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Cinema

Crítica | Canção de Ninar Para Menino Grande, de Conceição Evaristo

As subjetividades do passado de um protagonista refletidas em ações do presente. O post Crítica | Canção de Ninar Para Menino Grande, de Conceição Evaristo apareceu primeiro em Plano Crítico.

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A publicação de Canção de Ninar Para Menino Grande, de Conceição Evaristo, carrega uma profunda importância social ao trazer para o centro do debate literário brasileiro a complexidade das relações afetivas e a constituição das subjetividades negras. Historicamente, a literatura nacional tendeu a marginalizar ou estereotipar indivíduos negros, relegando-os a papéis subalternos ou destituídos de densidade emocional. Ao romper com esse apagamento, a obra funciona como um espelho e uma ferramenta de emancipação, conferindo humanidade, voz e profundidade a corpos e vivências frequentemente silenciados pelas estruturas sociais dominantes. Aqui, a escritora entrega, em suas 136 páginas, uma cuidadosa tessitura literária sobre questões ainda muito atuais, urgentes, mas sem descrições panfletárias. No que diz respeito ao contexto histórico e suas conexões com a atualidade, o livro dialoga diretamente com as heranças do período colonial e com o racismo estrutural que ainda molda a sociedade brasileira. A narrativa expõe como as feridas do passado se manifestam contemporaneamente na vulnerabilidade das mulheres negras e nos traumas que afetam os homens negros. Discussões atuais sobre saúde mental, solidão da mulher negra, hipersexualização e os impactos do patriarcado encontram na obra um terreno fértil para reflexão, mostrando que as dinâmicas sociais descritas continuam gerando debates urgentes nos dias de hoje.

O protagonismo da narrativa gira em torno de Fio Jasmim, um maquinista de trem negro de 44 anos, casado com Pérola Maria, mas que se envolve amorosa e sexualmente com diversas outras mulheres ao longo de seus caminhos ferroviários. Suas motivações estão profundamente ligadas a um trauma de infância, marcado pela ausência do reconhecimento e pelo desejo inconsciente de ser visto como um príncipe, o que o leva a buscar validação constante por meio da sedução. Fio Jasmim encarna as contradições de um homem que busca afeto, mas reproduz comportamentos evasivos e, por vezes, irresponsáveis, agindo como um menino grande que necessita ser acalentado, um debate bastante pertinente na seara dos relacionamentos humanos e na projeção de nossas subjetividades juvenis para o decorrer da vida adulta. Por outro lado, as personagens femininas que cruzam a vida do protagonista não são meras coadjuvantes, mas sim o verdadeiro motor da história. Figuras como Pérola Maria, Juvelina e Angelina possuem desejos, dores e agência próprios, recusando-se a ocupar posições passivas diante das escapadas de Fio Jasmim. As motivações dessas mulheres variam entre a busca por estabilidade, a vivência plena de suas paixões ou mesmo atos drásticos de resistência contra as opressões do cotidiano, revelando um mosaico diversificado de respostas femininas às agruras de um mundo patriarcal.

O espaço e o tempo na obra possuem características marcadamente fluidas e simbólicas, distanciando-se de uma cronologia rigidamente linear. As ferrovias e as estações de trem por onde Fio Jasmim transita servem como metáfora para os encontros, partidas e a própria impermanência das relações humanas. O espaço geográfico confunde-se com a cartografia dos afetos e das migrações internas brasileiras, enquanto o tempo psicológico sobressai-se ao tempo cronológico, permitindo que lembranças passadas e anseios futuros se entrelacem continuamente na construção das memórias coletivas. Dentre as principais questões temáticas exploradas no texto, destacam-se a desconstrução da masculinidade e a denúncia da masculinidade tóxica no interior das relações familiares e afetivas. Conceição Evaristo problematiza a exigência imposta pela sociedade patriarcal sobre as mulheres, que frequentemente se veem na obrigação de educar, acolher e ninar homens adultos incapazes de assumir plenamente suas responsabilidades. Esse fardo do cuidado escancara a assimetria de gênero, onde o afeto feminino é muitas vezes explorado ou respondido com negligência e violência material ou simbólica.

Outro tema fundamental é a solidão e a resiliência da mulher negra, que se desdobra na capacidade dessas personagens de ressignificar suas dores por meio da solidariedade e da partilha de vivências. A obra aborda o amor não apenas como um sentimento romântico idealizado, mas como uma experiência complexa que envolve contradições, sofrimentos e, sobretudo, aprendizados. A busca pela emancipação e pela afirmação da própria identidade surge como um contraponto necessário às tentativas de dominação masculina presentes na sociedade retratada. Na jornada literária de Conceição Evaristo, Canção de Ninar Para Menino Grande ocupa um lugar de amadurecimento e expansão temática. Sendo seu quinto romance, a obra aprofunda o conceito fundamental da escrevivência, que define a escrita nascida das experiências cotidianas e da memória coletiva do povo negro. Enquanto produções anteriores da autora focavam predominantemente na condição e na dor das mulheres negras, este livro amplia o escopo ao lançar um olhar agudo sobre a masculinidade negra, demonstrando a versatilidade e a evolução contínua da autora como uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea.

Para quem pretende compreender melhor a obra com foco no vestibular da FUVEST, que adotou o livro em sua lista obrigatória, um ponto fundamental a ser pensado é a estrutura narrativa fragmentada. O leitor deve estar atento ao modo como o livro se organiza em capítulos curtos que funcionam como contos interligados, assemelhando-se a um mosaico de vozes. Compreender o conceito de escrevivência e como ele se aplica à construção das personagens femininas e masculinas é indispensável para responder a questões que exijam análise estilística e teórica do texto. Por fim, para além do diletantismo e trazendo para a reflexão dentro do esquema de trilha por um processo avaliativo, por exemplo, é importante analisar as conexões críticas que a FUVEST costuma traçar entre a forma literária e o contexto social brasileiro. É essencial estudar a tensão entre o lirismo poético da linguagem de Conceição Evaristo e o realismo cru das denúncias sociais, como o racismo, a violência de gênero e o abandono afetivo. Identificar as motivações psicológicas de Fio Jasmim e o protagonismo ativo das mulheres diante de suas ações permitirá ao candidato realizar uma leitura aprofundada, capaz de articular os elementos estéticos da obra com as contradições estruturais da nossa realidade histórica.

Cançao de Ninar Para Menino Grande (Brasil, 2022)
Autoria: Conceição Evaristo
Editora: Pallas
Páginas: 136

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Fonte: Plano Critico.

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