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Cinema

Crítica | Avatar: Sete Refúgios – 1X07 a 09: o Que Está Por Baixo / Os Emissários (Partes 1 & 2)

Os fantasmas do passado. O post Crítica | Avatar: Sete Refúgios – 1X07 a 09: O Que Está Por Baixo / Os Emissários (Partes 1 & 2) apareceu primeiro em Plano Crítico.

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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todos os episódios da série e, aqui, de todo nosso material do universo Avatar.

Avatar: Os Sete Refúgios chega à sua terceira leva de episódios com uma progressão interessante, principalmente por finalmente começar a transformar os mistérios e conflitos políticos apresentados anteriormente em consequências mais concretas para Ellora e suas protagonistas. Essa trinca forma talvez o bloco mais movimentado da temporada até aqui, aprofundando a mitologia do mundo pós-cataclismo enquanto coloca em xeque as instituições responsáveis por sua sobrevivência. Continuo achando que a série possui problemas de ritmo, animação e certo excesso de conveniências, mas gosto da maneira como vem desenvolvendo sua premissa, especialmente agora que a figura do Avatar deixa de ser apenas um segredo perigoso para se tornar o centro de uma crise política generalizada.

O sétimo episódio é particularmente interessante pela exploração das ruínas do Velho Mundo escondidas sob Ellora. Depois de tanto tempo acompanhando uma civilização que parece ter regredido em diversos aspectos tecnológicos e sociais, encontramos vestígios concretos do universo que conhecemos em A Lenda de Korra, incluindo registros de Korra e Asami, além de um antigo espaço associado às competições de dobra. Gosto bastante dessa ideia de arqueologia da própria franquia, transformando elementos familiares ao público em relíquias de uma civilização desaparecida.

Existe também um trabalho visual interessante nessa oposição entre a monumentalidade quase primitiva de Ellora e os vestígios de uma sociedade tecnologicamente mais avançada. A direção de arte continua sendo um dos maiores acertos da série, especialmente na maneira como estabelece diferentes camadas históricas dentro de um mesmo espaço. Sinto falta daquela progressão industrial que tanto gostava em Korra, mas é curioso perceber que a animação parece querer transformar justamente essa ausência em uma de suas principais questões dramáticas. Afinal, o que aconteceu para que uma civilização com automóveis, eletricidade e grandes centros urbanos terminasse reorganizada em comunidades fortificadas?

A resposta começa a ganhar contornos mais perturbadores com a visão de Korra destruindo a Cidade da República. É uma revelação forte, principalmente porque mexe diretamente com a percepção do legado da personagem, mas também exige bastante cuidado. Como pontuei anteriormente, não gostaria de ver a série simplesmente transformando Korra em responsável pela destruição do mundo para justificar a hostilidade contemporânea contra o Avatar. Acredito que exista alguma reviravolta envolvendo o contexto desses acontecimentos, especialmente porque uma lembrança fragmentada não necessariamente corresponde à verdade completa. De qualquer forma, é um bom gancho que estabelece uma ligação mais direta entre o passado conhecido e os mistérios atuais.

Paralelamente, a trama dos Sem-Rosto também ganha novas camadas, com destaque para a revelação da participação de Uki no grupo. A personagem deixa de ser apenas a dobradora sequestrada e passa a representar uma dissidência dentro da própria Brigada, o que ajuda a desenvolver um conflito que considero um dos mais promissores da temporada. A série vem apresentando Ellora como uma sociedade que depende da cooperação entre dobradores para sobreviver, mas agora começamos a perceber o quanto essa organização também está sustentada por imposições, controle institucional e ausência de liberdade individual.

O problema é que o episódio ainda utiliza algumas reviravoltas de maneira bastante apressada. Entre a descoberta do esconderijo dos Sem-Rosto, a captura dos protagonistas, a aparição da Anomalia e a falsa identidade da Rainha, temos uma sucessão de acontecimentos que nem sempre encontram o peso necessário. A criatura avermelhada continua sendo uma ameaça curiosa, mas pouco definida, funcionando frequentemente como mecanismo para interromper conflitos ou deslocar personagens. A própria sequência de ataque ao esconderijo tem boas possibilidades visuais, mas não acho que a encenação alcance todo o potencial do confronto.

