Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,43 ▲ 0,59% EURO R$ 6,06 ▲ 0,59% BITCOIN R$ 418.392 ▼ 1,19% SEGUNDA-FEIRA, 02/11/2026 12:31
Cinema

Crítica | o Resgate do Cadáver: o Último Canto da Ilíada, de André Malta

Estudos direcionados do último canto da Ilíada. O post Crítica | O Resgate do Cadáver: O Último Canto da Ilíada, de André Malta apareceu primeiro em Plano Crítico.

2

O último canto da Ilíada, o XXIV, encerra o épico com uma nota de profunda humanidade e luto. Após a morte de Heitor, o velho rei Príamo, guiado pelo deus Hermes, atravessa as linhas inimigas em uma missão desesperada para recuperar o corpo do filho, que vinha sendo profanado por Aquiles. O encontro entre o carrasco e o pai enlutado é um dos momentos mais poderosos da literatura mundial; ao compartilharem suas dores e reconhecerem a transitoriedade da vida, o ódio de Aquiles se dissolve em compaixão, permitindo que ele devolva o corpo e conceda uma trégua para os rituais fúnebres. Essa passagem é fundamental porque marca a transformação moral de Aquiles, que transita da fúria animal (mênis) para a compreensão da condição humana comum. O poema não termina com a queda de Troia ou o triunfo militar, mas sim com a solenidade do funeral de Heitor, “o domador de cavalos”. Ao focar no luto compartilhado entre gregos e troianos, Homero eleva a narrativa de uma crônica de guerra a uma reflexão universal sobre a mortalidade, a dignidade no sofrimento e a possibilidade de empatia mesmo entre os mais implacáveis inimigos. Será esse o ponto de partida da análise do livro que analisamos por aqui, curto, até objetivo, mas destinado aos iniciados na poesia homérica.

Publicado pela Editora Humanitas em 2000, O Resgate do Cadáver: O Último Canto d’A Ilíada, do competente André Malta Campos, autor que declaro minha admiração pela sua trajetória acadêmica brilhante, desde a leitura de A Selvagem Perdição ao instigante Homero Múltiplo, se apresenta inicialmente sob um projeto editorial simples, mas guarda uma densidade analítica rigorosa. A obra se dedica a um estudo aprofundado que situa o Canto XXIV não apenas como um encerramento cronológico, mas como o verdadeiro clímax emocional e ético da epopeia de Homero. O foco central reside na “humanização” final de Aquiles, um herói que, até então, encontrava-se cego pela fúria e pela desonra sistemática ao corpo de Heitor, transformando seu luto em uma vingança mecânica e cruel que desafiava as próprias leis divinas. Diante do exposto, em linhas gerais, o livro reconstrói a jornada de Príamo, o rei de Troia, que atravessa as linhas inimigas com o auxílio dos deuses para apelar diretamente ao executor de seu filho.

O autor analisa como essa transição da vingança desenfreada para a empatia marca o encerramento da Ilíada por meio do reconhecimento mútuo da mortalidade. É nesse encontro entre o velho rei suplicante e o jovem guerreiro implacável que a obra identifica a transição para a humanidade, consolidando o momento em que Aquiles finalmente reconhece a dor do outro e concorda com a devolução do cadáver para os funerais troianos. Contudo, a obra de Malta Campos não se limita ao enredo, mergulhando em um rigoroso e, por vezes, cifrado esquema de debates sobre a tradução do grego. O texto aborda como as escolhas técnicas do tradutor impactam diretamente a percepção e a recepção do poema ao longo dos séculos. Esse debate técnico é fundamental para entender a obra, pois discute como a transposição de termos específicos e também como a manutenção de certas estruturas poéticas podem alterar o peso dramático das cenas, tornando a tradução uma ponte, ou uma barreira, para a compreensão da ética homérica original, nesta reflexão onde a leitura pode se tornar complexa em diversas passagens, dado o alto nível de especificidade sobre métrica e filologia.

