‘Os Arcos Dourados de Olinda’ transforma memória popular em cinema político

Portal Inhaí
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Por Maria Antônia Diniz

Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles, num pão com gergelim!” Se você foi criança entre a década de 1990 e os anos 2000, com certeza sabe o que essas palavras evocam: “Big Mac, Big Mac!”. No auge do novo milênio, a franquia McDonald’s — ícone do capitalismo — parecia invencível, triunfando até sobre a União Soviética, que via os famosos sanduíches se tornarem sinônimo universal de alegria e popularidade em pleno solo comunista. Na cartilha do capitalismo global, não existia território proibido e nem resistência capaz de frear o avanço do hambúrguer padronizado. Ou quase.

Bem longe de Moscou ou de Washington, no continente conhecido como América, numa cidade pertinho do mar, berço de segredos e revoluções seculares, aquilo que parecia impossível aconteceu. O império teve de recuar e fechou as portas. Há anos, a história que ficou na memória do povo pernambucano é a de que Olinda foi a primeira cidade do mundo a falir um McDonald’s. 

Se é verdade ou não, depende de quem conta. Entretanto, o que para muitos soava como lenda urbana ou mero bairrismo, ganha agora a textura granulada da prova histórica. Em Os Arcos Dourados de Olinda, o diretor estreante Douglas Henrique faz uma arqueologia visual desse ‘frisson’ político, recuperando arquivos que documentam a colisão frontal entre a então maior multinacional do planeta e o nascimento de uma prefeitura com raízes comunistas em pleno Nordeste brasileiro.

Apesar disso, não espere a solenidade enfadonha dos livros de história ou a distância fria de alguns documentários contemplativos. Aqui, o deboche é o método utilizado pelo diretor para fazer o filme pulsar num ritmo frenético que envolve até os espectadores mais improváveis. Trata-se de um cinema de montagem que utiliza a ironia e o bairrismo como meios para desconstruir a aura de invencibilidade dos famosos ‘Arcos Dourados’. Através de cortes rápidos e de uma estética que flerta com o absurdo, o filme transforma o que poderia ser um mero registro administrativo numa espécie de episódio tardio da Guerra Fria, travado entre o asfalto das avenidas e os paralelepípedos do sítio histórico. 

Geografia de um conflito  

No ano de 2000, uma unidade do McDonald’s foi inaugurada em Olinda, na Avenida José Augusto Moreira — uma via que corre discretamente por trás daquele que um dia foi o mais famoso hotel de luxo da cidade, o 4 Rodas. Longe dos cartões-postais e da circulação turística mais óbvia, a região era conhecida como ponto de encontro e refúgio de minorias LGBTQIA+, um espaço de margem, quase um beco simbólico dos que não cabiam nos centros oficiais, algo no mínimo curioso para uma marca construída sob a ideia de padronização. A loja, administrada pela Arcos Dorados Holdings  — maior franquia independente do McDonald’s no mundo — funcionou por um curto período e fechou as portas dois anos depois, gerando a famosa lenda local de ter sido uma das primeiras unidades da rede a “falir” no mundo. 

“Eu achava que era muito interessante agregar uma mesma história que era contada de muitas formas por muita gente diferente. Pessoas que achavam que isso era bom, achavam que era ruim, eram de esquerda, eram de direita, pessoas ricas, pessoas pobres, era a história popular.” É assim que Douglas descreve a motivação para contar essa história, que está longe de ser neutra. 

Essa falta de neutralidade vem de berço. Criado entre as periferias de Olinda e Paulista — cidades da Região Metropolitana do Recife —, Douglas Henrique parte de um território que sentia ser desvalorizado pelo olhar externo, como ele mesmo pontua “eu gostava, mas era desvalorizado”. Ao resgatar a queda do McDonald’s, o diretor não gera apenas uma surpresa cômica, mas a validação de uma vivência suburbana que sempre esteve fora do eixo. 

Logo no início, o filme faz um aviso: “[…] para entender essa história, precisamos começar um pouco antes, traçando o panorama político da disputa pela prefeitura da cidade mais importante do mundo”. Esse ‘panorama’ não é uma mera cronologia eleitoral, mas o palco de uma colisão de mundos. De um lado, Jacilda Urquisa (PMDB), representando a manutenção do status quo e a abertura para a lógica do capital; do outro, Luciana Santos (PCdoB), a figura que encarnava a ‘ameaça vermelha’ ou a esperança de soberania popular, dependendo de quem segurava o panfleto. 

