0
A volta do estúdio LAIKA ao cinema, após 7 anos, depois da animação Link Perdido em 2019, vem com o diretor Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas, Mestres do Universo, Bumblebee), já conhecido do estúdio pelo filme Kubo. Essa volta é a mais ousada, tanto pela duração mais longa de um longa-metragem (130 minutos com 2800 planos gravados) utilizando stop motion, quanto pela escala que reproduz, com 132 cenários construídos. A obra adapta o primeiro livro de As Crônicas de Wildwood, série de livros de Colin Meloy, um escritor de Oregon – mesmo estado do estúdio e do diretor do filme – e é vocalista da banda indie folk The Decemberists, que aparece nos créditos. Os livros foram comparados a criação de universos fantásticos maduros e dramas clássicos, como Tolkien e Lewis faziam. De fato, O Bosque Selvagem, uma animação em stop motion, consegue criar uma jornada dolorosa de amadurecimento com a magia e espiritualidade épica descoberta na Floresta Intranspassável em Portland, Oregon, digna da qualidade LAIKA.
A história conta sobre a protagonista Prue Mckeel, uma jovem rebelde por desobecer seus pais, que não deveria sair com seu irmão Mac. Por causa disso ela se vê em um conflito de irresponsabilidade por perder seu irmão para corvos, sendo levada junto com seu amigo Curtis a descobrir o bosque selvagem em busca do seu irmão desaparecido. A trama é uma clássica jornada de amadurecimento, bem parecida com a de Kubo, do mesmo diretor. Assim como Kubo se descobre, desvenda segredos de sua família, Prue passa pelo mesmo dilema. Mas diferente do seu primeiro filme com a LAIKA, Travis explica menos os conceitos dramáticos nessa adaptação literária do que sua história original com Kubo. O drama é menos focado nas descobertas familiares ou reviravoltas, e mais no desenvolvimento da perda, da crença na magia que supera as possibilidades humanas naturais de revolver as situações.
Para nos embarcar com Prue nesse drama, os cenários urbanos e naturais inspirados nas áreas verdes preservardas do estado de Oregon, fundamentam a “mitologia hippie” que atravessa a história do território de Portland e o tema do filme. Como foi citado, o autor do livro, o diretor e o estúdio desfrutam desse mesmo contexto de Oregon e o famoso Forest Park, assim como a cultura hippie, que vai criar Prue, já que seus pais seguem obviamente a ideologia hippie da ecologia e naturalismo, de reconexão com a natureza. Por causa disso, o tema da animação se conecta a narrativa de se libertar do controle da vida, pedindo ajuda a natureza. E é nisso que o drama da perda da vilã Rainha Viúva Alexandra se relaciona dos pais de Prue, e a ela mesma. São personagens com tentativas intermináveis de sempre escolher aquilo que querem controlar, mas não podem, tendo dificuldade de seguirem em frente com suas perdas naturais.
Ironicamente, esse tema de aceitar a perda do controle da vida está numa animação stop motion. Quando Tim Burton fez Frankweenie em animação de stop motion, ele revelou que seu gosto pelos “bonecos” era por poder controlar os “atores”, pois eles não questionam o roteiro. Por isso, o desafio de Travis Knight e toda a sua equipe de animadores, que criaram rostos substituíveis de massa para modelar microexpressões, e balões infláveis de miniaturas para emular respiração dos personagens, é tanto aumentar o escopo e o detalhismo, quanto representar um universo fantástico demais para ser controlado. Cenas de batalhas com vários personagens, momentos épicos como em guerras por um destino maior, seguindo tradições clássicas da fantasia, porém, para revelar o drama da protagonista ter dificuldade em se deslumbrar com a magia, cada movimento nos 24 quadros por segundo necessita ser ainda mais mais natural possível para nos fazer imergir na história. Esse contraste, que vai humilhando Prue a cada introdução do universo, se faz entre o plano aberto subjetivo para mostrar escopo e o plano fechado dramatizante as expressões dos “bonecos”.
Infelizmente, a transição entre os planos, por mais estilizadas que tentassem ser, acumulam uma pressa que se confunde com urgência. Como a história é paralela entre o que acontece com Curtis e o que acontece com Prue, é como se didaticamente houvesse um tempo do universo do bosque e o tempo subjetivo de Prue, determinando o ritmo para encontrar o irmão custe o que custar. Para que fique mais leve esse entrelace temporal, há linhas de humor que dão respiros, especialmente quando acompanhamos Curtis em sua jornada de descoberta de coragem, enquanto admira aquele mundo que tanto se assemelha aos seus jogos de RPG. Acaba representando bem que a fantasia tem seu próprio tempo, em que a natureza divinizada e espiritualizada não para por causa da protagonista, nem a vilã.
Paralalemente, quando Prue vai descobrindo o universo, junto com a trilha sonora de Dario Marianelli há sempre a busca de impressionar nós espectadores e se importar com Prue. No entanto, esse casamento parece querer encorpar demais a pressa de Prue, tornando o planejamento dos planos e cenas urgentes, com descompensação com a história de Kurtis. Um exemplo disso é quando Prue encontra o Corujão Rei em transição para a cena de voo com o pássaro gigante chamado General. Para mostrar o escopo do bosque, a General havia sido apresentada, e disposta a ajudar, assim como o Corujão, que chama Prue para seus aposentos. Enquanto a conversa com o Corujão é apressada por ela estar sendo perseguida, há a pressa da protagonista em resolver como ele poderia ajudá-la. A sequência seguinte de General resgatando-a tenta aliviar aquele momento, porém o stop motion, para se fazer produtivo, ainda que artesanal, é movimento. Então até mesmo um plano de contemplação do voo é algo que leva o ponto A ao B, mantendo o clima de urgência.
