Por Eduarda Liberal
A crise climática já interfere na rotina esportiva. Competições têm sido adiadas por calor excessivo, provas passaram a começar mais cedo, partidas adotam pausas extras para hidratação e eventos extremos provocam mudanças inteiras de calendário. O problema atinge tanto o esporte profissional quanto quem depende de espaços públicos para correr, jogar futebol ou praticar qualquer atividade ao ar livre.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, 2025 terminou entre os três anos mais quentes já registrados. A temperatura média global ficou cerca de 1,43°C acima dos níveis do período pré-industrial. Os 11 anos entre 2015 e 2025 foram os mais quentes da série histórica.
Para quem pratica esporte, temperaturas mais altas aumentam o risco de desidratação, exaustão e insolação. O esforço físico já eleva a temperatura do corpo. Quando isso acontece em ambientes muito quentes e úmidos, o organismo encontra mais dificuldade para se resfriar.
As consequências já aparecem em grandes competições. No Mundial de Atletismo de Tóquio, realizado em setembro de 2025, a World Athletics antecipou em 30 minutos as largadas das provas de marcha atlética de 35 quilômetros e das maratonas masculina e feminina. A decisão foi tomada por causa das altas temperaturas previstas para os horários inicialmente definidos.
O futebol também enfrenta o mesmo problema. Durante a Copa do Mundo de Clubes de 2025, nos Estados Unidos, partidas foram disputadas sob temperaturas acima dos 30°C. Jogadores e treinadores reclamaram das condições, e o argentino Enzo Fernández, do Chelsea, afirmou ter sentido tontura durante uma partida. Em 2026, durante a Copa do Mundo, que reuniu seleções de diversos países nos EUA, Canadá e México, a Fifa adotou a parada obrigatória para hidratação, como uma maneira de amenizar os impactos do calor.
A FIFPRO, entidade que representa jogadores profissionais em diferentes países, defende protocolos mais rígidos para situações de calor extremo. Entre as medidas estão pausas obrigatórias e até o adiamento de partidas quando os índices de estresse térmico ultrapassam níveis considerados seguros.
O impacto da crise climática, no entanto, não se limita ao calor. Chuvas intensas, enchentes, incêndios e tempestades também interferem diretamente no funcionamento do esporte. No Brasil, as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, obrigaram a Confederação Brasileira de Futebol a suspender rodadas do Campeonato Brasileiro e adiar partidas de diferentes competições. Internacional, Grêmio e Juventude tiveram jogos remarcados. Estradas bloqueadas, estádios afetados e dificuldades de deslocamento impediram a realização das partidas em condições normais.
Um estudo publicado em 2026 na revista npj Natural Hazards, do grupo Nature, concluiu que a mudança climática causada pela atividade humana tornou um episódio como o registrado no Rio Grande do Sul aproximadamente duas vezes mais provável. O fenômeno El Niño também teve influência sobre o volume de chuvas.
Os prejuízos não ficaram restritos aos grandes clubes. Quadras, campos, ginásios e centros esportivos também foram atingidos pelas enchentes. Esse tipo de situação expõe uma desigualdade já conhecida: quem depende de equipamentos públicos tem menos alternativas quando esses espaços são destruídos, interditados ou ficam impróprios para uso.
Esportes de inverno enfrentam outro tipo de pressão. A redução da cobertura de neve e o recuo de geleiras diminuem a quantidade de locais com condições adequadas para determinadas modalidades. O Comitê Olímpico Internacional já considera as mudanças climáticas um fator importante na escolha de futuras sedes dos Jogos Olímpicos de Inverno.
As adaptações começam a fazer parte da organização esportiva. Horários de provas são alterados, protocolos de hidratação ganham importância, temperatura e umidade passam a ser monitoradas com mais atenção e cresce a discussão sobre critérios objetivos para suspender uma competição.
Essas mudanças também chegam ao esporte amador. Em cidades cada vez mais quentes, correr ao meio-dia, jogar futebol em uma quadra sem cobertura ou treinar em locais sem sombra pode representar um risco maior do que há alguns anos. A qualidade da infraestrutura urbana passa, portanto, a fazer parte da discussão.
A situação tende a ficar mais difícil. Em 2026, a Organização Meteorológica Mundial estimou em 86% a probabilidade de pelo menos um ano entre 2026 e 2030 superar 2024 como o mais quente já registrado. A chance de a temperatura média global ultrapassar temporariamente 1,5°C acima dos níveis pré-industriais em pelo menos um desses anos foi calculada em 91%.
O esporte também tem participação no problema. Grandes eventos movimentam milhares de pessoas, estimulam viagens aéreas, consomem energia e exigem estruturas de grande porte. Por isso, federações, clubes e organizadores são pressionados não apenas a adaptar competições, mas também a reduzir o impacto ambiental de suas próprias atividades.
A discussão não é mais sobre como o clima poderá afetar o esporte no futuro. Isso já está acontecendo. A questão agora é como clubes, federações, governos e cidades vão responder a uma realidade em que competir e praticar atividade física exige cada vez mais atenção às condições ambientais.
Em um país marcado por desigualdades no acesso ao esporte, essa adaptação também precisa ser social. Garantir quadras, campos, parques e centros esportivos preparados para temperaturas extremas e eventos climáticos não é apenas uma questão de calendário ou desempenho. É uma questão de acesso, segurança e direito à cidade.
