Antropóloga travesti, Pisci Bruja defende na AIDS 2026 o papel das comunidades na ciência do HIV

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

Muito antes da cerimônia oficial de abertura do AIDS 2026, uma pergunta já atravessava um dos espaços mais disputados do congresso. Na sala 204 do Riocentro, onde pesquisadores, profissionais de saúde, ativistas e representantes de organizações comunitárias de diversos países participavam da pré-conferência Towards an HIV Cure, o debate sobre a cura do HIV deixou, por alguns minutos, de girar em torno de genes, reservatórios virais e ensaios clínicos.

Passou a girar em torno das pessoas.

Realizada na manhã deste domingo (26), a programação reúne alguns dos principais nomes da pesquisa mundial sobre a cura do HIV. Ao longo do dia, cientistas discutem estratégias biomédicas capazes de eliminar o vírus ou alcançar o controle sustentado da infecção sem a necessidade de tratamento antirretroviral. Trata-se de um ambiente tradicionalmente ocupado por apresentações altamente técnicas, nas quais gráficos, biomarcadores e resultados laboratoriais costumam conduzir a conversa.

Foi justamente nesse cenário que a pesquisadora brasileira Pisci Bruja Garcia de Oliveira decidiu inverter a lógica do debate.

Convidada para a palestra “Introduction to Community Aspects of HIV Cure”, Pisci subiu ao palco ao lado de outros cientistas internacionais não para apresentar uma nova tecnologia, mas para questionar o próprio ponto de partida da ciência. Antropóloga, doutoranda da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), educadora comunitária do Centro de Referência e Treinamento em IST/AIDS (CRT-SP), travesti e pessoa vivendo com HIV, ela propôs que a busca pela cura comece em um lugar frequentemente ignorado pelos laboratórios: a experiência das comunidades que convivem diariamente com a epidemia.

“Quando falamos sobre cura do HIV, normalmente começamos pela ciência biomédica. (…) Mas hoje eu gostaria de começar em outro lugar. Gostaria de perguntar: como as comunidades brasileiras imaginaram a cura do HIV?”

A resposta apresentada por Pisci não surgiu de uma hipótese abstrata nem de uma crítica à ciência. Pelo contrário. Durante toda a conferência, ela reconheceu os avanços extraordinários alcançados pela pesquisa biomédica nas últimas décadas. A terapia antirretroviral transformou o HIV de uma doença fatal em uma condição crônica controlável. Casos raríssimos de cura renovaram o interesse internacional pelo tema, enquanto novas estratégias terapêuticas aproximam pesquisadores de um objetivo que, durante muito tempo, parecia impossível.

Mas, segundo ela, ainda existe uma pergunta pouco explorada.

O que significa, de fato, estar curado?

Eliminar completamente o vírus do organismo representa um marco científico inquestionável. No entanto, essa conquista, por si só, não apaga as marcas deixadas por mais de quatro décadas de epidemia. Pessoas vivendo com HIV continuam enfrentando estigma, discriminação, racismo, transfobia, violência institucional e barreiras de acesso aos serviços de saúde. Para a pesquisadora, pensar em cura exige compreender também essas dimensões sociais, históricas e políticas.

Ao longo da apresentação, Pisci mostrou que esse debate não começou dentro dos laboratórios. Muito antes de a ciência considerar uma cura possível, comunidades brasileiras já refletiam sobre o significado de viver depois do HIV. Para ilustrar essa construção coletiva, recuperou a obra “O Dia da Cura”, escrita por Herbert de Souza, o Betinho, em 1992, quando ainda não existiam tratamentos eficazes. Na crônica, a descoberta da cura não aparece como o fim de uma doença, mas como o início de uma nova vida, marcada pela necessidade de reaprender a imaginar o futuro.

Essa ideia atravessa toda a pesquisa apresentada. A cura deixa de ser entendida apenas como um desfecho biomédico e passa a ser vista como um processo de reconstrução da dignidade, do cuidado e da capacidade de projetar novos caminhos para pessoas historicamente atravessadas pela epidemia.

