Entre o melodrama urbano e a cultura de pista, o autoproclamado ‘Príncipe do Mandelão’ desconstrói a vulnerabilidade masculina em um projeto tão visceral quanto pop.
Em um cenário pop onde a vulnerabilidade costuma ser plastificada em baladas radiofônicas genéricas, ZUMBICORE prefere o caminho da provocação crua e sem maquiagem conceitual, ou melhor, com uma maquiagem deliberadamente exagerada. Em Amor Intenso, seu novo trabalho de seis faixas gestado ao longo de um ano entre sessões em grandes estúdios e o circuito underground da Zona Leste de São Paulo, o artista assina uma obra que se recusa a ser discreta.
Logo na capa, ZUMBICORE estabelece as regras do jogo: chora lágrimas brancas em uma clara alusão gráfica aos fluidos corporais e ao ápice da intimidade física. É um manifesto camp, sexy e propositalmente incômodo que usa o choque como porta de entrada para discutir controle, desejo e a exposição do ser humano na sua forma mais crua.
Apoiado na sonoridade sombria e hipnótica do funk bruxaria, o disco funciona como um diário de bordo noturno onde o caos estético é canalizado por uma direção criativa milimetricamente calculada — reforçada por gemidos, marcações e graves sintéticos gravados em estúdio.

A Anatomia do Caos Faixa a Faixa:
01. Oração do Rolê (Intro)
Produção: Du Hita
O álbum abre com uma invocação ritualística que sintetiza a própria essência das noites paulistanas. ZUMBICORE evoca Hecate — a divindade grega das encruzilhadas, das ruas e dos portais —, cruzando o misticismo ancestral com a cultura hedonista do copão de baile. Servindo como um mantra de proteção antes de cruzar a porta de casa, a intro faz uma transição perfeita e contínua para a faixa seguinte.
02. Perigo Noturno
Produção: DJ Hta Bass / Co-produção: Dj Syncr0
Aqui, o perigo real da cidade dá lugar a uma atmosfera de videogame noturno. Construída sobre frequências graves e graves sintéticos macabros que contrastam com agudos pontiagudos, a produção cria um clima de tensão permanente. O ouvinte é colocado diretamente no centro da pista, prestes a enfrentar o boss da fase, encarnado com maestria pelo próprio artista.
03. Doutorado em Piroca
Produção: Dj Syncro
Irreverente e explicitamente chiclete, a terceira faixa é um ode à liberdade sexual com ganchos pop imediatos. Descrita como a evolução natural de “Putifero Pro Max”, a canção abraça a estética da cultura Ballroom em seus detalhes, entregando um hino de pista feito para conectar o público através da celebração do corpo e do prazer sem tabus.
04. Eu Vou Comer Seu Pai
Produção: Dj Syncro
O ponto de virada dramático do disco. ZUMBICORE pega sentimentos corrosivos como a mágoa e a rejeição e os traduz em uma narrativa de vingança teatral, levada às últimas consequências no teto do exagero lúdico. Com refrão magnético e produção pesada, a faixa é acompanhada por um clipe rodado no mesmo quarto de motel onde a capa do projeto foi concebida, amarrando a experiência audiovisual.
05. Mandrakitty 2 (feat. PAMKA)
Produção: Gorfo de Panda
O momento mais político e marcante do álbum. Reformulada como uma verdadeira exaltação à comunidade trans masculina, a faixa ganha batidas envolventes de vogue beat e os versos afiados do duo PAMKA (Mlk de Mel e Flóki). A assinatura de Gorfo de Panda (nome por trás de trabalhos de Pabllo Vittar) eleva o arranjo, enquanto ZUMBICORE reinterpreta seu próprio clássico para abraçar de vez a linha da frente do seu público.
06. Eu Pego Feio (feat. MC Erikah)
Produção: Dj Syncro
O encerramento do álbum vem em tom de sátira social e celebração hedonista. A faixa mais comercial da coletânea desconstrói a ditadura da beleza e os padrões estéticos vigentes, ironizando as decepções das “pessoas padrão” enquanto exalta a diversidade real das noites brasileiras. Com a participação vibrante de MC Erikah, o disco se despede no topo do funk bruxaria, deixando o eco de uma festa que recusa acabar.

VEREDITO
Mais do que tentar entregar respostas confortáveis, Amor Intenso atira perguntas desconfortáveis na cara do ouvinte. É um projeto provocativo, esteticamente corajoso e visceral que coloca o exagero a serviço da arte, provando que, no tribunal do pop e da cultura de rua, o sentimento verdadeiro sempre fala mais alto.
