Alameda dos Artistas coloca os quadrinhos no centro da 28ª Bienal do Livro de São Paulo

Portal Inhaí
11 Min Read


Por Hyader Epaminondas

Lembro perfeitamente da sensação de atravessar os corredores da minha primeira Bienal do Livro. Era uma experiência totalmente sensorial: o cheiro de papel novo, os estandes gigantescos, as pilhas de livros, os leitores carregando sacolas que pareciam pesar cada vez mais a cada corredor e aquela sensação de estar diante de uma espécie de templo da literatura.

Havia escritores espalhados por todos os lados, lançamentos, sessões de autógrafos, editoras disputando espaço e grandes nomes estampados em totens gigantescos. Tudo parecia dizer a mesma coisa: aqui está a literatura, aqui estão os livros, aqui está aquilo que deve ser lido. Mas, no meio de toda aquela celebração do texto, havia uma ausência que sempre me incomodou: cadê os quadrinhos?

Não era exatamente que eles não existissem. Nos tempos de dominância de editoras como Conrad, JBC e Panini, eles estavam ali de alguma maneira, escondidos entre uma editora e outra, em algum canto menos privilegiado, em uma prateleira específica ou em meio às promoções.

Para encontrar um quadrinho que fugia dos clássicos da Turma da Mônica em uma Bienal anos atrás, muitas vezes era preciso garimpar entre os estandes. Os quadrinhos ocuparam um lugar curioso dentro da própria ideia de literatura, eram populares demais para serem considerados eruditos, visuais demais para serem tratados simplesmente como literatura e, ao mesmo tempo, narrativos demais para serem reduzidos apenas a uma forma de ilustração. Havia sempre uma espécie de “depois”: primeiro você lia quadrinhos e depois, quando crescesse, supostamente passaria para os livros.

Essa ideia parece absurda hoje, mas durante muito tempo fez parte do imaginário em torno das histórias em quadrinhos, como se ler quadrinhos fosse apenas uma etapa preparatória para chegar àquilo que seria considerado “literatura de verdade”. Era como se obras como “Maus”, “Watchmen”, “Sandman”, “Persépolis” e “O Cavaleiro das Trevas”, entre tantas outras, precisassem se justificar por utilizar desenhos para contar suas histórias. Durante muito tempo, os quadrinhos viveram nessa espécie de sarjeta simbólica, tratados como uma forma menor de expressão, sempre tentando provar que também poderiam ocupar um lugar legítimo no campo da arte e da literatura.

O problema nunca foi apenas a quantidade de títulos disponíveis, mas o lugar que eles ocupavam dentro da hierarquia cultural. Eles podiam vender milhares de exemplares, formar gerações de leitores e criar personagens que atravessaram décadas, mas ainda assim eram frequentemente tratados como algo que poderia ser consumido, mas não necessariamente levado a sério. Enquanto os livros eram apresentados como cultura, os quadrinhos precisavam constantemente provar que também eram.

Só que essa história começou a mudar e mudou de uma maneira particularmente interessante: não foi apenas o público de quadrinhos que passou a exigir reconhecimento, e o que antes era tratado como “gênero” começou a ser compreendido como linguagem. E essa diferença é enorme, porque os quadrinhos não são simplesmente literatura acompanhada de desenhos, assim como também não são ilustrações acompanhadas de texto.

Existe ali uma construção narrativa própria, baseada na relação entre imagem, palavra, ritmo, enquadramento, composição, sequência e, principalmente, na participação ativa do leitor.

Alameda dos Artistas: Quando a Bienal reconhece aquilo que o leitor já sabia

É justamente por isso que a nova área nomeada de Alameda dos Artistas ganha um significado tão especial na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Entre os dias 4 e 13 de setembro, no Distrito Anhembi, a feira estreia esse espaço oficial dedicado a artistas nacionais, reunindo 30 mesas durante os dez dias do evento sob a curadoria de Ivan Freitas da Costa, cofundador da CCXP e CEO da Chiaroscuro Studios.

E não poderia haver escolha melhor para encabeçar essa iniciativa. Ivan acompanhou e participou ativamente da transformação do mercado de quadrinhos brasileiro há mais de uma década, construindo e aprimorando esse olhar desde antes mesmo da primeira edição da CCXP, em 2014. Foi a partir dessa trajetória que os “Artists’ Alleys” ganharam no Brasil uma dimensão muito maior do que a de simples espaços para autógrafos e vendas, tornando-se pontos de encontro entre artistas e público e ajudando a profissionalizar essa relação.

Quem já teve a oportunidade de visitar edições internacionais de grandes eventos de quadrinhos percebe rapidamente uma diferença: em muitos deles, o espaço ainda funciona de maneira bastante tradicional, reduzido a mesas, cadeiras e um banner minimalista identificando o artista.