Outro ponto central da apresentação foi o papel das comunidades na produção do conhecimento científico. Pisci questionou um modelo ainda predominante em muitos estudos, no qual pessoas vivendo com HIV são chamadas apenas para responder a questionários, integrar grupos focais ou participar de ensaios clínicos já desenhados. Para ela, essa lógica precisa ser superada.

Comunidades não devem ser apenas participantes das pesquisas.

Devem ajudar a formular as perguntas, definir prioridades e construir as respostas.

Esse argumento dialoga com um dos principais achados apresentados durante a conferência. Estudos sobre percepção comunitária mostram que pessoas vivendo com HIV demonstram grande interesse em participar de pesquisas sobre cura, mas esperam relações baseadas em confiança, transparência e diálogo permanente. O desejo de contribuir para a ciência existe, mas depende de processos que reconheçam essas pessoas como parceiras, e não apenas como fonte de dados.

Para mostrar que esse modelo já pode ser colocado em prática, Pisci apresentou uma experiência desenvolvida em São Paulo a partir de um projeto de engajamento comunitário em pesquisas sobre cura do HIV. Em vez de iniciar o trabalho aplicando questionários ou recrutando voluntários, a equipe decidiu fazer o caminho inverso: primeiro construiu vínculos com lideranças comunitárias e organizações LGBT+, promovendo rodas de conversa, atividades esportivas, oficinas e espaços de convivência. Somente depois desse processo começaram as discussões sobre a percepção da cura e a participação em pesquisas.

O objetivo era romper com uma lógica que, historicamente, marcou parte da produção científica: a de extrair informações das comunidades sem estabelecer relações duradouras de troca. Para a pesquisadora, produzir ciência também significa construir confiança, reconhecer saberes e compreender que o conhecimento não nasce exclusivamente nas universidades ou nos laboratórios.

Essa perspectiva também apareceu quando a apresentação aproximou ciência e arte. Pisci mostrou como artistas brasileiros vivendo com HIV vêm produzindo reflexões sobre cura, memória, sofrimento e futuro muito antes de essas questões chegarem às grandes agendas científicas. Performances, fotografias, poesias e outras produções culturais foram apresentadas como formas legítimas de conhecimento, capazes de revelar dimensões da epidemia que dificilmente seriam capturadas apenas por indicadores biomédicos.

Ao defender que “a cura deve tornar-se um processo, e não apenas um produto”, a pesquisadora sintetizou a principal mensagem da manhã. Uma futura cura não poderá ser medida apenas pela ausência do vírus no organismo. Também precisará enfrentar o estigma, reparar desigualdades, ampliar o acesso à saúde e garantir que populações historicamente marginalizadas participem das decisões que moldam o futuro da pesquisa.

Nos minutos finais, Pisci recuperou a história de Brenda Lee, referência no acolhimento de pessoas vivendo com HIV durante os anos mais duros da epidemia no Brasil. Ao lembrar que comunidades sempre produziram cuidado, solidariedade e inovação muito antes de serem reconhecidas pelas instituições, reforçou que esse legado não pode ser deixado de lado justamente quando a ciência parece mais próxima de alcançar uma cura.

Ao término da palestra, o auditório levantou-se para aplaudir de pé. O gesto foi mais do que um reconhecimento à qualidade da apresentação. Foi a resposta a uma provocação que atravessa não apenas a pesquisa sobre a cura do HIV, mas toda a história da epidemia: durante décadas, comunidades foram chamadas a participar da ciência. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que elas sempre fizeram parte da sua construção.

Na sala 204 do Riocentro, a principal inovação daquela manhã não foi anunciada por um gráfico, uma molécula ou um resultado de laboratório. Ela surgiu da lembrança de que a ciência avança quando escuta aqueles que convivem diariamente com os desafios que pretende transformar.

Porque, se um dia a cura do HIV chegar, ela não será apenas uma conquista da biomedicina.

Será também fruto da memória, da resistência e do conhecimento produzido pelas comunidades que jamais deixaram de imaginar um futuro possível.



Por Midia Ninja

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