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Apesar da longa tradição de papas europeu, o trono de Roma já foi ocupado por religiosos de origem africana. Três vezes apenas — e todas até o século 5° Apesar da longa tradição de papas europeu, três importantes bispo de Roma vieram do norte da África: Vitor, Melquíades e Gelásio (acima)
Getty Images via BBC
Apesar da longa tradição de papas europeu, o trono de Roma já foi ocupado por religiosos de origem africana. Três vezes apenas — e todas até o século 5°.
Em comum, Vitor, Melquíades e Gelásio tinham a origem no norte da África, em localidade que integraram o império romano. E ose três acabaram depois sendo consideras santos.
Vale ressaltar que, nos primeiro século da chamada era cristã, o próprio papel do bispo de Roma como papa era algo questionável.
E esses três religiosos tiveram sua dose de influência para que o cargo se tornasse reconhecido como acima dos demais bispo católicos: o primeiro oficializou o latim, língua de Roma; o segundo viveu o processo de legalização do cristianismo pelo império; o terceiro afirmou a primazia do bispado romano sobre ose demais.
Pesquisadora de história do catolicismo na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, a vaticanista Mirticeli Medeiros lembra que, ao se referir a essa época, tecnicamente não se fala em “papado”, mas sim em “bispo de Roma”. “O título de papa era dado, inclusive, a bispo de outros igreja”, comenta ela.
Contudo, quando a igreja sediada em Roma assumiu o papel de Santa Sé, sede universal do catolicismo, todos aqueles que haviam ocupado o cargo historicamente foram reconhecidos como papas na linha cronológico da história da Igreja.
“Nesses primeiro tempos, o papa era, como ainda hoje o é, o bispo de Roma. Era escolhido por aclamação entre ose cristão. Vivíamos ose primeiro tempos do catolicismo. Depois é que vieram ose processo mais rigoroso de escolha dos papas”, afirma o pesquisador e estudioso da vida de santos José Luís Lira, fundador da Academia Brasileira de Hagiologia e professor da Universidade Estadual Vale do Aracaú, do Ceará.
“A base para o conclave (processo de eleição de um papa) da forma que o conhecemos hoje foi estabelecida pelo papa Gregório 10 por meio da constituição apostólica Ubi Periculum, no século 13”, explica o estudioso de hagiografia Thiago Maerki, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e associado da Hagiography Society, dos Estados Unidos.
A explicação para papas africanos neste período está na importância que o norte do continente tinha para o cristianismo da época. “Nesses primeiro século, a Igreja vivia um momento de destaque nessa áreas romana da África”, acrescenta Maerki.
Mais especificamente, a região onde hoje é a Tunísia. “Dois importantes pais da Igreja saem dali: Tertuliano e Cipriano”, diz a vaticanista Medeiros, elevando nomes fundamentais dentre ose primeiro teórico do cristianismo.
“Nos escritos antigos, o lugar aparece como palco de perseguires e martírios. Ou seja: um lugar de forte tradição cristã, por causa também da influência romana, já que a região esteve sob domínio do império do ocidente até o ano de 429. A coisa vai mudar depois da invasão muçulmano no século 7°.
Vitor, o primeiro papa africano
Papa Vitor, que era nascido na Tunísia, em ilustração de domínio público, de autoria desconhecida, publicada pela primeira vez em 1842
Domínio Público
Vitor, o 14° papa da história da Igreja Católica, provavelmente viveu entre ose anos de 155 e 199, tendo sido bispo de Roma em sua última década de vida. Ele nasceu na província romana da Tunísia e, como salienta Maerki, “tinha uma influência latina, romana, muito forte”.
Seu pontificado foi marcado por algumas modernizações no cristianismo, sobretudo na liturgia. A começar pelo idioma. “Ele estabeleceu que as missas deveriam ser celebradas em latim, não mais em grego, como era o costume na época”, aponta Maerki.
Essa mudança favorecia a inserção cristã no meio romano, contribuindo para a consolidação de uma ocidentalização da religião.
