Por Mateus Felipe Silva
Rafhael Barbosa vive um dos melhores momentos da carreira. Neste mês de junho, seu primeiro longa-metragem de ficção, “Olhe Para Mim”, estreou na 15ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba, e saiu com três prêmios da Mostra Competitiva Brasileira, entre eles o de Melhor Direção. O reconhecimento confirma uma trajetória construída inteiramente a partir de Alagoas e dedicada à negritude, à cultura popular do sertão e às histórias que o cinema brasileiro raramente conta.
Uma infância marcada pelos filmes de terror
Nascido em Arapiraca, a cerca de 120 quilômetros de Maceió, Rafhael cresceu em uma casa simples, filho de um policial militar e de uma costureira. Desde cedo, desenhava e criava tirinhas com vontade de contar histórias e de mostrá-las para a família e os amigos. O cinema chegou por um caminho inesperado, quando o pai parcelou um videocassete no crediário para exibir a fita do trote do filho mais velho, recém-aprovado para oficial da polícia.
Antes mesmo desse acesso, ele já tinha uma relação intensa com o medo.
“Eu era uma criança muito medrosa, tinha muito medo de assombração […] Como não me deixavam ver filmes de terror, eu via só as chamadas na televisão, e o fato de não assistir alimentava a minha imaginação.”
Quando finalmente viu os clássicos do terror, como franquias de slasher e gore, o efeito foi o oposto do esperado. Diante dos efeitos especiais toscos, como ele brinca, o medo deu lugar à curiosidade técnica, e o audiovisual virou obsessão. Na época, sem salas de cinema na cidade e tendo que viajar até a capital para ver filmes na tela grande, ele passou a “morar” na locadora.
“Eu conseguia ver pelos catálogos o dia que o correio ia entregar a fita e eu ia para lá, ficava esperando e eu era o primeiro”, relembra.
Do jornalismo ao primeiro documentário
Alagoas não tinha, e ainda não tem, escola de cinema. Sem condições de estudar fora, Barbosa escolheu o jornalismo, lendo e escrevendo crítica de cinema e cobrindo festivais. O primeiro documentário veio em 2007, como trabalho de conclusão de curso. “Chimarrão, Rapadura e Outras Histórias” acompanhou o retorno do músico Hermeto Pascoal à cidade natal, Lagoa da Canoa.
“Foi um registro que foi legal, mas muito precário, porque eu nunca tinha estado num set, eu não sabia dirigir, eu não sabia filmar. Mas eu tinha que começar de alguma maneira”, afirma.
Com recursos do Prêmio de Incentivo à Produção Audiovisual de Alagoas, ele dirigiu dois curtas de ficção no início da década de 2010, “Km 58” (2011) e “O que Lembro, Tenho”(2012), sobre uma idosa que convive com Alzheimer. “O que Lembro, Tenho” foi amplamente premiado, com reconhecimento no Cine Ceará, no Comunicurtas, no Festival de Triunfo e no Curta Coremas, além de exibições em festivais no Brasil e no exterior.
Em seguida, o diretor deu uma pausa na direção e passou anos atuando como assistente de direção e produtor, função que mantém até hoje. Foram mais de cinquenta filmes, que lhe deram domínio de roteiro, produção e montagem.
“Eu entendi que não queria fazer outro filme que não tivesse, de fato, algo a dizer.”

A decisão de ficar em Alagoas
Como relata, por muito tempo, quem queria fazer cinema em Alagoas precisava partir para São Paulo, Rio de Janeiro ou para fora do país. E Rafhael tentou. Depois do sucesso do curta de 2012, passou alguns meses em São Paulo, onde recomeçou do zero, até ser contratado por uma produtora carioca para pesquisar um longa-metragem no sertão alagoano. O mês de pesquisa mudou seus planos.
“Não faz sentido voltar para São Paulo. Eu não me conecto com as coisas de lá. Meu coração está aqui, e as histórias que eu quero contar estão aqui”, lembra ter pensado na época.
E assim fez. Cancelou a passagem e ficou. A decisão, tomada em 2014, definiu tudo o que veio depois.
“Cavalo” e o encontro com a ancestralidade negra
O contato de Barbosa com as religiões de matriz africana começou pelo trabalho, ao produzir o documentário “Exu, Além do Bem e do Mal” (2012), dirigido por seu parceiro de longa data Werner Salles. A pesquisa o levou a terreiros de Alagoas e Pernambuco.
“Foi um choque cultural forte, porque a gente vem de uma formação judaico-cristã, que injeta em nós um preconceito em relação a essas coisas. Quando eu pude ver de perto, isso me mexeu de uma forma muito sensível. Eu entendi muito sobre a formação do Brasil, sobre a minha formação, sobre o que eu sou enquanto pessoa e sobre o meu lugar no mundo”, conta.
Essa experiência resultou em “Cavalo” (2020), palavra que, nas religiões afro-diaspóricas, nomeia quem recebe as entidades. O longa documental foi codirigido com Werner Salles, sendo o primeiro filme alagoano realizado por meio de edital público. Híbrido entre documentário, ficção e experimentação, acompanha sete jovens dançarinos que mergulham em suas ancestralidades, com o corpo no centro da narrativa.
