Abertura da AIDS 2026: a noite em que o mundo escolheu o Brasil para decidir o futuro da luta contra o HIV

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

Pela primeira vez em mais de quatro décadas, a Conferência Internacional de AIDS desembarcou na América do Sul. Organizada pela International AIDS Society (IAS), a 26ª edição do maior encontro mundial sobre HIV reuniu, no Rio de Janeiro, pesquisadores, profissionais de saúde, representantes de governos, organismos internacionais e movimentos sociais em um momento decisivo para a resposta global à epidemia.

A abertura da AIDS 2026 refletiu o cenário que atravessa a luta contra o HIV. De um lado, a ciência avança com novas tecnologias de prevenção e tratamento. De outro, cortes no financiamento internacional, desigualdades persistentes e dificuldades de acesso ameaçam impedir que esses avanços cheguem a quem mais precisa. Ao longo de pouco mais de três horas, esse contraste apareceu nos discursos, nas manifestações e nas mensagens das principais lideranças presentes.

Quem abriu a cerimônia foi Alberto Pereira Júnior, jornalista, gay, negro e pessoa vivendo com HIV. Em um discurso marcado pela memória e pela esperança, ele lembrou que a América Latina e o Caribe têm conquistas importantes a celebrar, mas alertou que nenhuma delas está garantida. Segundo Alberto, as novas infecções continuam crescendo, especialmente entre jovens, populações-chave, povos indígenas e mulheres.

“O progresso nunca é permanente. Cada geração precisa decidir se vai protegê-lo”, afirmou.

Ao lembrar Cazuza, Alberto destacou que o cantor deu um rosto humano à AIDS em um período marcado pelo medo e pelo estigma. Hoje, disse, o desafio é outro: impedir que a esperança trazida pelos avanços científicos leve à acomodação.

“O futuro do HIV não será decidido apenas nos laboratórios. Será decidido pelas escolhas que fizermos entre a solidariedade e a exclusão, entre o cuidado e a injustiça.”

Na sequência, a infectologista Beatriz Grinsztejn, presidente da International AIDS Society (IAS), deu as boas-vindas aos participantes e ressaltou o significado de realizar a conferência pela primeira vez na América do Sul. Para ela, o encontro acontece em um momento decisivo, em que a região convive com o crescimento das novas infecções enquanto o mundo enfrenta um cenário de redução do financiamento internacional.

Beatriz destacou que milhões de pessoas ainda vivem sem acesso ao tratamento e defendeu que o enfrentamento ao HIV depende de decisões políticas, financiamento sustentável e participação das comunidades.

Ela também chamou atenção para a situação de países que destinam mais recursos ao pagamento de dívidas do que a investimentos em saúde, defendendo mudanças no modelo de financiamento global para ampliar o acesso à prevenção e ao tratamento.

A infectologista chilena Claudia Cortés levou ao palco uma reflexão sobre equidade, representatividade e o papel do Sul Global na produção do conhecimento científico.

Ao falar de sua trajetória como médica, pesquisadora e mulher latino-americana, afirmou que produzir ciência também significa enfrentar desigualdades históricas.

“Às vezes precisamos construir nossa voz paciente por paciente, estudo por estudo, enquanto outros ainda decidem se mulheres ou pessoas do Sul Global têm autoridade suficiente para falar.”

Claudia também destacou que mulheres, pessoas trans, migrantes, povos indígenas, profissionais do sexo e outras populações continuam enfrentando barreiras para acessar prevenção, diagnóstico e tratamento.

“Nada sobre nós sem nós continua sendo tão urgente quanto sempre foi.”

Ao final de sua fala, dirigiu uma mensagem às jovens médicas, pesquisadoras, cientistas e mulheres vivendo com HIV presentes na conferência.

“Não permitam que ninguém silencie vocês por serem mulheres. Não se diminuam porque vêm de um país pequeno ou porque o inglês não é a primeira língua de vocês.”

A declaração foi recebida com uma longa salva de palmas.

Enquanto os aplausos a Claudia Cortés ainda ecoavam pelo auditório, a cerimônia foi interrompida por uma manifestação que alterou o ritmo da noite.

