Por Sara Trindade – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Na Copa do Mundo de 2026, Lamine Yamal e Mohamed Salah celebraram seus primeiros gols com o ato do sujud, considerado o momento de maior prostração a Deus (Allah) na religião muçulmana. Essa comemoração carrega significados históricos ligados à liberdade e ao combate à xenofobia, especialmente diante do histórico de islamofobia no futebol. Ao longo dos anos, o esporte viu esse preconceito, que trata os muçulmanos de forma pejorativa, se espalhar das arquibancadas para as federações. Em um cenário em que ao menos 23% dos jogadores da Copa de 2026 são imigrantes, filhos de imigrantes ou naturalizados, esse histórico de discriminação torna-se ainda mais evidente.
Lamine Yamal, jogador da Espanha, nasceu no país, mas é filho de imigrantes africanos: seu pai é marroquino e sua mãe é da Guiné Equatorial. O atleta foi alvo de um caso recente de islamofobia, em março de 2026, durante o amistoso entre Espanha e Egito. Na ocasião, torcedores espanhóis entoaram o cântico “quem não pula é muçulmano”.
Longe da passividade que muitas vezes cerca o futebol, Yamal repudiou o ato e classificou os responsáveis como “ignorantes e racistas”. “Ontem, no estádio, ouvi os cânticos de ‘quem não salta é muçulmano’. Sei que eram direcionados à equipe rival e não eram pessoais contra mim, mas, como muçulmano, não deixa de ser uma falta de respeito e algo intolerável”, escreveu o jogador em publicação no Instagram.

Segundo o secretário da Comissão Islâmica da Espanha, a população muçulmana do país ultrapassa 2 milhões de pessoas, sendo composta principalmente por imigrantes de primeira geração e seus descendentes nascidos em território espanhol, como Yamal. Apesar de representar uma parcela expressiva da população, o caso recente demonstra como os muçulmanos ainda são alvo de discriminação.
Esse contexto não se restringe à Espanha. A Europa, de forma geral, apresenta um cenário preocupante de islamofobia, com raízes históricas ligadas ao período colonial. Desde 2007, essas tensões foram agravadas pela crise econômica e pela ascensão de políticos nacionalistas e populistas.
A Inglaterra é um dos centros dessa problemática. Em maio deste ano, um protesto anti-imigração tomou as ruas de Londres, liderado pelo ativista anti-islâmico Stephen Yaxley-Lennon. Foi nesse contexto que Salah entrou em campo para defender o Liverpool. Nascido na pequena cidade de Nagrig, no Egito, o jogador costuma comemorar seus gols com o sujud, ajoelhando-se e tocando a cabeça no chão. Segundo um estudo da Universidade de Stanford, desde sua chegada ao clube, os crimes relacionados à islamofobia foram reduzidos em 19%.
A pesquisa aponta que essa diminuição pode estar relacionada à familiaridade que os torcedores passaram a ter com a religião islâmica. Em 2019, Salah conquistou a Champions League pelo Liverpool e foi um dos principais destaques da equipe na competição. O estudo também concluiu que publicações com conteúdo anti-islâmico no Twitter diminuíram 53% desde a chegada do atacante. Trata-se de um dado otimista diante do histórico do futebol em relação ao tema.

Nada de novo no front: a islamofobia é antiga no futebol
Na Copa de 2026, a seleção francesa conta com diversos craques de ascendência africana, reflexo da história de colonização e imigração do país. A composição do elenco evidencia a diversidade de origens presentes na equipe. O camisa 7 da seleção, Ousmane Dembélé, por exemplo, tem ascendência mauritana e malinense e é muçulmano praticante. Apesar disso, a Federação Francesa de Futebol (FFF) já foi alvo de acusações de islamofobia em diferentes momentos de sua história.
Em 1997, a federação foi denunciada por intolerância contra jogadores muçulmanos. No episódio, funcionários da Direção Técnica Nacional (DTN), órgão responsável pela política esportiva, ordenaram a revista das bolsas de atletas de origem magrebina da seleção sub-17 para verificar se carregavam tapetes de oração, item utilizado pelos muçulmanos para garantir um espaço limpo durante as cinco orações diárias (salah).

Já em 2010, Laurent Blanc, então técnico da seleção francesa, retirou do cardápio dos atletas a carne halal, permitida pela lei islâmica. O alimento deve ser proveniente de um animal saudável e abatido por um muçulmano por meio de degola rápida. A exclusão desse tipo de carne do cardápio revela o tipo de identidade nacional que parte das instituições francesas buscava promover naquele contexto. Nos anos seguintes, o país assistiu ao endurecimento de suas políticas migratórias.
O comportamento de dirigentes e integrantes da comissão técnica também se refletiu entre parte dos torcedores. Após a eliminação da França ainda na fase de grupos da Copa do Mundo de 2010, a sede da federação foi invadida por manifestantes que gritavam frases como: “Queremos uma seleção francesa branca e cristã, sem muçulmanos e negros” e “Aqui é Paris, não é a Argélia”.
França, Inglaterra, Espanha e, agora, Polônia. Em 2015, o futebol polonês serviu para amplificar discursos nacionalistas e de extrema direita em meio ao auge da crise migratória europeia. Em uma partida contra o Lech Poznań, torcedores do Śląsk Wrocław exibiram um bandeirão que retratava um cruzado defendendo a Europa com uma espada diante de barcos de refugiados. A faixa trazia a mensagem: “Quando a Europa for inundada pela peste islâmica, defenda o cristianismo”.
No mesmo ano, torcedores do Lech Poznań, durante uma partida contra o Podbeskidzie Bielsko-Biała, entoaram cânticos que diziam: “Islâmica vadia suja, ela não é páreo para nós, poloneses. O estádio todo está conosco. Fodam-se os refugiados”.

Copa do Mundo de 2026 e o contexto da islamofobia
Disputada nos Estados Unidos, a Copa do Mundo de 2026 oferece um terreno fértil para o debate sobre a islamofobia no futebol. A questão no país está ligada a um contexto histórico robusto, intensificado após os atentados de 11 de setembro de 2001. O preconceito se manifesta, entre outros fatores, pela associação equivocada entre o islamismo e o terrorismo, afetando a vida de mais de 2 milhões de muçulmanos que vivem nos Estados Unidos. Além disso, as atuais tensões entre Estados Unidos e Irã contribuem para o aumento dos discursos de ódio.
O presidente Donald Trump está no centro desse debate. Sua campanha eleitoral foi marcada por ataques a muçulmanos, incluindo propostas para proibir a entrada de adeptos do islamismo no país em 2015. Esse discurso se refletiu nas dificuldades enfrentadas pela seleção iraniana durante a Copa, como relatos de torcedores com ingressos vetados, restrições à entrada de iranianos nos Estados Unidos durante o torneio e problemas relacionados à emissão de vistos.
Além disso, por determinação do governo Trump, a seleção iraniana foi impedida de permanecer em território norte-americano entre as partidas. A equipe precisou estabelecer sua base no México e entrar nos Estados Unidos apenas algumas horas antes dos jogos. O Irã é o sétimo país com a maior população muçulmana do mundo, com cerca de 99,8% de seus habitantes adeptos do islamismo, segundo levantamento do Pew Research Center.