Alguns dirão que é na verdade problema de roteiro, em que as ordens de acontecimento prejudicam um planejamento dramático, ainda mais num processo de animação tão organizado, que pouco pode-se mudar coisas no processo. Entretanto, o ato final, quando Prue é apresentada a novas cores daquele universo por meio de descobertas pessoais, a narrativa se faz organizada. Em filmes épicos e fantásticos que lidam com dramas mais internos, é comum a apoteose dramática alcançar seus resultados no final. O percurso, por vezes, não desenvolve tão bem o drama mais direto por prioridades em uma produção de difícil arquitetura. Travis Knight, apesar do desafio de dirigir a montagem com Christopher Murrie-Green, foi preciso onde queria apontar no final, pelo menos.
Seu alvo, em meio ao universo mitológico de O Bosque Selvagem, é revelar a Prue, e a nós espectadores, a crença na magia, que faz filmes absurdos como esses. LAIKA e seu modo de produção em Oregon se relaciona com as inspirações que o diretor, e também produtor, teve com os livros de Colin Meloy. Além das narrativas clássicos, de sacrifício, guerras, lendas e religião, há algo que Travis quis trazer dos livros, que permeiam As Crônicas de Narnia e O Senhor dos Aneis, que é o transcendente, a espiritualidade da realidade que fantasias bem feitas conseguem imprimir ao leitor. Assim como o stop motion consegue criar um universo aterrorizante como Coraline, esse estilo e animação também consegue, assim como os livros fantásticos, criar personagens movimentados manualmente rendidos a fé para amadurecerem em sua jornada, assim como os irmãos Pevensie e os hobbits.
O mesmo acontece com Prue, quando ela se vê no final rendida pela magia da natureza do bosque. Algo semelhante a Princesa Mononoke, quando o diretor Hayao Miyazaki explorou o absurdo que a natureza pode fazer para se defender, a protagonista aceita perder o controle e pede ajuda. Um boneco de stop motion mostrando que não pode controlar seu destino completamente sem fé. Algo parecido com que Kierkegaard falou sobre a história bíblica de Abraão diante do sacrifício de seu filho Isaque: “Deus exige a Isaac em sacrifício, e que ele próprio está, nesse momento, prestes a sacrificá-lo. A cada instante, depois de ter realizado esse movimento, efetuou, portanto, o seguinte, o movimento da fé, em virtude do absurdo.” Prue se torna uma heroína trágica e madura, aquela que passa a acreditar na magia do absurdo quando se coloca no movimento de desistir de controlar sua jornada para salvar o irmão.
Ao fim, é um conto de fadas sem felizes para sempre, mas um feliz para o presente, como o pai de Prue diz. A revelação e conclusão de se crer na magia também é um percurso desagradável. Todo esse tema se torna ainda melhor no movimento da animação do stop motion, um tipo de movimento que não pode parar, um movimento de fé dos animadores, que não pode controlar tudo, mas acreditar que a cada 24 quadros por segundo uma história vai ser contada em estúdio, como na Floresta Instransponível, no tal lendário Bosque Selvagem inspirado no Forest Park de Porland, Oregon. Como diz a música do próprio Colin Meloy, que canta nos créditos: “Uma vez, quando eu era mais jovem, / pensei ter visto algo persistir / Uma faísca branca e ousada, alguma coisa brilhante e vibrante / Oh, que recompensa sombria essa visão trouxe?”. Amadurecer é continuar com dúvidas, mas seguir em frente, em movimento.
O Bosque Selvagem (Wildwood) | EUA, Reino Unido, Canadá, 2026
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler, baseado nos livros de Colin Meloy, As Crônicas do Wildwood
Dublagem original: Carey Mulligan, Tantoo Cardinal, Marc Evan Jackson, Richard E. Grant, Jake Johnson, Arthur Knight, Peyton Elizabeth Lee, Maya Erskine, Jacob Tremblay, Awkwafina, Mahershala Ali
Dublagem brasileira: Sabrina Miragaia, Marize Motta, Léo Rabelo, Ronaldo Júlio, Daniel Müller, Helena Moura Corrêa, Giulia Benite, Flavia Saddy, Pedro Burgarelli, Carol Crespo, Rafael Corrêa
Duração: 2 h10 min (130 minutos)
AnimaçãoArthur KnightAwkwafinaCarey MulliganCarol CrespoChris ButlerColin MeloyDaniel MüllerFlávia SaddyGiulia BeniteHelena Moura CorrêaHomeJacob TremblayJake JohnsonLAIKALeo RabeloMahershala AliMarc Evan JacksonMarize MottaMaya ErskinePedro BurgarelliPeyton Elizabeth LeeRafael CorrêaRichard E. GrantRonaldo JúlioSabrina MiragaiaStop-MotionTantoo CardinalTravis Knight
Fonte: Plano Critico.
