
Adolescência não é uma série de ficção policial que tem como objetivo descobrir quem matou, mas instigar uma desafiadora reflexão sobre por que nossos adolescentes vêm cometendo atitudes extremas, sem um “motivo aparente”. A chamada geração Alfa (nascidos a partir de 2010) traz preocupações e enfrentamentos diferentes das gerações nascidas nas décadas anteriores. Os pais dessas gerações temiam os perigos existentes nas ruas – o mal a que estávamos expostos nesse ambiente. Hoje esse medo ainda é real e pertinente, mas para os pais da geração Alfa ainda existe um novo temor, explicitado na série – o acesso a um mundo desconhecido por nós, localizado dentro das redes sociais e acessado pelos computadores desses adolescentes, de seus quartos. Um mundo digital cercado por símbolos (emojis), decifrados apenas por quem faz parte dessa geração e que colocam as gerações anteriores como totais analfabetos digitais. Insels, redpills, bluepills, teoria do 80/20, política do cancelamento, cyberbullying e manosfera são algumas das expressões que compõem o novo dialeto dessa geração que são nativos digitais e que trazem características e comportamentos muito específicos.
Na geração Alfa, a exposição à tecnologia e a telas é muito forte. Com muitos estímulos e acostumados a usar meios digitais para se entreter e buscar informações, requerem uma educação mais dinâmica, ativa, multiplataforma e personalizada. Essa geração tem como características a flexibilidade, a autonomia e um potencial maior para inovar e buscar soluções para problemas de forma colaborativa. Gostam de ser protagonistas, colocar a mão na massa e aprender com situações concretas.
A geração Alfa não escreve mais cartas, manda mensagens pelo WhatsApp ou pelas redes sociais. Não faz mais diários, posta vídeos no TikTok, ou propaga suas ideias via X (antigo Twitter). As pesquisas já não são mais feitas em enciclopédias, mas sim no “Senhor Google”.
As gerações Baby Boomers e X, que predominam entre os docentes que atuam no ensino superior, foram educadas a utilizar um equipamento novo somente depois de terem lido todo o seu manual, com o temor de quebrá-lo se esta regra não fosse cumprida. Na geração Alfa o raciocínio é completamente inverso, ou seja, é necessário explorar um equipamento novo, livremente, para poder aprender como se usa – é a cultura Touch, que exemplifica muito bem a necessidade desta geração participar ativamente do processo para poder aprender. O fato é que a geração Alfa precisa ser protagonista do processo para que haja o seu engajamento. Diante desse cenário de possível conflito de gerações, o uso das metodologias ativas passa a ser uma possibilidade muito interessante para aproximar mundos tão distantes e diferentes.
Numa atualidade em que somos desafiados a nos (re)inventar como docentes e as atividades remotas de ensino passaram a ser uma nova possibilidade, o uso de metodologias ativas tornou-se uma estratégia muito interessante, na medida em que busca tornar o processo ensino-aprendizagem mais atrativo para as novas gerações que buscam o protagonismo dentro do processo ensino-aprendizagem. Nesse sentido, metodologia ativa é um conceito amplo, que pode englobar diferentes práticas em sala de aula. Em comum, todas têm o objetivo de tornar o aluno protagonista dentro do processo, participando ativamente de sua jornada educativa.
As metodologias ativas de ensino-aprendizagem compartilham uma preocupação – estimular a participação ativa dos alunos, tornando-os protagonistas no processo de aprendizagem –, porém, não se pode afirmar que são uniformes, tanto do ponto de vista dos pressupostos teóricos como metodológicos; assim, identificam-se diferentes modelos e estratégias para sua operacionalização, constituindo alternativas para o processo de ensino-aprendizagem, com diversos benefícios e desafios, nos diferentes níveis educacionais.
A geração Alfa, com seus símbolos e comportamentos próprios, escancarados na série Adolescência, atualmente está com seus representantes mais velhos na casa dos 15 anos e mais dois ou três anos ocuparão as salas do ensino superior. Será que estaremos preparados para eles? Seremos capazes de decifrá-los ou seremos devorados?
Um dia, um amigo que também é docente me disse que “os alunos nunca envelhecem… nós envelhecemos”. Nunca havia pensado nessa perspectiva, mas concordei, e por isso acredito que cabe a nós procurar decifrá-los e, desse modo, termos a chance, por meio de nossas experiências de vida e profissional, contribuir para a formação de líderes para estas novas gerações e, assim, prepará-los para um mundo coberto de incertezas…
Ah! Não podemos ainda esquecer que a partir de 2020 temos uma nova geração, a Beta, nativos da inteligência artificial…
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