Antropóloga travesti, Pisci Bruja defende na AIDS 2026 o papel das comunidades na ciência do HIV

Portal Inhaí
7 Min Read

Muito antes da cerimônia oficial de abertura da 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), uma reflexão ganhou espaço em um dos ambientes mais concorridos do evento. Na sala 204 do Riocentro, no Rio de Janeiro, pesquisadores, profissionais da saúde, ativistas e representantes de organizações comunitárias de diferentes países participaram da pré-conferência Towards an HIV Cure, dedicada aos avanços científicos na busca pela cura do HIV.

Tradicionalmente marcado por apresentações técnicas sobre terapias inovadoras, reservatórios virais, edição genética e resultados de ensaios clínicos, o encontro teve um momento que deslocou o foco da discussão: a ciência deixou de olhar apenas para o vírus e voltou sua atenção para as pessoas que convivem diariamente com a epidemia.

A mudança de perspectiva foi conduzida pela pesquisadora brasileira Pisci Bruja Garcia de Oliveira, durante a palestra Introduction to Community Aspects of HIV Cure. Antropóloga, doutoranda da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), educadora comunitária do Centro de Referência e Treinamento em IST/AIDS (CRT-SP), travesti e pessoa vivendo com HIV, Pisci propôs que o debate sobre a cura do HIV comece não apenas nos laboratórios, mas também nas vivências das comunidades afetadas.

“Quando falamos sobre cura do HIV, normalmente começamos pela ciência biomédica. Mas hoje eu gostaria de começar em outro lugar. Gostaria de perguntar: como as comunidades brasileiras imaginaram a cura do HIV?”, questionou.

Ao longo da apresentação, a pesquisadora reconheceu os avanços expressivos alcançados pela medicina nas últimas décadas. A terapia antirretroviral transformou o HIV de uma doença fatal em uma condição crônica controlável, enquanto casos raros de cura e novas estratégias terapêuticas renovaram o otimismo da comunidade científica.

Entretanto, Pisci chamou atenção para uma questão que, segundo ela, permanece pouco explorada: o que significa, de fato, estar curado?

Para a pesquisadora, eliminar completamente o vírus do organismo representa uma conquista científica histórica, mas não é suficiente para apagar os impactos sociais acumulados por mais de quatro décadas de epidemia. Pessoas vivendo com HIV ainda enfrentam estigma, discriminação, racismo, transfobia, violência institucional e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

Segundo ela, pensar em cura exige considerar também essas dimensões sociais, históricas e políticas.

Durante a palestra, Pisci recuperou a obra O Dia da Cura, escrita por Herbert de Souza, o Betinho, em 1992, quando ainda não existiam tratamentos eficazes contra o HIV. Na crônica, a descoberta da cura não representa apenas o fim da doença, mas o início de uma nova etapa de vida, marcada pela reconstrução de projetos e pela possibilidade de voltar a imaginar o futuro.

Essa perspectiva, explicou a pesquisadora, amplia o conceito de cura, que deixa de ser compreendido exclusivamente como um resultado biomédico e passa a incorporar a recuperação da dignidade, do cuidado e da autonomia das pessoas afetadas pela epidemia.

Outro eixo central da apresentação foi o papel das comunidades na produção do conhecimento científico. Pisci criticou modelos de pesquisa nos quais pessoas vivendo com HIV são convidadas apenas para responder questionários, participar de grupos focais ou integrar estudos já estruturados pelos pesquisadores.

Para ela, esse modelo precisa evoluir.

“As comunidades não devem ser apenas participantes das pesquisas. Devem ajudar a formular as perguntas, definir prioridades e construir as respostas”, defendeu.

A proposta dialoga com pesquisas apresentadas durante a conferência que indicam elevado interesse da população em participar de estudos sobre a cura do HIV, desde que essas iniciativas sejam baseadas em confiança, transparência e diálogo permanente.

Como exemplo de uma abordagem diferente, Pisci apresentou uma experiência desenvolvida em São Paulo voltada ao engajamento comunitário em pesquisas sobre cura do HIV. Em vez de iniciar o projeto com recrutamento de participantes ou aplicação de questionários, a equipe priorizou a construção de vínculos com lideranças comunitárias e organizações LGBTQIA+, promovendo rodas de conversa, oficinas, atividades esportivas e espaços de convivência.

Somente após esse processo foram iniciadas as discussões sobre percepção da cura e participação em pesquisas científicas.

Segundo a pesquisadora, produzir ciência também significa reconhecer que o conhecimento não nasce exclusivamente nas universidades e laboratórios, mas também nas experiências acumuladas pelas comunidades ao longo da história da epidemia.

A apresentação também aproximou ciência e produção cultural. Pisci destacou obras de artistas brasileiros vivendo com HIV que abordam temas como memória, sofrimento, esperança e futuro, mostrando que manifestações artísticas também produzem conhecimento sobre a epidemia e revelam aspectos que dificilmente seriam captados apenas por indicadores biomédicos.

Ao defender que “a cura deve tornar-se um processo, e não apenas um produto”, a pesquisadora sintetizou a principal mensagem da manhã: uma eventual cura do HIV não poderá ser medida apenas pela ausência do vírus no organismo, mas também pela capacidade de enfrentar desigualdades, reduzir o estigma, ampliar o acesso aos serviços de saúde e garantir a participação efetiva das populações historicamente marginalizadas na construção das políticas e pesquisas.

Nos momentos finais da palestra, Pisci homenageou Brenda Lee, referência no acolhimento de pessoas vivendo com HIV durante os anos mais críticos da epidemia no Brasil. Ao lembrar sua trajetória, destacou que as comunidades sempre produziram cuidado, solidariedade e inovação muito antes de receberem reconhecimento institucional.

A apresentação foi encerrada sob aplausos de pé do público presente.

Mais do que reconhecer a qualidade da exposição, a reação do auditório refletiu o impacto da principal provocação lançada durante a conferência: por décadas, comunidades foram chamadas a participar da ciência. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que elas sempre fizeram parte de sua construção.

Naquela manhã, a maior inovação apresentada na sala 204 do Riocentro não veio de uma molécula, de um gráfico ou de um novo protocolo experimental.

Veio da lembrança de que a ciência avança de forma mais completa quando incorpora a experiência daqueles que convivem diariamente com os desafios que busca transformar.

Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *