- J: Para começar, deixo o espaço aberto: quem é o Caru Brandi e como você descreveria sua arte pra quem ainda não conhece o seu trabalho?
- J: Por que o monstro e a fabulação viraram sua ferramenta para pensar dissidência de gênero?
- J: Você já disse que não pensa seu trabalho como representação da comunidade trans, mas sim como algo feito em coletividade com ela. Na prática, o que muda quando você cria “com” outras pessoas trans e travestis, e não só “sobre” elas?
- J: Qual é a maior dificuldade pra fazer arte visual morando em Porto Alegre, fora do eixo Rio-São Paulo?
- J: O que a cerâmica possibilita na sua expressão que a pintura não possibilita?
- J: Existe alguma linguagem artística que você ainda não experimentou e sente vontade de habitar?
Por Júlia Clarindo
Caru Brandi nasceu em Porto Alegre e cresceu na zona rural de Viamão. É filho de uma mãe migrante paraense, que atravessou o país e deixou nele os saberes da terra e das ervas. Essa fricção entre rural e urbano nunca saiu do seu trabalho, que passeia pela pintura, pela cerâmica, pelo desenho e pela escultura, sempre voltado para corpo e memória.
Sua trajetória nas artes nasceu na encruzilhada entre tatuagem, desenho e transição de gênero, num momento em que ele ainda cursava Direito. Dali em diante, construiu uma pesquisa poética atravessada pela transmasculinidade, pela ecologia cuir e pela fabulação como ferramenta para inventar outras formas de existir. O monstro virou um símbolo central dessa produção.
Hoje, cursando Licenciatura em Artes Visuais na UFRGS, Caru também é arte-educador e pensa seu trabalho a partir da coletividade. Projetos como a performance Zonas de Contato e o Além-Mundos: Memórias do (in)Imaginário reúnem outras pessoas trans e travestis na criação, na remuneração e na autoria.
J: Para começar, deixo o espaço aberto: quem é o Caru Brandi e como você descreveria sua arte pra quem ainda não conhece o seu trabalho?
Bom, eu diria que sou um artista que caminha entre as artes visuais, a arte-educação e, atualmente, a pesquisa em artes. Não acho que sejam coisas apartadas, mas gosto de afirmá-las em suas particularidades. Nasci e atualmente moro em Porto Alegre/RS, mas cresci na zona rural de Viamão, cidade vizinha, onde pude estabelecer uma relação próxima com a mata ao meu redor e com as ervas que minha mãe plantava em nosso quintal. Sou filho de mãe migrante paraense, que, em sua coragem, cruzou o país e me ensinou sabedorias de sua terra. A relação rural-urbano se alicerçou desde minha juventude nesse trânsito que deságua em minhas produções artísticas.
Meu trabalho transita principalmente pela pintura, cerâmica, desenho e escultura, e se debruça sobre corpo e memória. A pesquisa que desenvolvo está intimamente relacionada à minha experiência enquanto pessoa dissidente de gênero e às vivências de deslocamento territorial entre o urbano e o rural. Por meio da fabulação, meu trabalho se aproxima de questões como metamorfose, hibridismo, antropomorfismo e ecologia cuir. Busco tensionar as fronteiras entre humano e não humano, natureza e cultura, realidade e ficção por meio dessas figuras.
Minha trajetória nas artes começou na encruzilhada entre tatuagem, desenho e transição de gênero. Na época, eu cursava Direito e foi justamente nesse período que o universo das artes se abriu para mim como um horizonte possível. Acho que isso diz muito sobre o meu trabalho: ele nasce de um saber que, inicialmente, não era acadêmico, mas que foi se construindo por meio das práticas, das redes afetivas e das trocas com outras pessoas trans. Ao mesmo tempo, sempre esteve muito atravessado pelos estudos de gênero e sexualidade.
Num primeiro momento, meu trabalho se voltou principalmente para as questões de gênero a partir do meu encontro com a transmasculinidade. Em 2019, essa era uma identidade ainda muito distante no imaginário de muitas pessoas, o que me incluía. Durante alguns anos, de uma maneira quase autodidata (quase porque acredito que o conhecimento é compartilhado em comunidade, pelas redes afetivas que vamos construindo na vida), experimentei diferentes linguagens para elaborar essa experiência. Havia, nesse processo, uma vontade de questionar algumas dicotomias bastante rígidas, como feminino e masculino, homem e mulher.
Entender a experiência trans como uma ruptura com determinadas normas ocidentais fez com que eu trouxesse essas questões para a minha pesquisa poética. Passei a retratar e também fabular experiências individuais e coletivas relacionadas à transgeneridade, principalmente às vivências transmasculinas. Pelos corporais, binder, mastectomia, entre outros aparatos, aparecem como signos em alguns trabalhos, mas me interessa menos representar uma identidade de maneira literal e mais pensar o que esses corpos podem inventar ou romper. A fabulação acabou se tornando uma ferramenta importante para mim justamente porque permite imaginar outras possibilidades de existência.
