Quem cuida da comunidade? O papel das torcidas organizadas onde o poder público não chega

Portal Inhaí
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Por Anna Ketleen Alves

Quando se fala em torcida organizada, a imagem mais comum ainda está ligada às arquibancadas: bandeiras, cânticos, caravanas, festas, rivalidades e, em alguns casos, episódios de violência. Fora dos estádios, porém, existem estruturas que exercem funções muito diferentes. Em sedes e quadras espalhadas pelas cidades, torcedores também organizam campanhas solidárias, oferecem atividades esportivas e culturais, promovem ações de inclusão, incentivam a educação e, em situações de emergência, mobilizam redes capazes de alcançar comunidades inteiras.

Não se trata apenas de ajudar quem precisa ocasionalmente. Em algumas organizações, o trabalho social tornou-se uma atividade permanente, incorporada à própria estrutura das torcidas.

Um dos exemplos mais documentados é o da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians. Antes mesmo da pandemia de Covid-19, seu departamento social já promovia campanhas em datas como Natal, Páscoa e Dia das Crianças, além de campanhas de agasalho durante o inverno. Com a crise sanitária e o aumento da vulnerabilidade econômica, a estrutura foi ampliada: a torcida passou a realizar ações semanais de arrecadação e distribuição de marmitas, cestas básicas, roupas e produtos de higiene em diferentes regiões de São Paulo.

Em 2021, a National Geographic registrou que a campanha havia arrecadado mais de 30 toneladas de alimentos. As ações chegaram a comunidades como Cruzeirinho, em Pirituba, Morro Doce e Favela do 16, além de um centro de acolhida para mulheres transexuais. Em uma das iniciativas, o departamento social também conseguiu uma vaga em uma clínica para uma pessoa em situação de rua que buscava ajuda para deixar o uso de drogas.

A diferença está justamente aí: a atuação social não se resume à entrega de uma cesta básica. A estrutura de uma torcida pode funcionar como uma rede capaz de identificar demandas, mobilizar voluntários, arrecadar recursos e estabelecer contato com diferentes territórios.

Na Gaviões, por exemplo, a própria organização informa possuir uma sede social e 11 subsedes, além de 131 mil associados registrados em dezembro de 2023. Sua estrutura também se estende para o Carnaval: criada originalmente como bloco carnavalesco, a Gaviões tornou-se escola de samba e conquistou quatro títulos no Carnaval de São Paulo. A própria torcida apresenta entre seus elementos de identidade os projetos sociais, a formação política, o lazer e a cultura.

Essa relação entre futebol, cultura e organização popular não é recente. Pesquisadores que estudam a história das torcidas organizadas e das escolas de samba apontam que ambas se desenvolveram como espaços de auto-organização e expressão coletiva de setores populares, especialmente entre populações negras, pobres e periféricas. Esses espaços também possibilitaram a construção de redes de apoio e solidariedade.

É por isso que a quadra de uma torcida pode representar muito mais do que um lugar para assistir aos jogos ou confeccionar materiais de arquibancada. Um levantamento publicado pelo Brasil de Fato em 2025 sobre torcidas organizadas que também funcionam como escolas de samba mostra uma agenda que inclui aulas gratuitas de boxe, muay thai, capoeira, futsal, percussão e dança. Há ainda iniciativas voltadas à educação, como cursinhos populares pré-vestibular, além de festas comunitárias, atividades no Dia das Crianças, Natal solidário e eventos ligados ao Dia da Consciência Negra.

Em alguns casos, a educação aparece como uma frente própria de atuação. Em Florianópolis, a Torcida Organizada Gaviões Alvinegros, ligada ao Figueirense, iniciou em junho de 2026 um cursinho popular gratuito voltado a estudantes da rede pública que se preparavam para o Enem. Mais de 40 estudantes se inscreveram e as aulas passaram a ocorrer na própria sede da torcida.

