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Cinema

Crítica | South Park (South America) – 29X01: Gangues de Motoqueiros de South America

829 Mesmo que, especialmente nas últimas duas temporadas que foram lançadas literalmente uma em seguida à outra, South Park tenha que ter corrido atrás do absurdo da realidade do (des)governo dos EUA, o retorno da série para sua 29ª temporada mostra o porquê da longevidade impressionante da criação de Trey Parker e Matt Stone. No lugar de continuar a pegada mais diretamente crítica à presidência de Donald Trump, Gangues de…

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Mesmo que, especialmente nas últimas duas temporadas que foram lançadas literalmente uma em seguida à outra, South Park tenha que ter corrido atrás do absurdo da realidade do (des)governo dos EUA, o retorno da série para sua 29ª temporada mostra o porquê da longevidade impressionante da criação de Trey Parker e Matt Stone. No lugar de continuar a pegada mais diretamente crítica à presidência de Donald Trump, Gangues de Motoqueiros de South America (um daqueles títulos que não funcionam de verdade em português) surpreende e entrega o que é, em sua superfície, um típico episódio “da velha guarda” da série, em que situações eminentemente normais, mas irritantes do cotidiano são desancadas inclementemente com uma abordagem que não deixa pedra sobre pedra em nenhum dos lados da questões discutidas. Não só considero esse retorno – que pode ser temporário, não sei – ao South Park raiz como bem-vindo para evitar o desgaste da franquia com o mergulho monotemático no ensandecido “Líder do Mundo Livre”, mesmo eu tendo gostado muito do que foi feito, como ele obviamente apenas abriu espaço para a ironia fina, algo que fica evidente na largada com a produção mantendo acesa essa tocha crítica por meio da genial troca de título da série de South Park para South America, ironizando as imbecis alterações de nome do Golfo do México e do Lago Ontario pelas canetadas tresloucadas do laranjão provavelmente em um prelúdio para as mudanças dos nomes dos oceanos que banham os Estados Unidos para manter a consistência, isso depois de o Canadá ser convertido em Estados Unidos do Norte e o México em Estados Unidos do Sul, claro.

E o melhor é que algo tão gigantesco assim não é sequer explicado ou contextualizado dentro do episódio, deixando o espectador rir pelo que a modificação representa como puro deboche e não por fatores internos da trama. South Park, agora, é South America porque sim (e para ajudar no marketing, óbvio), exatamente a mesma lógica aplicada pelo presidente americano para fazer o que fez. Esse aspecto, casado com a promessa de “mudanças” em novembro – não as eleições do Congresso americano, mas sim o lançamento do já mítico game Grand Theft Auto VI – mencionada algumas vezes ao longo do roteiro, deixa claro que não há intenção, por parte de Trey Parker, de esquecer ou reduzir os comentários sobre o manicômio que se tornou aquele governo, seguido por sua horda de lemingues, não podemos esquecer, mas sim de mantê-los, pelo menos por enquanto, em segundo plano, como um pano de fundo, o que evita repetições e permite que outros assuntos não exatamente relacionados com o trumpismo sejam discutidos.

Nessa linha, o assunto da vez é a emergência – que posso chamar de praga, pois, aqui onde moro, elas são onipresentes – das bicicletas elétricas, o suprassumo da preguiça humana que transformou mais um hábito saudável em uma inconveniência tanto para o já caótico tráfego de automóveis e ônibus, quanto para pedestres e ciclistas normais, que usam somente os músculos para mover as rodas de seu veículo. Cartman, novamente mentindo para sua mãe, consegue arrancar dela uma dessas bicicletas de último tipo, logo saindo por South America como um louco furioso, somente para descobrirmos que essas maquininhas infernais tomaram conta das crianças da cidade. Na outra ponto do comentário crítico de Parker, temos, claro, os ciclistas que “treinam” paramentados com suas roupas espalhafatosas, capacetes e garrafas d’água no meio da rua, como se fossem donos dela. Sabem aquela cena em que vemos Randy Marsh – agora todo esportista – pedalando no meio da rua e obrigando os carros a ficarem lerdando atrás dele? Pois bem: isso não é exagero, pois acontece comigo dia sim, dia não, seja de manhã cedo ou, sinceramente, em quase todas as horas do dia, em um ritual que parece implorar par que eu finalmente ceda ao monstro que vive dentro de mim e atropele um desgraçado desses (ommmmmmm, deixe-me tentar ficar calmo…).

As gangues rivais, então, são formadas. De um lado, as crianças baderneiras que ignoram regras voando em seus bólidos de duas rodas e, de outro, os adultos que agem como crianças e dão piti por qualquer coisa rastejando em suas bikes profissionais. O imagético usado no episódio é excelente, sejam as máscaras e as piruetas das gangues mirins refletindo as gangues de motociclistas clássicas, seja o “bar” de bebidas saudáveis com direito à mesa de sinuca em que os adultos congregam para planejar o que fazer com as bicicletas elétricas. E, claro, nunca envelhece a gag da “City alguma coisa” da sempre mutante loja do chinês Tuong Lu Kim, gag essa que eu nem posso imaginar – e nem sei se quero – como é em português, com as baterias explosivas de bicicletas baratas funcionando muito bem nesse contexto do made in China. Não que seja tecnicamente uma novidade, mas foi até uma surpresa ver Kenny sem capuz e, ainda por cima, falando normalmente (ele falou outras vezes, mas essa, que me lembre, foi a única vez em que o ouvimos realmente articular frases mais complexas), com sua tradicional “morte” sendo usada dentro da trama como aconteceu lá na longínqua quinta temporada e que o manteve morto ao longo de quase toda a sexta, fazendo-me indagar se haverá uma repetição dessa estratégia.

South Par… digo… America voltou com tudo ao mostrar que Trey Parker sabe muito bem que manter o que fez nas duas temporadas anteriores poderia ser insustentável a longo prazo, retornando então ao estilo clássico, mas sem deixar de lado sua mira certeira em certos devaneios presidenciais. Meu único receio é que a grande razão para essa mudança de direção não seja apenas algo ditado pela força criativa, mas sim pela aquisição da Paramount pela Skydance, cujo mandachuva é aliado de vocês sabem quem. Teremos uma ideia melhor sobre isso em 15 dias!

South Park (South America) – 29X01: Gangues de Motoqueiros de South America (South Park (South America) – 29X01: South American Biker Gangs – EUA, 16 de setembro de 2026)
Data de lançamento no Brasil: 19 de setembro de 2026
Direção: Trey Parker
Roteiro: Trey Parker
Elenco: Trey Parker, Matt Stone, April Stewart, Mike Judge
Duração: 22 min.

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Fonte: Plano Critico.

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