A arte-educação também foi surgindo desse processo, principalmente pelo caráter lúdico do meu trabalho. Aos poucos, isso se desdobrou em práticas de mediação cultural, atividades educativas e propostas formativas. Hoje, curso Licenciatura em Artes Visuais na UFRGS, desde 2024, como uma continuidade desse encantamento com a educação.
Sinto que agora meu trabalho está passando por outra transformação. No momento, a terra, em seus diferentes estados, tem me interessado muito como possibilidade de pesquisa. Acho que isso não surge do nada: é um desdobramento da minha pesquisa com a cerâmica. Tenho começado a pensar a própria matéria enquanto lugar de investigação. No momento, meu trabalho se encontra num ‘entre’, numa envergadura que ainda não consigo nomear, mas que estou descobrindo enquanto faço e enquanto me relaciono com esse fazer.

J: Por que o monstro e a fabulação viraram sua ferramenta para pensar dissidência de gênero?
O monstro é um signo muito atrelado àquilo que desvia da norma, é associado ao ser que rompe com regras implícitas e que, portanto, se torna indesejável e abjeto à sociedade. Por muitos anos, o feminino e as pessoas dissidentes de gênero e sexualidade foram compreendidos, no Ocidente, enquanto corpos faltantes. Esses corpos passam a ser regulados por diferentes aparatos tecnopolíticos justamente enquanto desvio.
Recordo de um dos primeiros autorretratos que fiz no início da minha transição de gênero, em 2017, quando, na época, me reconhecia enquanto pessoa trans não-binária. Eu, ainda sem as leituras teóricas de gênero com as quais vou me aproximar mais adiante, desenho-me com chifres e escrevo ao lado a palavra aberração. Ali, me retratava enquanto um monstro, antes mesmo de ter conhecimento teórico dos discursos médico-regulatórios que enquadram nossas existências enquanto patológicas e aberrantes.
No entanto, apropriar-se dessa categoria tem sido, para muitas pessoas dissidentes, uma recusa à patologização de nossas existências. O termo ‘monstro’ tem um caráter ambíguo, aberto e de difícil apreensão. Com isso, recusamos também a categoria ‘humano’, que está atrelada historicamente a determinados sujeitos (brancos, heterossexuais e cisgêneros).
Assim, a monstruosidade tem sido articulada e, em certa medida, invocada por pessoas dissidentes como um lugar para si, como uma forma de reivindicar o desconhecido, o ambivalente e aquilo que não se deixa classificar. Há radicalidade em transicionar.
No processo inicial de transição, as informações midiáticas sobre vidas trans que me rodeavam eram marcadas pela violência. Como resposta, a fabulação se tornou minha aliada. Fabular vida, corpo e mundos foi a maneira que encontrei para me expressar, mas também para tensionar e fissurar dicotomias normativas e, principalmente, criar outras narrativas de vida. A fabulação vem do ato de imaginar e inimaginar o impossível para ensaiar outras realidades.
J: Você já disse que não pensa seu trabalho como representação da comunidade trans, mas sim como algo feito em coletividade com ela. Na prática, o que muda quando você cria “com” outras pessoas trans e travestis, e não só “sobre” elas?
Eu, de fato, não busco uma representação da comunidade trans, por mais que, porventura, meu trabalho retrate, ainda que a partir de figuras fabulosas, seres dissidentes de gênero. Eu não busco a fidedignidade ou uma verdade sobre a comunidade trans, até porque são vivências plurais. No entanto, me interessa tensionar a leitura de gênero ocidental, tensionar as bordas ficcionais de feminilidade e de masculinidade. E a forma que encontrei para isso foi por meio da fabulação.
Nesse sentido, meu objetivo nunca foi falar sobre a comunidade de um lugar externo, ou retratá-la enquanto algo fixo. Como falei anteriormente, as vivências trans são plurais, e pensar em representação, ou pensar uma arte “sobre” pessoas trans e travestis, corre-se o risco de transformar essas experiências em uma história única. No entanto, não existe uma experiência trans única. Por outro lado, quando falamos em fazer arte “com”, parto de uma epistemologia trans, na qual o conhecimento se constrói nas relações, nas trocas e nas redes afetivas que construo com outras corporeidades dissidentes.
Nesse sentido, penso que a epistemologia trans está intimamente relacionada à coletividade. Na construção de alguns trabalhos, eu parti de experiências vividas com outras pessoas trans ou de vivências compartilhadas comigo (um exemplo foi o cuidado com um amigo que havia realizado a mastectomia). De algum modo, meu trabalho nasce e bebe do encontro, o que me faz também buscar realizar obras colaborativas, como foi o caso de Zonas de Contato, performance realizada em 2025 por mim e duas pessoas transmasculinas de Porto Alegre com quem tenho relação afetiva. Construir com a comunidade também é pensar a visibilidade e a remuneração de outros artistas trans e travestis.