Estreado na Mostra de Tiradentes em 2020 e lançado nos cinemas em 2021, o filme mostra os terreiros como espaços de acolhimento e resistência, que historicamente recebem quem é marginalizado em outros lugares, inclusive a população LGBTQIAPN+.
“Olhe Para Mim” e o horror queer no sertão
Se “Cavalo” foi descoberta, “Olhe Para Mim” (2026) é a consagração. O longa de ficção também é um híbrido de vários gêneros narrativos que resultam no que o diretor chama de “fantasia alegórica” e acompanha Marcelo (Ulisses Arthur), que ainda lida com o desaparecimento da mãe dez anos antes. Ao encontrar dois viajantes misteriosos, Sandra (Rejane Faria) e Ivan (Luciano Pedro Jr.), ele parte em uma jornada que o aproxima da fronteira entre vivos e mortos. No Olhar de Cinema deste ano, venceu Melhor Direção, Melhor Som, com Lucas Coelho, e Melhor Direção de Arte, com Nina Magalhães.

“Foram dez anos de luta para conseguir fazer esse filme, que é o primeiro longa de ficção feito aqui em Alagoas”, afirma o diretor.
Questionado se o cruzamento entre horror e vivência queer foi deliberado, Barbosa foi direto.
“É um filme com muitos elementos. Ele é um filme de terror, é um road movie, é um filme queer, é um filme negro. Mas eu não busquei pensar a partir desse lugar, eu estava apaixonado pela história que eu queria contar”, afirma.
No roteiro, o personagem Ivan é um artista que sonha e desenha o que sonha. Esses sonhos funcionam como um guia da viagem, e ele passa a ter presságios, em uma relação com o mito popular da rasga-mortalha, em que o canto dessa ave é um presságio de morte.
Essa lógica saiu da ficção e entrou na produção. A pedido do preparador de elenco, Flávio Rabelo, o elenco e parte da equipe receberam um caderno, um diário de sonhos. Ao acordar, antes de qualquer outra coisa, cada um anotava ou desenhava o que tinha sonhado. O material era levado aos encontros de preparação, e muitas dessas imagens viraram cenas e diálogos, a ponto de o roteiro ser alterado para incorporar o que surgia ali.
“Utopia”, a aposta na animação afrofuturista
O próximo desafio é “Utopia”, primeiro longa-metragem de animação produzido em Alagoas, ainda em produção e previsto para 2027. Escrito com Werner Salles e feito sobretudo em animação 2D de recortes, o filme se passa em 1695 e acompanha Dandalunda, que, guiada por sua espiritualidade, lidera um grupo de pessoas escravizadas em fuga rumo ao quilombo Angola Janga, nome dado pelos moradores ao Quilombo dos Palmares. O tema acompanha o diretor há anos, já que Alagoas foi o território do quilombo, e ele optou pela animação pela liberdade de fabulação que ela permite. A história não é uma adaptação nem reconta a versão oficial de Palmares. É uma trama original, com personagens fictícios, ambientada nesse universo.
Realizado pela produtora do diretor, a La Ursa Cinematográfica, com recursos públicos e selecionado para o Ventana Sur Animation!, em Buenos Aires, o projeto parte de uma perspectiva afrofuturista e resume uma escolha que orienta toda a obra do diretor.
“É um foco do meu cinema falar sobre negritude a partir das potências. Não só do sofrimento, não só do preconceito, mas também das nossas potências.”
O título vem da ideia, formulada por Fernando Birri e popularizada por Eduardo Galeano, de que a utopia serve para nos manter caminhando. Com a animação, Barbosa fecha um trio que reúne documentário, ficção e animação, e que ele encara de um jeito particular.
“Eu costumo dizer que estou fazendo a minha graduação agora com esses três filmes. Eu não estudei cinema. Quando eu terminar esses três filmes, vou estar formado em cinema”, brinca.
O futuro do cinema alagoano
Rafhael Barbosa enxerga o cinema como profissão e luta coletiva. Segundo menor estado do Brasil, Alagoas durante anos viu seus artistas partirem para trabalhar fora, e o maior desafio segue sendo ocupar um circuito concentrado no Sudeste, onde a produção nordestina ainda precisa provar seu valor.
Porém, o cenário começou a mudar com a chegada de editais para longas-metragens.
“O cinema alagoano que existe hoje atende a um padrão nacional. Quando ele passa, chama atenção pela sua qualidade, pela sua força criativa e artística. E a gente está só começando”, diz.
Ele ainda cobra condições dignas de trabalho e periodicidade nos editais.
“A gente não faz cinema só porque ama cinema, a gente faz cinema enquanto profissão. É uma luta que nunca vai acabar, e não é só nossa, é do cinema nordestino e do cinema brasileiro, que depende de políticas públicas para existir”, conclui.
Sua trajetória mostra que é possível filmar a partir do próprio território, com técnica e compromisso, e que esse resultado nunca é individual. Ele nasce do trabalho de equipes inteiras, de produtoras locais e de uma geração de realizadores que escolheu permanecer em Alagoas e construir um cinema com identidade própria. A potência desse cinema já está provada nas telas e nos festivais, e cresce a cada filme. O que ainda falta é garantir que os incentivos fiscais e os editais alcancem histórias como as que Rafhael busca contar, sobre negritude, ancestralidade e os lugares que o cinema brasileiro ainda pouco representa.

