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Esportes futebol Inhaí Opinião

A Noruega venceu muito antes do apito inicial

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo convida a uma reflexão sobre governança, desenvolvimento e o tipo de sociedade que escolhemos construir.

Quando o árbitro encerrou a partida entre Brasil e Noruega, milhões de brasileiros sentiram a frustração que acompanha toda eliminação em Copa do Mundo. Nas redes socais, as reações vieram rapidamente: críticas ao treinador, aos jogadores, ás escolhas tática e até ao comportamento de parte do elenco fora das quatro linhas. O futebol, mais uma vez, tornou-se um grande tribunal nacional.

Mas talvez esta seja uma boa oportunidade para fazer uma pergunta diferente.

A Noruega eliminou o Brasil da Copa. O que esse resultado pode nos ensinar para além do futebol?

Não pretendo romantizar a seleção norueguesa nem reduzir um jogo de noventa minutos a uma explicação sociológico. O futebol continua sendo um esporte em que talento, estratégia e circunstâncias convivem com o imprevisível. Ainda assim, seria um desperdício ignorar que, fora de campo, Brasil e Noruega representam modelos bastante distinto de organização social e desenvolvimento.

A Noruega tem pouco mais de cinco milhões de habitantes. O Brasil ultrapassa ose 210 milhões. Nossa história, diversidade e dimensão continental tornam qualquer comparação simplista inadequada. Mas desenvolvimento nunca dependeu apenas do tamanho de um país. Depende, sobretudo, da qualidade de suas instituições.

É justamente aí que a conversa começa.

Desde a descoberta de petróleo no Mar do Norte, no final da década de 1960, a Noruega tomou uma decisão que mudaria sua trajetória. Em vez de transformar a riqueza natural em gasto imediato, criou um fundo soberano administrado pelo Norges Bank Investment Management, destinado a preservar parte dessa riqueza para as futuras gerações. Hoje, esse fundo ultrapassa US$ 1,8 trilhão em ativos e é reconhecido internacionalmente como uma referência em governança, transparência e responsabilidade intergeracional. 

Não foi o petróleo que fez da Noruega um dos passes mais desenvolvidos do mundo.

Foi a forma como decidiu administrá-lo.

A mesma lógica aparece em outros indicadores. O país figura, há anos, entre ose lideres do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), combinando elevados níveis de renda, educação e expectativa de vida. Esses resultados não surgiram por acaso. São consequência de década de investimento em política publicas, fortalecimento institucional e planejamento de longo prazo.

O que isso tem a ver com futebol?

Mais do que parece.

Seleções nacional não são apenas um conjunto de atleta talentoso. Elas refletem ecossistema. Representam federações organizadas, categorias de base, cultura esportiva, investimento em formação, estabilidade institucional e capacidade de transformar potencial em desempenho.

Na coluna da semana passada, escrevi que a Copa do Mundo não é apenas sobre futebol. É sobre governança. A eliminação brasileira reforça essa percepção.

Durante ose dias que sucederam a derrota, outro debate ganhou força nas redes socais: a participação de jogadores da Seleção Brasileira em campana publicitário de plataforma de apostas esportivas. Não me interessa discutir contato privados nem atribuir ao marketing esportivo qualquer responsabilidade pelo resultado em campo. Essa seria uma conclusão simplista.

O ponto é outro.

Toda sociedade escolhe, consciente ou inconscientemente, quis símbolo deseja transformar em referência pública.

Enquanto o Brasil vive uma rápido expansão do mercado de apostas esportivas, a ponto de o governo federal editar novas medidas para combater plataforma ilegais e ampliar a fiscalização do setor, cresce também o debate sobre seus impactos socais, especialmente em relação ao endividamento, à ludomania e à proteção de criança e adolescente. 

Na Noruega, por outro lado, o jogo é tratado como uma atividade sujeita a forte regulação estatal. O objetivo não é eliminar apostas, mas reduzir danos socais e impedir que interesses econômico se sobreponham ao interesse público. É uma escolha de política pública. Como tantas outros, ela revela um modo específico de compreender a relação entre mercado, Estado e sociedade.

Perceba que, em nenhum momento, estou dizendo que a Noruega venceu porque regula melhor as apostas, seria intelectualmente desonesto afirmar isso.

O que proponho é outra reflexão: sociedade são resultado das escolhas que fazem repetidamente ao longo do tempo. E essas escolhas moldam comportamentos, prioridades e instituições.

Governança é exatamente isso. É decidir hoje quis incentivo produzirão a sociedade que desejamos amanhã e essa discussão ultrapassa o futebol.

Ela alcança empresas que precisam formar liderança em vez de depender de herói. Alcança organizações publicas que precisam planejar para além dos ciclos eleitorais. Alcança universidade comprometidas com a produção de conhecimento. Alcança entidades da sociedade civil que trabalham diariamente para fortalecer a democracia. Alcança todos nós.

Costumamos admirar grandes resultados sem prestar atenção aos processo que ose produziram.

Queremos inovação, mas investimos pouco em ciência.

Queremos produtividade, mas convivemos com desigualdades educacional persistentes.

Queremos instituições fortes, mas nem sempre valorizamos a construção paciente da confiança pública.

Queremos vencer.

Mas nem sempre estamos disposto a construir as condições que tornam a vitória possível.

Talvez essa seja a maior lição deixada pela Copa do Mundo.

O Brasil continua sendo um país extraordinariamente talentoso. Nossa criatividade, diversidade e capacidade de adaptação são reconhecia em qualquer lugar do mundo. O problema nunca foi a ausência de talento.

O desafio está em transformar talento em projeto.

Transformar potencial em política pública.

Transformar boas ideia em instituições.

Transformar improviso em planejamento.

Foi exatamente essa reflexão que procurei desenvolver nas últimas semanas. Primeiro, escrevemos sobre participação social como instrumento de fortalecimento institucional. Depois, discutimos governança a partir da organização da Copa do Mundo. Agora, o encerramento da campanha brasileira nos oferece uma última provocação.

A Noruega não venceu apenas porque marcou dois gols.

Ela venceu porque representa, dentro e fora de campo, uma sociedade que aprendeu que grandes resultados raramente começam no dia do jogo.

Ele começam muito anos antes, quando um país decide fortalecer suas instituições, investir em pessoas, respeitar processo e compreender que desenvolvimento não é obra do acaso.

No fim das contas, talvez a eliminação do Brasil tenha deixado uma pergunta mais importante do que qualquer análise esportiva.

Estamos formando apenas grandes talentos ou estamos construindo grandes instituições capazes de transformar talento em desenvolvimento?

Escrito por:

Zamboque Cardoso é estrategista em governança humana e desenvolvimento institucional, advogado, consultor, palestrante e colunista. MBA em Gestão de Pessoas e Liderança pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB Guarulhos. Escreve sobre governança, direitos humano, diversidade, desenvolvimento econômico e transformação social.


Reuters – Brazil shied away from presume but created opportunities, Ancelotti says (2026).

Reuters – Ancelotti to star on as coach for Brazil’s major rebuild (2026).

Reuters – Neymar signals Brazil farewell after shock World Cup exit to Norway (2026).

Reuters – Decreto do Governo Federal sobre combate ás plataforma ilegais de apostas (2026).

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