25 de junho de 1995: o dia em que o arco-íris desceu à praia de Copacabana

Ghe Santos
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Kassandra Taylor e seu ônibus rosa chamado Priscilla, na 'Marcha pela Cidadania' no Rio, a primeira Parada Gay do Brasil, em 1995 Imagem: Kassandra Taylor

O mar de Copacabana amanheceu colorido naquele domingo, 25 de junho de 1995. Bandeiras tremulavam ao vento, sorrisos se misturavam à timidez de quem pela primeira vez marchava de peito aberto, sem máscaras. Eram cerca de 3 mil pessoas ocupando a Avenida Atlântica — ainda uma multidão pequena para o tamanho da causa, mas imensa em coragem.

Aquele ato, batizado de Marcha pela Cidadania, entraria para a história como a primeira Parada do Orgulho LGBT do Brasil.

Uma marcha que nasceu da conferência e virou símbolo

O evento foi o encerramento da 17ª Conferência da ILGA (Associação Internacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Trans e Intersex) — um encontro internacional que, pela primeira vez, acontecia na América Latina. O Brasil vivia um momento de abertura democrática recente: a Constituição de 1988 ainda era jovem, e os direitos sexuais e reprodutivos estavam longe de serem garantidos.

No auditório da conferência, entre debates e resoluções, nascia uma ideia: “Vamos às ruas.” A decisão foi simples e revolucionária. E no dia 25 de junho, militantes do Brasil e de mais de 40 países caminharam juntos pela orla de Copacabana, levando para o asfalto a pauta que até então vivia confinada às reuniões, bares e casas noturnas.

Uma bandeira que virou símbolo nacional

Durante a caminhada, uma bandeira arco-íris com 124 metros de comprimento por 10 metros de largura foi estendida sobre a multidão. As fotos mostram o tecido colorido se misturando ao azul do mar e ao brilho do sol carioca — um gesto simples que se transformou em um ícone da luta por direitos no Brasil.

A bandeira havia sido costurada especialmente para o evento, inspirada na que havia sido criada em 1978, em São Francisco (EUA), por Gilbert Baker. No Rio, o gesto era mais do que uma homenagem: era uma declaração de que o orgulho também tinha sotaque brasileiro.

Os rostos e os nomes por trás da história

A marcha foi organizada por grupos que hoje são referência na história do movimento: Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, Atobá, Movimento DELLAS, Grupo Unido Astral, Caras e Coroas, entre outros.

Entre os nomes presentes estavam ativistas como Cláudio Nascimento, Célia Chaim, Toni Reis, João Silvério Trevisan, Marina Reidel, Laerte Coutinho, e tantas outras pessoas que vinham construindo o movimento desde os anos 1980.

As fotos registradas pela fotógrafa Cláudia Ferreira — que hoje integram o acervo Memória dos Movimentos Sociais — revelam uma mistura de timidez e ousadia: travestis de salto alto, lésbicas de mãos dadas, homens com cartazes coloridos e estrangeiros segurando faixas em diferentes idiomas.

O Brasil antes do orgulho

O país ainda era profundamente marcado pelo preconceito. A homossexualidade havia deixado de ser considerada “doença” pela OMS apenas cinco anos antes, em 1990. A AIDS ainda era tratada com pânico moral e associada a castigo. Poucos tinham coragem de se declarar publicamente LGBTQIA+, e a palavra “orgulho” era quase subversiva.

Por isso, a Marcha pela Cidadania teve um peso que ia muito além do número de participantes. Ela representou a saída simbólica do armário coletivo do movimento LGBT brasileiro — uma travessia entre o medo e a visibilidade.

Da praia ao país inteiro

Nos anos seguintes, o exemplo de Copacabana inspirou novas marchas em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Em 1997, a Avenida Paulista recebeu sua primeira Parada do Orgulho LGBT, com cerca de 2 mil pessoas. Duas décadas depois, a mesma avenida se tornaria palco da maior Parada do mundo, com milhões de participantes.

Tchaka em cima do trio na Parada LGBTQIA+ 2024 -Imagem: Alexandre de Melo

Mas tudo começou ali: nas areias do Rio, com uma bandeira costurada à mão e uma multidão que ousou acreditar que o amor podia ocupar as ruas.

Vozes que ecoam

“Naquele dia, senti que não estávamos mais sozinhos. Marchar em Copacabana foi mais do que um protesto — foi um batismo político coletivo.”
Cláudio Nascimento, fundador do Grupo Arco-Íris e um dos organizadores da marcha.

Três décadas depois, a memória daquele domingo ainda emociona quem esteve presente. Em 2025, o movimento LGBTQIA+ celebra 30 anos da Marcha pela Cidadania, reconhecendo aquele dia como o marco zero da visibilidade no Brasil.

O legado do arco-íris

De Copacabana a todo o país, as Paradas do Orgulho se transformaram em espaços de festa, luta e resistência. Tornaram-se o maior movimento social recorrente da América Latina — um verdadeiro espelho do Brasil diverso que insiste em existir com dignidade.

O que nasceu como uma marcha tímida à beira-mar virou um grito que ecoa até hoje, atravessando gerações

“Não abriremos mão de ser quem somos.”

Série especial — “Do Arco-Íris à Praia: 30 Anos de Orgulho no Rio e Brasil”
Pesquisa, Diagramação, Texto e Concepção: Ghe Santos @gheface

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