O espaço também pode ser utilizado para criar novas formas de participação no próprio futebol. Em 2022, torcedores corintianos criaram os Autistas Alvinegros, iniciativa voltada à inclusão de pessoas com transtorno do espectro autista nos estádios. A experiência inspirou a criação dos Autistas Rubro-Negros, do Flamengo. As duas iniciativas passaram a aproximar torcedores autistas e suas famílias do ambiente das arquibancadas e a discutir condições de acessibilidade e acolhimento nos jogos.

O movimento ganhou dimensão suficiente para que outras torcidas também criassem grupos semelhantes. A Prefeitura de São Paulo registrou posteriormente o surgimento de iniciativas como os Autistas Alviverdes, ligados ao Palmeiras, e o Sou Tricolor Autista, do São Paulo, mostrando como a experiência de uma torcida pode estimular outras formas de inclusão dentro do futebol.

As redes construídas pelas organizadas também podem ser ativadas em momentos que ultrapassam os limites de suas próprias comunidades. Foi o que aconteceu durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Em Brasília, torcidas rivais se uniram para arrecadar donativos. Em 14 de maio, representantes do Consulado do Grêmio, Colorados de Brasília, Gaviões da Fiel e Mancha Verde entregaram mais de duas toneladas de doações no posto de arrecadação da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Entre os itens estavam água, alimentos, kits de higiene, roupas de cama, roupas íntimas, agasalhos e calçados. Segundo a CLDF, os donativos haviam sido arrecadados pelas torcidas em uma mobilização que também envolveu a comunidade.

A mobilização também ocorreu dentro do próprio Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, a quadra da escola de samba Fidalgos e Aristocratas se transformou em ponto de arrecadação e distribuição de donativos para abrigos. Torcidas organizadas como Super FICO, Nação Independente, FFC, Guarda Popular e Camisa 12 participaram da operação. Em um único dia, foram distribuídas mais de duas mil marmitas, além de 300 cestas básicas, 2 mil kits de higiene, 1,5 mil kits de fraldas, roupas, cobertores e outros produtos.

Em Pernambuco, a rivalidade entre as três principais torcidas organizadas locais também deu lugar à solidariedade. Torcida Jovem do Leão, Explosão Coral e TJF Náutico Até Morrer utilizaram suas próprias redes para convocar torcedores a arrecadar doações para os desalojados pelas enchentes no Sul.

O episódio revela uma característica importante dessas organizações: as rivalidades não impedem necessariamente que existam redes de cooperação entre torcedores de clubes diferentes. Um estudo publicado pela UFMG em 2025 destaca justamente que as relações entre torcidas organizadas são formadas por redes de amizade e apoio que também são acionadas em campanhas de solidariedade. A pesquisa cita a mobilização provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul como um exemplo dessa capacidade de articulação.

Mas a atuação social também pode assumir uma dimensão política. A história de algumas torcidas organizadas brasileiras está ligada à participação em debates sobre democracia, direitos e questões sociais. A Gaviões da Fiel, por exemplo, mantém há décadas uma relação com movimentos sociais e já participou de mobilizações políticas para além do futebol. Em 2024, uma pesquisa etnográfica acompanhou uma atividade que marcou os 21 anos de aproximação entre a torcida e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destacando a articulação entre futebol, movimentos sociais e mobilização política.

Uma dissertação de mestrado da Universidade de São Paulo também encontrou relatos de integrantes de torcidas que associam a experiência nesses grupos à formação acadêmica e política. O estudo registra casos de incentivo à formação universitária entre membros da Mancha Verde e processos de formação política dentro dos Gaviões da Fiel, incluindo aproximações com movimentos sociais como MST.

Nesse sentido, a torcida organizada pode funcionar como uma espécie de escola informal de sociabilidade. O jovem que chega por causa do futebol encontra uma rede de relações, atividades, debates, lazer e, em alguns casos, oportunidades que ultrapassam o esporte.

É justamente essa dimensão que os pesquisadores vêm tentando compreender. Um estudo publicado na revista Ponto Urbe, da Universidade de São Paulo, definiu as ações de torcidas organizadas durante a pandemia a partir da ideia de “redes populares de proteção”. A pesquisa de Luiz Henrique de Toledo e Roberto de Alencar Pereira de Souza Junior analisa como as relações construídas dentro das torcidas puderam ser mobilizadas para responder a situações de vulnerabilidade e sofrimento social.