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A condução da narrativa ganha corpo na interpretação telúrica de Giordano Castro. Longe de ser uma voz institucional, o ator pernambucano assume a persona de uma Olinda polifónica, transitando entre o didático, o militante e o habitante comum que assistiu, entre a incredulidade e o riso, à queda dos arcos dourados. “É como se ele estivesse representando ali a voz do popular”, aponta Douglas.  

Mais do que um embate de siglas ou cifras, o que estava em jogo naquela Olinda da virada do milênio era a própria permanência dessa história. Por anos, o fechamento do McDonald’s existiu num estado incerto: lembrado por muitos, mas pouco documentado. Sem imagens que o sustentassem, o episódio sobrevivia em relatos dispersos, em arquivos esquecidos, sempre à beira de se diluir em folclore. Resgatar esses vestígios é uma forma de impedir esse desaparecimento, uma vez que o cinema — ao organizar imagens, vozes e arquivos — oferece um dos meios mais concretos de fazer com que essa memória permaneça e circule. O que está em jogo, portanto, não é apenas um filme sobre memória, mas um filme que só pôde existir a partir de certas condições: formação, acesso e troca. 

Entre o arquivo e a invenção 

Algumas imagens conseguem transportar e provocar sensações. Quando nos damos conta, somos de novo aquela criança de 9 anos encarando o vermelho, o amarelo e o “M” gigante  de um balcão com cartazes que prometem algo difícil de nomear — não exatamente a comida, mas um tipo de realização. “Eu lembro da primeira vez que eu fui ao McDonald’s, a primeira vez que eu comi o sanduíche lá… eu lembro que eu guardei o folhetinho que ficava embaixo da bandeja, que tinha uns desenhos. Eu achava isso muito mágico”. Como o diretor recorda, não era um sentimento isolado. Para quem chega ali pela primeira vez, vindo de outro ritmo, de outro acesso, não é só um “lanche”, é uma pequena conquista, uma sensação de ter chegado a um lugar onde nem sempre se chega.

Fundamentada na nostalgia, a estética do filme foi desenvolvida por meio de uma perspectiva analógica. O intuito era provocar um “sentimento de anos 2000”, uma época de pouca resolução e muita saturação, uma atmosfera que se constrói no encontro entre direção de arte, montagem e uma equipe alinhada com esse imaginário. 

Bastidores de gravação com “O Quartinho”. Foto: Arquivo Pessoal

Sob a chancela da Inferno Produções, o filme é uma engrenagem coletiva afinada: o roteiro de Arnon Segal Hochman desenha a rota, a produção audaciosa de Pedro Ferreira sustenta a estrutura, a arte de Clara Oliveira cria a armadilha visual, o som de Guga S. Rocha e Lázaro Uilgner dita o pulso, e a voz de Giordano Castro encarna a malícia olindense. Douglas Henrique, que acumula as funções de diretor, montador e roteirista principal, orquestra esse time para mostrar que o rigor técnico da universidade pública pode — e deve — subverter a própria indústria que critica. 

A Linguagem Universitária

Não por acaso, Os Arcos Dourados de Olinda nasce no interior da Universidade Federal de Pernambuco. Apesar de ser uma ideia antiga na mente do diretor de 26 anos, foi nesse ambiente que o gesto de vasculhar arquivos, mobilizar acervos e pessoas e transformar a escassez em linguagem ganhou forma. Realizado a partir de uma rede colaborativa típica de uma articulação composta por colegas, professores e profissionais da área, o curta articula, ao mesmo tempo, pesquisa de arquivo, invenção estética, rigor técnico e afeto como etapas de um mesmo processo. É desse interior que o filme emerge, não como exceção, mas como sintoma. 

Esse gesto de transformar a escassez em escolha estética não é um fato isolado, mas a reafirmação de uma linhagem de resistência que atravessa o cinema brasileiro.

Ao adotar o arquivo como matéria-prima, o estreante pernambucano estabelece um diálogo sutil com a “estética da fome” de Glauber Rocha e com a inventividade de Simião Martiniano, atualizando-as para o hoje: se não há orçamento para a perfeição asséptica do capital, faz-se da precariedade a própria linguagem.

Ao circular em festivais, Os Arcos Dourados de Olinda forçou o encontro entre realidades que raramente se tocam. Douglas relata o estranhamento de ver o “pessoal da Globo” e o público de sessões de gala diante de uma obra que utiliza o deboche para narrar a vitória de uma prefeitura comunista no Nordeste.