Durante cerca de 20 minutos, ativistas ocuparam o palco para cobrar investimentos na busca pela cura do HIV, defender o acesso universal às novas tecnologias e denunciar os impactos dos cortes no financiamento internacional da resposta à epidemia. Cartazes pediam a quebra de patentes e a ampliação do acesso aos medicamentos de última geração, enquanto palavras de ordem reforçavam uma reivindicação histórica do movimento.

“Não queremos apenas sobreviver. Queremos viver.”

Ao final do ato, a programação foi retomada com a entrada da diretora executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), Winnie Byanyima.

Em um dos discursos mais políticos da cerimônia, Winnie afirmou que a resposta global ao HIV atravessa um dos momentos mais desafiadores desde o início da epidemia. Lembrou que quase nove milhões de pessoas ainda não têm acesso ao tratamento e defendeu mudanças no modelo de financiamento internacional para garantir a sustentabilidade das políticas públicas.

Ao falar sobre direitos humanos, destacou que os avanços conquistados nas últimas décadas sempre estiveram ligados à mobilização das comunidades.

“Cada grande conquista aconteceu porque enfrentamos a desigualdade de frente.”

Winnie também criticou a lentidão na ampliação do acesso às novas tecnologias de prevenção e tratamento e questionou por que regiões inteiras, como a América Latina, seguem fora de acordos capazes de ampliar a oferta desses medicamentos.

“Como uma região inteira pode ficar de fora de tecnologias que salvam vidas?”

Na sequência, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, iniciou sua fala cumprimentando o público em português, antes de destacar a contribuição histórica do Brasil para a resposta global ao HIV.

Tedros lembrou o compromisso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a ampliação do acesso ao tratamento, a produção de medicamentos e a cooperação internacional. Também alertou que a resposta ao HIV enfrenta sua maior ruptura em décadas, diante da redução do financiamento internacional e do avanço das desigualdades.

“Não viemos ao Rio para lamentar o que está em risco. Viemos para defender e construir o que vem pela frente.”

Durante a cerimônia, anunciou novas diretrizes da OMS para fortalecer os sistemas de vigilância e os serviços de atenção às pessoas vivendo com HIV, reafirmando a importância da participação das comunidades e do fortalecimento dos sistemas públicos de saúde.

O diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Jarbas Barbosa, destacou que as Américas acumularam importantes conquistas graças à combinação entre ciência, compromisso político e sistemas universais de saúde. Ao mesmo tempo, lembrou que milhares de pessoas ainda recebem o diagnóstico tardiamente ou permanecem sem tratamento.

“A inovação só salva vidas quando chega às pessoas”, afirmou.

O último discurso da noite foi do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, recebido sob fortes aplausos pelo público. Infectologista de formação, Padilha relembrou que foi durante a epidemia de AIDS, nos anos 1990, que decidiu seguir essa especialidade. Também homenageou as pessoas que perderam a vida em decorrência da doença.

“Sem a luta delas, não seria possível alcançar tudo o que conquistamos até hoje.”

Ao defender o Sistema Único de Saúde (SUS), afirmou que a resposta brasileira ao HIV foi construída sobre ciência, direitos humanos e participação social. Também celebrou a certificação concedida ao Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, tornando o país o primeiro com mais de 100 milhões de habitantes a alcançar esse resultado.

Ao abordar as novas tecnologias de prevenção e tratamento, resumiu uma das mensagens mais fortes da cerimônia.

“Inovação sem acesso é injustiça.”

Depois de mais de três horas de debates, anúncios e manifestações, a abertura da AIDS 2026 foi encerrada com um show da artista paraense Jaloo, que levou ao palco uma apresentação marcada por música eletrônica, referências amazônicas e diversidade.

A cerimônia terminou sem respostas definitivas para os desafios apresentados ao longo da noite. Mas deixou evidente o tema que atravessou praticamente todos os discursos: a ciência avançou de forma extraordinária nas últimas décadas. O desafio, agora, é garantir que esse avanço se transforme em acesso, financiamento, direitos e políticas públicas capazes de alcançar todas as pessoas.

Realizada pela primeira vez na América do Sul, a 26ª Conferência Internacional de AIDS, organizada pela International AIDS Society (IAS), colocou o Brasil no centro de uma discussão que ultrapassa fronteiras. Mais do que sediar o principal encontro mundial sobre HIV, o país tornou-se palco de um debate que ajudará a definir os próximos passos da resposta global à epidemia.



Por Midia Ninja

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