A lógica é relativamente simples: uma torcida já possui aquilo que muitas iniciativas comunitárias precisam construir do zero: pessoas conectadas, lideranças, espaços físicos, canais de comunicação, recursos compartilhados e uma identidade capaz de gerar pertencimento. Quando essa estrutura é direcionada para uma campanha social, a capacidade de mobilização pode ser muito maior do que a de um indivíduo atuando sozinho. Mas existe uma diferença fundamental entre uma rede de solidariedade e uma política pública.

A Lei Orgânica da Assistência Social estabelece a assistência social como direito do cidadão e dever do Estado. É o poder público, por meio do Sistema Único de Assistência Social, que deve garantir uma rede permanente de proteção a pessoas em situação de vulnerabilidade. As iniciativas das torcidas não substituem essa estrutura. Elas revelam, porém, algo sobre os territórios onde atuam: existem necessidades que mobilizam moradores, associações, movimentos sociais, igrejas, clubes e torcidas porque não podem esperar por uma solução de longo prazo.

Durante a pandemia, essa realidade ficou especialmente evidente. A reportagem da National Geographic registrou integrantes da Gaviões afirmando que o poder público não estava chegando a determinadas comunidades e que a torcida havia decidido manter suas ações porque as necessidades continuavam. A organização, naquele período, passou a funcionar todos os finais de semana, utilizando exclusivamente doações e recursos dos próprios torcedores.

Isso não significa que uma torcida organizada possa resolver problemas estruturais de pobreza, acesso à educação, saúde ou segurança alimentar. Uma campanha de doação é limitada diante de desigualdades que exigem políticas permanentes, mas também não significa que essas ações sejam irrelevantes. Para uma criança que participa gratuitamente de uma aula de esporte ou dança, para um estudante que encontra um cursinho pré-vestibular, para uma família atingida por um desastre natural ou para uma pessoa autista que consegue frequentar um estádio com mais segurança, a existência daquela rede pode representar uma diferença concreta.

A atuação social das torcidas, portanto, não cabe apenas na lógica da caridade. Em muitos casos, ela passa por pertencimento, cultura, educação, lazer, inclusão, mobilização política e organização comunitária. Isso ajuda a explicar por que reduzir esses grupos aos episódios de violência produz uma visão incompleta. A violência existe e precisa ser enfrentada. Mas ela não explica, sozinha, por que milhares de pessoas se organizam em torno de uma torcida, mantêm sedes e subsedes, criam atividades culturais, formam redes de solidariedade e participam de mobilizações que ultrapassam o futebol.

No fim, talvez a pergunta não seja apenas o que as torcidas organizadas são capazes de fazer pela sociedade, mas por que tantas vezes é preciso que elas façam. Quando uma torcida trabalha pela sua comunidade suprindo necessidades sociais, ela demonstra a força da organização comunitária, mas também evidencia uma contradição: aquilo que nasce da solidariedade de torcedores não deveria depender apenas da solidariedade para existir.

Torcida organizada não é política pública, não deveria ser responsável por garantir alimentação, educação, esporte, cultura ou assistência social. Quando essas organizações precisam ocupar esses espaços para responder a necessidades básicas de uma comunidade, a pergunta deixa de ser somente sobre o que elas fazem e passa a ser sobre o que o Estado deixou de fazer.

A solidariedade pode preencher uma emergência, pode criar redes, oferecer apoio e transformar vidas, mas não deveria ser obrigada a substituir direitos. Talvez a questão mais incômoda, então, não seja se uma torcida organizada é boa ou ruim, nem apenas o que uma estrutura construída para torcer por um clube consegue fazer quando olha para além do estádio. É perguntar por que, em tantos lugares, uma organização formada por torcedores consegue chegar onde o poder público deveria estar.

Se uma torcida consegue cuidar de uma comunidade, oferecer oportunidades, mobilizar pessoas em uma tragédia e criar espaços de pertencimento, talvez seja hora de perguntar não apenas quem cuida da comunidade, mas por que o Estado não está cuidando dela.



Por Midia Ninja

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