A passagem bem-sucedida do curta em espaços de legitimação, como o Bogoshorts, o Festival Janela Internacional de Cinema do Recife e o Festival do Rio — onde dividiu tela com blockbusters e produções de alto orçamento — é prova de que a precariedade do cinema universitário, ainda mais o público, pode até beirar o amadorismo técnico por falta de investimento, mas nunca o amadorismo de linguagem. 

Se o cinema de arquivo e a reciclagem de memórias dão o tom do filme, eles são, antes de tudo, o resultado de uma produção que aprendeu a transformar a falta de infraestrutura em linguagem. O reconhecimento técnico de obras como a de Douglas Henrique acontece apesar de um sistema universitário que ainda patina entre equipamentos defasados e um hiato entre a teoria e o mercado. Como o próprio diretor aponta, há um “academicismo” excessivo que muitas vezes ignora o planejamento prático de inserção do realizador no circuito cinematográfico.

Para Douglas, o caminho para além dos muros da UFPE foi pavimentado não apenas pela instituição, mas também por brechas externas e redes de contato, como sua passagem pelo Berlinale Talents. A trajetória recente do curta, marcada por uma recepção atenta da crítica e por uma circulação que encontra eco no público revela, assim, um paradoxo: enquanto a universidade opera em um regime híbrido, são as articulações periféricas e os programas de formação paralelos que acabam abrindo as portas do mundo. 

27º Festival do Rio. Foto: Reprodução
27º Festival do Rio. Foto: Reprodução
Douglas Henrique no Berlinale Talents. Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Divulgação

Recentemente, foi no É Tudo Verdade — principal vitrine do documentário no país e porta de entrada para o Oscar — que o filme encontrou sua consagração mais precisa: levou o prêmio de Melhor Curta-Metragem Brasileiro, além de outros prêmios técnicos, como o Prêmio Canal Brasil de Curtas, o Prêmio Mistika,  Prêmio edt. (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual) de montagem e o Prêmio APACI (Associação Paulista de Cineastas); antes disso, já havia recebido menção honrosa no 27º Festival do Rio  e o prêmio de melhor curta documental internacional no 23º Bogoshorts, na Colômbia. 

Com isso, a vitória técnica de Os Arcos Dourados de Olinda é também um lembrete político de que o cinema produzido dentro da universidade pode alçar voos maiores, mesmo que ainda espere por uma estrutura que não o obrigue a fazer muito com tão pouco. 

Pernambuco, Bairrismo e Oscar 

A visibilidade em torno de Os Arcos Dourados de Olinda indica um cenário em que o cinema feito em Pernambuco já não pede licença para ocupar o centro. Se hoje a atenção se volta para o novo longa de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, é porque filmes como o de Douglas Henrique — e de tantos outros diretores e diretoras que passaram pela universidade — mantém essa engrenagem em movimento, sugerindo que o nosso “bairrismo” é, no fundo, uma forma de soberania visual. Trata-se de uma linhagem que entende o arquivo não como algo morto, mas como combustível para contar as nossas histórias, do nosso jeito. 

Se o filme nasce de um impulso profundamente localizado, ele não se encerra nele. Há, no gesto de assumir o próprio território — suas contradições, seus excessos, sua memória — uma forma de projetar o futuro. O que poderia ser lido como mero bairrismo se revela, aqui, como método: olhar para dentro não como limitação, mas como estratégia de invenção. Ao tensionar arquivo, humor e política, Os Arcos Dourados de Olinda aponta para um cinema que não precisa se neutralizar para circular, nem suavizar suas marcas de origem para ser compreendido. Pelo contrário: é justamente quando insiste nelas que amplia seu alcance. 

O desfecho dessa saga carrega uma ironia que só o autodeclarado “umbigo do mundo” poderia produzir. A cidade que se proclama a mais importante do planeta por direito de brio e história, agora vê no filme que narra a expulsão do maior símbolo ianque de seu território a possibilidade de entrar na rota do Oscar  — praticamente um detalhe, já que “o filme já existe no mundo e a gente marcou um pequeno pontinho na história”, como reconhece Douglas. 

No fim, entre as camadas de um hambúrguer e de memórias reconstruídas, fica a prova de que nem toda receita padronizada dá conta do mundo. A receita do Big Mac era simples, só esqueceram de prever Olinda.



Por Midia Ninja

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