Já as duas partes de Os Emissários são mais interessantes justamente por concentrarem a narrativa nas tensões políticas de Ellora. A chegada dos representantes de Nova Ba Sing Se, Akasha e Montanha das Penas amplia o escopo daquele universo, mesmo que ainda não tenhamos a oportunidade de conhecer esses lugares. A reunião diplomática evidencia que os Sete Refúgios não formam necessariamente uma civilização unificada, mas comunidades com interesses próprios, estruturas distintas e pouca disposição para assumir os problemas umas das outras. É uma abordagem que dialoga bem com a premissa pós-apocalíptica, especialmente pela dificuldade de estabelecer solidariedade entre sociedades preocupadas com a própria sobrevivência, ainda que muito voltada para a comédia pro meu gosto.

A proposta de abandonar Ellora e atravessar as Terras Áridas em direção à Floresta da República acrescenta uma dimensão ideológica à rebelião, ainda que eu ache que o roteiro simplifique um pouco o conflito ao alternar entre atos violentos dos Sem-Rosto e discursos bastante razoáveis sobre liberdade. De qualquer forma, a deserção de integrantes da Brigada é uma boa consequência dramática, demonstrando que a insatisfação não estava restrita a um grupo marginal, mas atravessava a própria instituição responsável pela defesa da cidade.

Enquanto isso, a relação entre Pavi e Nisha começa a enfrentar conflitos mais substanciais. A decisão de Nisha de se submeter à avaliação da Ordem do Lótus Branco, seguida pela constatação de que ainda não possui controle emocional suficiente para continuar seu treinamento, é um golpe especialmente cruel para alguém que passou boa parte da vida sendo preparada para cumprir esse papel. A personagem parece compreender sua identidade quase exclusivamente pela função de Avatar, ao contrário de Pavi, que continua mais interessada em descobrir suas origens e construir vínculos afetivos. Essa diferença, antes relativamente simples, finalmente ganha consequências.

Em termos técnicos, o bloco final ganha com a simultaneidade dos conflitos, alternando a crise diplomática, a movimentação dos Sem-Rosto e o confronto sobrenatural. A montagem consegue estabelecer alguma urgência, embora ainda sinta falta de um trabalho de ação mais expressivo. As dobras continuam visualmente competentes, mas raramente possuem aquela combinação de peso, fluidez e inventividade coreográfica que marcou os melhores confrontos de Korra. Curiosamente, a série parece estar encontrando mais personalidade na organização política de suas sequências do que nas lutas propriamente ditas.

No saldo, considero essa terceira leva uma boa evolução de Avatar: Os Sete Refúgios. A exploração das ruínas do Velho Mundo, o mistério envolvendo Korra, a transformação dos Sem-Rosto em dissidência política e, principalmente, a ruptura institucional de Ellora demonstram que a série possui ideias interessantes para além de sua premissa inicial. Ainda existem limitações evidentes de ritmo, animação e construção de suspense, mas gosto de perceber que as decisões começam a produzir consequências mais duradouras. Com Nisha fugitiva, Karthik preso, Pavi cada vez mais próxima de suas origens e Kayoko assumindo uma postura autoritária, a narrativa finalmente parece pronta para abandonar a relativa segurança de Ellora. E, considerando que passei boa parte da temporada reclamando da falta de expansão geográfica, espero que o próximo destino das protagonistas não seja simplesmente outro corredor subterrâneo.

Avatar: Sete Refúgios – 1X07 a 09: O Que Está Por Baixo / Os Emissários (Partes 1 & 2) | Avatar: Seven Havens – 1X07 a 09: What Lies Beneath / The Envoys (Parts 1 & 2) | EUA, 23 de outubro de 2026
Criação: Bryan Konietzko, Michael Dante DiMartino
Direção: Jasmine Goggins, Jen Bennett, Michael Chang
Roteiro: M. Willis, Grant Jossi, Lauren Bradley
Elenco: Saheli Khan, Aishu Devan, Akshay Khanna, Major Curda, Sakina Jaffrey, Darren Barnet, Dianne Doan, Dee Bradley Baker
Duração: 20 min. aprox. (cada)

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Fonte: Plano Critico.

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