A COPA DO MUNDO NÃO É SOBRE FUTEBOL

Zadoque Cardoso
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A Copa do Mundo costuma ser lida pelo placar. O torcedor olha para o resultado, discute a escalação, critica o treinador, cobra desempenho e tenta antecipar o caminho até a final. É natural que seja assim. O futebol mobiliza afetos, memórias e expectativas coletivas. No Brasil, especialmente, a Seleção não entra em campo apenas para disputar um jogo. Ela carrega uma ideia de país.

A estreia brasileira contra o Marrocos, com empate por 1×1, provocou críticas pela dificuldade de criação, pela previsibilidade ofensiva e pela sensação de que o time ainda não havia encontrado uma identidade clara. A vitória por 3×0 contra o Haiti trouxe alívio no resultado, mas não eliminou completamente as dúvidas sobre consistência, organização e capacidade de competir contra seleções mais estruturadas. O jogo desta quarta-feira, contra a Escócia, portanto, não é apenas mais uma partida da fase de grupos. É um teste de rota.

No futebol, como nas instituições, resultado importa. Mas resultado sem processo costuma enganar.

Uma vitória pode esconder fragilidades. Um empate pode revelar problemas estruturais. Uma classificação pode adiar debates que deveriam ter sido enfrentados antes. Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja apenas se o Brasil jogou bem ou mal, mas o que o desempenho da Seleção nos ensina sobre planejamento, liderança e governança.

Governança, no futebol, aparece antes da bola rolar. Está na escolha do treinador, na formação das categorias de base, na preparação física, no calendário, na relação entre clubes e seleção, na gestão médica, na análise de desempenho, na cultura interna do grupo e na capacidade de transformar talentos individuais em estratégia coletiva.

O Brasil sempre produziu jogadores extraordinários. Essa talvez seja uma das nossas maiores riquezas culturais. Mas talento, sozinho, não sustenta projetos vencedores. O futebol moderno exige coordenação, método, dados, liderança e clareza de propósito. Exige instituições capazes de transformar potencial em desempenho.

Essa lógica vale também para empresas, governos, universidades, entidades de classe, organizações da sociedade civil e movimentos sociais. Nenhuma instituição se mantém forte apenas porque possui bons nomes em seus quadros. Pessoas talentosas precisam de ambiente, direção, confiança, metas claras e capacidade de cooperação.

A Copa do Mundo, vista por essa perspectiva, é um grande laboratório de governança global. Para que uma partida aconteça, é necessário articular federações nacionais, FIFA, cidades-sede, patrocinadores, emissoras, sistemas de segurança, transporte, saúde, tecnologia, turismo, trabalhadores e milhares de voluntários. O espetáculo que aparece na televisão é apenas a face visível de uma complexa engrenagem institucional.

Em 2026, essa engrenagem se tornou ainda maior. A Copa realizada em três países, Estados Unidos, México e Canadá, ampliou o desafio de coordenação entre diferentes legislações, estruturas urbanas, culturas administrativas e interesses econômicos. Não se trata apenas de organizar jogos. Trata-se de governar um evento transnacional com impactos econômicos, ambientais, sociais e diplomáticos.

É nesse ponto que o futebol deixa de ser apenas entretenimento e passa a revelar algo sobre desenvolvimento institucional. Grandes eventos internacionais expõem a capacidade de uma sociedade planejar, cooperar, executar e deixar legado. Quando bem organizados, podem fortalecer turismo, infraestrutura, imagem internacional, economia local e sentimento de pertencimento. Quando malconduzidos, podem produzir desperdício, endividamento, obras subutilizadas e frustração social.

A diferença está na governança.

No campo, a Seleção Brasileira vive dilema semelhante. O país do improviso genial precisa dialogar com o futebol da organização estratégica. O drible continua necessário, mas já não basta. A inspiração individual precisa conversar com compactação, leitura tática, intensidade, preparação mental e capacidade de adaptação. O talento brasileiro permanece vivo, mas precisa ser protegido por um modelo de gestão que não dependa apenas do brilho de um jogador.

Esse debate ultrapassa o esporte.

O Brasil também é um país de talentos extraordinários fora de campo. Temos criatividade, diversidade cultural, capacidade empreendedora, produção científica, força comunitária e enorme potencial econômico. Mas, assim como no futebol, nem sempre conseguimos transformar esse potencial em projeto coletivo de longo prazo.

Falta, muitas vezes, aquilo que diferencia iniciativas promissoras de instituições maduras: governança.

Governança não é burocracia. É a capacidade de organizar interesses, definir responsabilidades, tomar decisões com transparência, avaliar resultados e corrigir rotas. 

É o que permite que uma boa ideia não dependa apenas da vontade de uma liderança. É o que transforma talento em projeto, projeto em execução e execução em legado.

Por isso, observar a Copa do Mundo apenas pelo placar é perder uma parte importante da história. O jogo contra a Escócia pode definir caminhos esportivos para o Brasil na competição, mas também oferece uma metáfora poderosa sobre o momento que vivemos como sociedade. Queremos ser lembrados apenas pela capacidade de reagir no improviso ou queremos construir estruturas capazes de sustentar desempenho, desenvolvimento e confiança?

A resposta não está apenas no futebol. Está nas empresas que precisam desenvolver lideranças. Está nas organizações que desejam crescer sem perder seus valores. Está nas instituições públicas que precisam entregar políticas mais eficientes. Está nas entidades da sociedade civil que desejam ampliar impacto. Está nos movimentos que precisam transformar mobilização em estratégia.

A Copa do Mundo nos lembra que nenhum grande resultado nasce no dia do jogo. Ele começa muito antes, nos bastidores, nas decisões silenciosas, na escolha das prioridades, na preparação das equipes e na capacidade de todos compreenderem o papel que exercem dentro de um projeto comum.

Talvez seja essa a principal lição da Copa para além do futebol: países, instituições e equipes fortes não se constroem apenas com talento. Constroem-se com governança, planejamento e cooperação.

E, nesse jogo, o Brasil ainda tem muito a disputar.


Zadoque Cardoso é estrategista em governança humana e desenvolvimento institucional, advogado, consultor, palestrante e colunista. MBA em Gestão de Pessoas e Liderança pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB Guarulhos. Escreve sobre governança, direitos humanos, diversidade, desenvolvimento econômico e transformação social.


GE sobre Brasil x Escócia e cenários do Grupo C; CNN Brasil sobre Brasil x Marrocos; Reuters e Guardian sobre Brasil x Haiti; FIFA sobre estratégia de sustentabilidade e impacto da Copa; Allianz Trade sobre estimativas econômicas do Mundial de 2026.

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