O autor propõe discussões que nem sempre são acessíveis ao leitor leigo, exigindo um esforço interpretativo considerável diante de notas de rodapé que, embora detalhadas, nem sempre simplificam os conceitos para quem não domina o assunto. Essa característica faz do livro um material acadêmico robusto, essencial para especialistas que buscam entender as nuances das escolhas tradutórias e como elas moldam nossa visão contemporânea sobre o encerramento da maior epopeia da Antiguidade. Um dos pontos curiosos é a associação que o acadêmico faz com a filosofia platônica em consonância com o clássico em questão. A relação entre Platão e Homero é frequentemente descrita pelos estudiosos como uma “antiga disputa” entre a filosofia e a poesia, na qual o filósofo reconhece a autoridade de Homero como o “educador da Grécia”, mas questiona o impacto moral de seus versos. Para Platão, a representação dos deuses e heróis na Ilíada era problemática, pois mostrava divindades sujeitas a paixões humanas e heróis dominados pelo descontrole emocional. É também sob essa lente de investigação, em algumas passagens que versam sobre a recepção da épica que André Malta Campos, em sua publicação pela Coleção Letras Clássicas da USP, nos convida a refletir: como devemos ler, hoje, a poesia de Homero? O autor busca explicar que ler Homero contemporaneamente exige compreender a distância entre a nossa sensibilidade e a visão de mundo grega, sem perder de vista a profundidade ética que fascinou e, ao mesmo tempo, preocupou a tradição platônica.

O livro organiza essa investigação partindo de uma estrutura que prioriza o contato direto com o texto original: além de um sumário norteador, a obra apresenta um capítulo inicial com uma tradução integral do Canto XXIV, servindo de base para que o autor desenvolva suas ideias ao longo de 14 capítulos subsequentes. Essa estrutura permite ao leitor confrontar a “maneira religiosa” de enxergar o mundo, o que hoje denominamos mítica, com a análise analítica proposta. A obra funciona como um repositório elaborado da mentalidade de uma época, investigando que concepção os gregos formavam daquilo que denominavam deuses e heróis e, por consequência direta, que imagem faziam de si mesmos e de sua própria condição mortal perante o divino. Importante compreendermos que enquanto Platão desejava purificar a poesia de suas “imperfeições” teológicas para proteger a alma dos cidadãos, estudos modernos como o de Malta Campos preferem encarar o Canto XXIV da Ilíada como o momento em que essa visão mítica atinge seu ápice de humanidade. O livro procura fornecer respostas sobre como o encerramento da epopeia, focado no resgate do corpo de Heitor, oferece uma chave de leitura para a ética grega que vai além da crítica platônica.

Em vez de ver as falhas dos heróis como exemplos a serem evitados, a obra sugere que a configuração desses personagens reflete uma aceitação trágica da existência, onde o reconhecimento da dor do inimigo e a intervenção dos deuses moldam o caráter do que significava ser humano na Antiguidade. Por fim, o texto de Malta Campos destaca que a leitura de Homero hoje não deve ser apenas um exercício de arqueologia literária, mas uma imersão nas especificidades da língua e da tradução que revelam a complexidade do pensamento homérico. Ao analisar a transição da ira de Aquiles para a compaixão, o autor dialoga indiretamente com as tensões levantadas por estudiosos da recepção clássica: a ideia de que Homero fornece a base para a autorreflexão humana. Assim, ao explorar a transição para a “humanidade” no último canto, o livro justifica sua presença na Coleção Letras Clássicas como uma ponte necessária para entendermos como aquela sociedade, em um tempo tão remoto, utilizava a figura dos deuses e a queda dos heróis para estruturar sua própria identidade e compreensão do cosmos. Um texto de acesso para poucos, menos interessante editorialmente que outras publicações de Malta, mas que ainda assim traz algumas contribuições relevantes.

O Resgate do Cadáver: O Último Canto da Ilíada (Brasil, 2000)
Autoria: André Malta
Editora: Humanitas
Páginas: 149

André MaltaHumanitasLiteratura BrasileiraPoesia Homérica

Fonte: Plano Critico.

Compartilhe esta matéria:
Portal Inhaí

Portal Inhaí

Confira as notícias e colunas publicadas por Portal Inhaí no Portal Inhaí.