Na minha primeira exposição individual, como proposta de encerramento da mostra, convidei a House of Audácia, casa composta majoritariamente por transmasculinidades e pessoas não-binárias, para realizar uma Ballroom no espaço. No projeto “Além-Mundos: Memórias do (in)Imaginário”, que foi selecionado na Lei de Incentivo Paulo Gustavo, a maioria das pessoas contratadas era composta por pessoas trans e travestis. Isso também é trabalhar “com”. Para mim, trata-se de uma ética profissional poder trabalhar com outras pessoas trans e travestis. De alguma forma, isso também é fabulação; é um rasgo no imaginário e na realidade. Até porque quantos projetos ou empresas têm, de fato, mais da metade de suas equipes composta por pessoas trans? É uma pergunta retórica, mas provocativa.
J: Qual é a maior dificuldade pra fazer arte visual morando em Porto Alegre, fora do eixo Rio-São Paulo?
Acho que fazer arte no Brasil é desafiador por si só, mas a principal dificuldade em estar fora do eixo Rio-São Paulo é a concentração de oportunidades e recursos que acontecem nesses centros. Ganhar visibilidade em âmbito nacional, por exemplo, pode ser mais difícil quando não se está nesse circuito. Acho importante lembrar que fazer arte também é pesquisar e produzir conhecimento. E isso exige condições materiais. Com uma dificuldade de reconhecimento do trabalho, isso impacta diretamente nas condições do meu fazer artístico: ter acesso a materiais de qualidade ou a um espaço de ateliê, ter tempo para experimentar e pesquisar são alguns desafios que venho encontrando. Não é à toa que muitos artistas acabam migrando para São Paulo ou Rio em busca de trabalho e oportunidades. Muitos amigos fizeram esse movimento.
Acredito que a migração para esse eixo reflete as próprias dinâmicas do circuito das artes, por conta dessa concentração de capital, de recursos e de legitimidade, que muitas vezes acaba invisibilizando a produção de outras regiões do Brasil. Esse esquecimento me parece sintomático. Se os recursos destinados às artes permanecem tão concentrados nesse eixo, isso também evidencia uma questão política de fomento e distribuição de investimento. Da mesma forma, escancara a relação centro-periferia. Ou seja, estar fora do eixo não é apenas uma questão geográfica, mas também uma questão de acesso a recursos, a reconhecimento e à circulação do trabalho.
O que eu percebi esses anos trabalhando com arte em Porto Alegre foi uma necessidade de criar outros agenciamentos, ocupando, ao mesmo tempo, diferentes funções: artista-artista, artista-produtor, artista-curador, artista-educador e assim por diante. Não considero isso necessariamente negativo, mas também questiono quando essa sobreposição deixa de ser uma escolha. Por outro lado, sinto que precisei criar outras estratégias para me manter enquanto artista na capital gaúcha. Então, além de ser um “faz-tudo” (que evidencia muitas vezes uma precarização do trabalho artístico), criar relações de parceria, pensar trabalhos colaborativos com outros artistas e agentes das artes tem se mostrado uma potente ferramenta em minha carreira. A coletividade tem se mostrado muito importante para mim frente aos desafios de ser artista no contexto sul global.
J: O que a cerâmica possibilita na sua expressão que a pintura não possibilita?
Cada material tem sua particularidade. Acredito que um trabalho seja resultado não somente da vontade do artista, mas do encontro entre artista e material. Cada material pede alguma coisa. Por isso, me relaciono de forma diferente com cada técnica. A cerâmica me pede gestos próprios, me pede atenção às dobraduras, à verticalidade, àquilo que a tridimensionalidade requer. Os tempos também são outros. Me interessa essa temporalidade da cerâmica, na qual modelar, secar e queimar levam dias e semanas de atenção. Eu diria que a imprevisibilidade da cerâmica e, principalmente, dos esmaltes cerâmicos reagentes me possibilita uma expressão que não consigo alcançar (ainda) na pintura. Eu até poderia, se fosse uma pessoa metódica, anotar os resultados das experimentações com os esmaltes cerâmicos, mas, como não sou, e como também gosto de ser surpreendido, eu deixo que a mágica do improviso aconteça. Já nas pinturas em acrílica, não que eu saiba como a obra se finalizará, mas sinto que consigo conduzi-la com maior assertividade; com ela, eu sei que azul e amarelo eu alcanço um tom de verde.
J: Existe alguma linguagem artística que você ainda não experimentou e sente vontade de habitar?
Sim, com certeza! Eu sou uma pessoa muito curiosa, e meu interesse se distribui em muitas direções. Embora eu já trabalhe com a linguagem escultórica, tenho tido interesse em experimentar o encontro com o ferro, principalmente; fundir metal é uma experiência que me cativa muito, por exemplo. Tem crescido meu interesse em desenvolver minha prática escultórica com outras materialidades e colocá-las em relação com a cerâmica. A matéria e seus desdobramentos têm me interessado como pesquisa. Mas também tenho tido muita curiosidade em experimentar pintura com tinta a óleo. Me parece que ela tem uma plasticidade distinta da tinta acrílica.