No Brasil, Ivan ajudou a transformar essa lógica, imprimindo uma estética própria às suas curadorias, na qual o espaço é pensado nos mínimos detalhes, da ambientação à identidade visual, criando uma experiência que valoriza não apenas o artista e sua obra, mas também a maneira como o público entra em contato com eles. É um espaço considerado como o “coração do evento”, concebido para dar protagonismo aos quadrinhos e seus criadores.

Agora, esse olhar chega à Bienal, levando para uma das maiores celebrações literárias do país uma experiência que também ajudou a transformar o lugar ocupado pelos quadrinhos dentro da cultura brasileira. Na prática, a Alameda representa uma mudança de status dos próprios quadrinhos, o artista que antes precisava disputar espaço dentro da programação agora ganha uma área própria. Existe uma inversão de lógica bastante interessante nesse movimento: antes, o quadrinho precisava encontrar a Bienal, agora, é a Bienal que está abrindo espaço para o quadrinho.

A curadoria reúne diferentes gerações e atuações dentro do mercado, de nomes históricos como Laerte e Franco de Rosa a artistas de projeção internacional como Daniel HDR, Gabriel Picolo e Lucas Meyer, além de uma geração de autores independentes como Helô D’Angelo, Germana Viana, Lark, Helena Cunha, Isadora Zeferino e Magenta, ao lado de nomes como Paulo Moreira, Hiro Kawahara, Hugo Canuto, Fábio Yabu, Gidalti Jr., Mário César, Laudo, Marina V. O resultado é uma seleção que não tenta definir uma única identidade para os quadrinhos brasileiros, mas justamente mostrar a amplitude de uma produção que vai do humor à fantasia, da ilustração ao quadrinho autoral, dos grandes personagens às narrativas independentes.

E talvez essa seja a parte que mais me interessa nessa iniciativa, porque existe uma diferença enorme entre estar presente e ser reconhecido como parte daquele espaço. Um quadrinho pode estar em uma livraria, um quadrinista pode participar de uma sessão de autógrafos e uma editora pode lançar um encadernado, mas quando uma instituição como a Bienal cria uma área específica para quadrinistas e ilustradores, existe uma mensagem muito clara sendo transmitida: essas pessoas e essas obras fazem parte da literatura nacional que estamos celebrando.

Durante muito tempo, eles ficaram nos cantos, nos espaços menores, nos eventos especializados, nas bancas de rua, lojas de quadrinhos e nos estandes que o público precisava procurar. Agora, eles ocupam uma alameda e existe algo poético nessa mudança. A própria ideia de “alameda” pressupõe circulação: é um caminho pelo qual as pessoas passam, descobrem coisas e, eventualmente, param.

É exatamente isso que o meio precisa continuar fazendo: encontrar leitores que talvez nem tenham ido à Bienal procurando por uma história em quadrinhos. Uma linguagem cresce não apenas quando aqueles que já gostam dela continuam consumindo, mas principalmente quando consegue ser descoberta por quem ainda não sabia que precisava dela. É nesse encontro que novos leitores são formados, ampliando não apenas o público, mas também as possibilidades de existência e de futuro para o próprio meio, que precisa urgentemente dessa renovação.

E o mais interessante é perceber que eles não deixaram de ser populares, coloridos, nem abandonaram os super-heróis, o humor, a aventura, o terror, o mangá, a ficção científica ou a produção independente. Precisou apenas que o mercado finalmente olhasse para aquilo que os leitores já sabiam há muito tempo: quadrinhos são literatura, quadrinhos são arte e quadrinhos são uma linguagem.

Voltar à Bienal e encontrar uma Alameda dos Artistas dedicada a quadrinistas e ilustradores é uma maneira de perceber o quanto esse cenário mudou nos últimos 20 anos. E essa transformação não acontece de forma isolada: em 2023, a Bienal do Livro Rio já havia levado o modelo de “Artists’ Alley” para dentro do evento. A iniciativa carioca ajudou a abrir esse caminho e agora, em São Paulo, a proposta ganha uma nova dimensão, incorporada oficialmente à estrutura da Bienal em um espaço de destaque dentro de um dos maiores eventos literários do país.

Aquela pergunta que eu fiz na minha primeira visita, quando eu era criança, “cadê os quadrinhos?”, finalmente parece encontrar uma resposta. Eles não estão mais escondidos entre as prateleiras, esperando serem descobertos por quem já sabe onde procurar. Estão dentro da própria experiência da 28ª Bienal Internacional do Livro, dividindo espaço com aquilo que durante décadas foi considerado a forma mais legítima de literatura. E talvez esse seja o verdadeiro significado da Alameda dos Artistas: não simplesmente colocar os quadrinhos dentro da Bienal, mas reconhecer que eles sempre fizeram parte dela.



Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *