamento de G.H., localizado na cobertura de um edifício residencial. Esse quarto, após a partida da doméstica Janair, revela-se não como um depósito inerte, mas como um deserto e um território sagrado de revelação. A transição da sala de estar luxuosa e organizada para a nudez e a luminosidade hostil do quarto de empregada reflete o deslocamento da protagonista de sua zona de conforto social para um espaço de despersonalização absoluta, onde as coordenadas geográficas dão lugar a uma topografia da alma.

O tempo na narrativa abandona a linearidade cronológica para se instalar em um tempo psicológico, mítico e vertical. Embora a ação física se desenrole no espaço de poucas horas de uma manhã, a experiência interna da narradora expande-se por milênios, alcançando a pré-história e a origem da própria vida. A escrita de G.H. é uma tentativa a posteriori de organizar o caos de um instante de epifania que fraturou sua percepção temporal comum, transformando o ato de relatar em um presente contínuo onde o passado é constantemente revivido e ressignificado pela palavra.

A personagem principal e narradora é identificada apenas pelas iniciais G.H., gravadas em suas malas de couro, o que já sinaliza a fragilidade e a esterilização de sua identidade. Mulher da alta burguesia carioca, escultora amadora e bem-sucedida aos olhos da sociedade, suas motivações iniciais parecem fúteis, como o desejo trivial de arrumar a casa após a demissão da empregada. No entanto, o confronto com uma barata que emerge de dentro do armário desperta uma motivação muito mais profunda e latente, que é a busca inconsciente pela verdade de sua própria existência e pela libertação das amarras de uma vida moldada pela aprovação externa.

A principal questão temática do livro gira em torno da despersonalização e da perda do eu como condições necessárias para se atingir a essência do ser. Ao esmagar a barata na porta do armário e, posteriormente, comer uma parte de sua massa branca, G.H. quebra o tabu do nojo e da moral humana para comungar com o que há de mais primitivo, neutro e vivo no universo. Lispector explora a ideia de que o amor e a transcendência não são sentimentos adocicados, mas atos de coragem que exigem a falência do humanismo tradicional e a aceitação do horror e da beleza da matéria pura.

Outro tema fundamental é a impotência e, ao mesmo tempo, a necessidade da linguagem para expressar o inefável. G.H. depara-se constantemente com o silêncio e com a incapacidade das palavras estruturadas de darem conta de uma experiência que ultrapassa a razão humana. O romance se constrói por meio de frases que se repetem, se corrigem e se entrelaçam, evidenciando o esforço hercúleo da escritora em moldar a sintaxe para capturar o instante-já, resultando em uma prosa poética que funciona como um rito de iniciação espiritual e filosófico.

Na jornada de Clarice Lispector, este livro consolida a transição de seus primeiros romances, focados na introspecção e no amadurecimento feminino, para uma literatura de teor radicalmente metafísico e cósmico. Se em obras anteriores o lampejo epifânico era um momento isolado na rotina das personagens, aqui a epifania se estende por toda a narrativa, tornando-se o próprio motor do livro. A Paixão Segundo G.H. prepara o terreno para as reflexões sobre a alteridade social e a própria criação artística, que culminariam anos mais tarde em A Hora da Estrela, fixando a autora na vanguarda estética mundial.

Para quem pretende estudar a obra visando o vestibular da FUVEST, é fundamental pensar no livro a partir de sua estrutura formal e de seus contrastes temáticos internos. O exame costuma valorizar a compreensão de como a forma literária reflete o conteúdo, de modo que o candidato deve se atentar para o uso dos travessões no início e no fim dos capítulos, que criam uma engrenagem de continuidade e fluxo de consciência ininterrupto. Além disso, é crucial analisar o choque entre a ordem burguesa representada pelo status de G.H. e a margem social invisibilizada representada pelo desenho a carvão que a empregada Janair deixou na parede do quarto, sugerindo uma tensão de classes que subjaz à crise metafísica.

Por fim, o estudante que enfrenta a FUVEST deve compreender o conceito de epifania clariceana não como um evento puramente positivo, mas como um processo de desorganização e crise que exige desapego e coragem. Deve-se correlacionar a jornada de G.H. com os conceitos de alteridade, nojo e sagrado, percebendo como a comunhão com o inseto desfaz a hierarquia entre o homem e a natureza. Ter clareza de que o romance propõe uma crítica contundente ao humanismo racionalista ajudará o candidato a responder questões analíticas e comparativas que busquem extrair a profundidade filosófica e a relevância sociopolítica dessa obra-prima da nossa literatura. Mas lembrando: ler para além do vestibular, combinado?

A Paixão Segundo GH (Brasil, 1964)
Autoria: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 192

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Fonte: Plano Critico.

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