36
Equipe: 5º Doutor, Tegan, Turlough, Kamelion
Espaço: Abertysswg, País De Gales
Tempo: 1902
Black Thursday, segundo arco da Big Finish dedicado a dar destaque para Kamelion, o robô transmorfo que viajou ao lado do 5º Doutor, mas que ficou escondido na TARDIS por toda a 21ª Temporada da série, faz escolhas criativas inusitadas. Esse é um histórico puro, estilo de trama situada no passado, em que não há elementos sci-fi além da TARDIS e seus tripulantes. Assim, foi com curiosidade que comecei a escutar esse arco, querendo saber como seria articulado um drama centrado em Kamelion com um desastre de mineração real ocorrido no País de Gales em 1902. O resultado é uma história envolvente e de alto teor dramático, mas que se perde na segunda metade ao confiar demais em elementos de melodrama para se sustentar. Na trama, situada entre The King’s Demons e The Five Doctors, a TARDIS se materializa nas minas de carvão da vila de Abertysswg, País de Gales, em 1902. Mas, assim que a nave aterrissa, seus tripulantes testemunham uma grande explosão de gás natural, que mata mais de quinze pessoas e fere dezenas. O Doutor e seus amigos logo se juntam aos esforços de socorro aos sobreviventes, mas, enquanto o Time Lord, Tegan e Turlough tentam cuidar dos feridos e salvar o máximo de vidas que podem, o sofrimento de uma mãe e esposa enlutada vai ensinar a Kamelion que as emoções humanas podem ser mais profundas e perigosas do que ele previu.
Escrito por Jamie Anderson, Black Thursday em sua primeira parte, se apresenta como um drama de catástrofe. O roteiro, por exemplo, nos permite conhecer a família Hughes e ver como era a relação de Eira Hughes com o filho e o marido antes de a tragédia se abater sobre eles, o que torna o desastre mais impactante. Anderson também reconhece que algumas das melhores histórias do 5º Doutor são aquelas em que ele se vê em situações onde tudo o que ele pode fazer é salvar o máximo de vidas, o que torna a encarnação de Peter Davison muito adequada para essa história. Há uma passagem tocante onde o Doutor mente para um pai moribundo sobre o destino do filho para lhe dar paz, que é muito ilustrativa dessa versão do Doutor. A primeira parte do arco também é a mais interessante para Kamelion, pelo tormento e angústia que o robô sente diante da tragédia, e como, ao empatizar com ela, ganha mais força para ajudar nos resgates.
A partir do final da primeira parte, porém, o foco da história sai dos resgates para focar nas consequências da tragédia na mina. É aqui que Robert Matson, o dono da mina, ganha destaque, juntamente com a filha Judith, na conhecida dinâmica do industrial sem coração, mais preocupado com lucros do que com pessoas, em contraste com a filha socialmente consciente. A viúva Hughes acredita que o acidente possa ter sido causado pelas más condições de trabalho e, em seu luto, passa a sentir ódio da família Matson. Isso, obviamente, se torna um problema quando se tem um robô telepata fortemente influenciável como Kamelion por perto, que assume a forma do marido morto de Eira e o seu lema “olho por olho“, partindo em busca de vingança. Há uma metáfora interessante no roteiro de Anderson sobre luto e rancor, mas que não é muito bem trabalhada, tanto pela condução quanto pelo desfecho deste conflito. Primeiro porque, por mais que a raiva de Eira seja muito justa, ela nunca deseja nada remotamente parecido à lógica de um filho por outro que Kamelion interpreta. Além disso, a reviravolta final, envolvendo a conexão secreta de Eira com os Matson, é melodramática no mau sentido, uma revelação que vem de lugar nenhum e enfraquece o drama ao invés de intensificá-lo.
Quanto ao uso de Kamelion, por um lado, é criativo, como o roteiro de Jamie Anderson mostra como uma emoção forte, como o luto de uma mãe, pode influenciar o robô, mesmo que involuntariamente. Além disso, o texto claramente brinca com as típicas narrativas de monstro, quando Kamelion assume a forma do falecido Sr. Hughes, mas mantendo a pele prateada, e sequestra Judith, para então carregar a pobre moça para o alto de um penhasco, algo que poderia ter saído de um antigo filme de Frankenstein ou King Kong. Por outro lado, recurso semelhante foi usado em Devil In The Mist, arco anterior dessa série de histórias com Kamelion, ou seja, é a segunda história seguida em que, por um motivo ou outro, o robô se torna uma ameaça. Gostaria de ver uma dinâmica um pouco diferente com o personagem para variar, como a primeira parte desse arco chega a ensaiar.
Apesar desses problemas, não dá para negar que Black Thursday ainda é uma história engajante, que deixa o ouvinte imerso durante todo o tempo de duração. O diretor Ken Bentley faz um ótimo trabalho, especialmente no que diz respeito ao desenho de som do arco. As passagens situadas na mina são especialmente impressionantes e até enervantes, com a sonoplastia deixando claro para o ouvinte não só o perigo da situação, mas o medo e a dor dos feridos. O elenco também faz um ótimo trabalho em lidar com a carga emocional exigida pelo arco, com destaque para Peter Davison, que entrega uma performance firme, mas empática como o Doutor, e Lizzie Roper como Eira Hughes, que transmite de forma acertada o desespero dessa mulher que perdeu toda a sua família, mas sem cair no histrionismo excessivo.
Como um Histórico Puro, Black Thursday funciona muito bem como um drama de catástrofe, onde o Doutor e seus companheiros podem apenas mitigar a tragédia que se abateu sobre os mineiros de Abertysswg. Porém, na segunda parte do arco, a crítica sobre más condições de trabalho e as reflexões sobre luto e rancor surgem de forma mal organizada, e o desfecho da história, que apela para o tipo mais barato de melodrama, deixa uma impressão final fraca. Ainda é um arco interessante, mas, sendo esta história parte de uma série que visa dar mais destaque para Kamelion, espero que o próximo arco encontre novas formas de explorar o robô além do cenário “Kamelion está fora de controle”.
Big Finish Mensal# 248: Black Thursday (Reino Unido — Fevereiro de 2019)
Direção: Ken Bentley
Roteiro: Jamie Anderson
Elenco: Peter Davison, Janet Fielding, Mark Strickson, Jon Culshaw, Lizzie Roper, Tim Treloar, Matthew Aubrey, Derek Hutchinson, Bettrys Jones, Christopher Naylor
Duração: 73 minutos.
5º DoutorBettrys JonesBig Finish MensalBig Finish ProductionsChristopher NaylorDerek HutchinsonDoctor WhoDoctor Who: Universo Expandido – AudiodramasJamie AndersonJanet FieldingJon CulshawKen BentleyLizzie RoperMark StricksonMatthew AubreyPeter DavisonTim Treloar
Fonte: Plano Critico.