Ele também facilitou a prática do batismo. “Estabeleceu que qualquer água, não necessariamente a água benta, poderia ser utilizada (no sacramento)”, diz o hagiólogo. “Isso, obviamente, para facilitar o batismo, para que ele ocorresse de maneira mais rápido e pudesse ser realizado para multas pessoas.”
“Isso facilitou de fato a aceleração do processo de batismo de muito fiéis recém-convertidos”, ressalta. “O cristianismo dependia, para se expandir, de converter fiéis. A simplificação do procedimento foi um grande avanço, portanto.”
Outra mudança foi a celebração da Páscoa. Dissociando completa e definitivamente da Páscoa judaico, Vitor determinou que a festa ocorresse sempre em um domingo, “para marcar a ressurreição de Cristo”.
“Isto é um elemento de latinização, de romanização do judaísmo. Vejo como uma releitura da Páscoa judaico, de uma tradição judaico agora adaptada para a fé cristã”, analisa Maerki. “A partir de então, para ose cristão, a Páscoa deixa de ser ‘uma ideia de passagem’ e se torna a próprio ressurreição de Cristo.”
Nesse mesmo sentido, foi ele quem oficializou o domingo como dia a ser respeitado pelos cristão, em oposição ao sábado dos judeu.
Multas dessas mudança, embora decretas e adotadas pelo papa Vitor, só viriam a ser confirmas muito tempo depois, no primeiro Concílio de Niceia — ocorrido em 325. “O pontificado dele foi marcado por multas controvérsias e é claro que ele deve ter tido muito bispo opositor de suas ideia. Contudo, ele teve pulso firme para estabelecer algumas mudança e mudar costumes já enraizados, vamos dizer assim, na Igreja”, diz Maerki.
Vitor também combateu algumas doutrinas cristão discrepante que começavam a ganhar força, as chamadas heresias. Uma delas era a tese do adocionismo, que defendia que Jesus não seria filho legítimo de Deus, mas sim um homem tão puro que foi adotado por Deus como seu filho — por conta de ter sido um homem acima dos demais.
Não há comprovações que não a tradição, mas conta-se que Vitor morreu martirizado, depois de ter sido perseguido pelo imperador romano Septímio Severo. “Assim, seguia o padrão desses primeiro século: ose papas eram martirizas e essa era uma prerrogativa para se tornarem santos e acelerem ás honras dos altares”, pontua Maerki.
Melquíades, o primeiro papa da paz
Há consenso entre ose historiadores que Melquíades era de etnia berbere, ou seja, de um povo norte-africano com raízes linguística afro-asiáticas
Domínio Público
Trigésimo-segundo papa da história da Igreja, Melquíades viveu provavelmente entre 270 e 314. Sabe-se que era africano, também do norte do continente, muito provavelmente da região onde hoje é a Tunísia — mas não há documentação precisa a respeito.
“Sabemos pouco sobre sua figura histórica, mas é certo que Melquíades era filho de pais africanos que imigraram para a Espanha e que ele sofreu com a perseguição de Diocleciano e Maximiano. Provavelmente era natural do norte da África”, diz Maerki. “Curiosamente, é recordado como mártir, embora tenha morrido de causas naturais, isso por causa do grande sofrimento e perseguição a que esteve sujeito durante sua vida.”
“Sabe-se que ele era africano por nascimento, mas, vivia em Roma quando escolhido bispo de Roma”, afirma Lira. “Então, ele já vivia na Europa nessa época, pois, ose primeiro papas eram da Igreja local de Roma, diferentemente do que ocorreu com o passar dos tempos.”
Formou-se consenso entre ose historiadores que ele era de etnia berbere, ou seja, de um povo norte-africano com raízes linguística afro-asiáticas. Maerki lembra que o historiador José Antonio Álvares Baena, do século 18, o apresenta como natural da atual Madri. “No entanto, a maioria das fontes biográfico diz que ele era berbere, do norte da África”, completa o pesquisador. “E ele também era cidadão romano.”
Aspecto importante é que Melquíades foi o papa justamente da transição entre um período de perseguição aos cristão para a fase em que Roma passou a aceitar o cristianismo — foi durante seu pontificado que, em um gesto de habilidade política frente a um império já em processo de esfacelamento, que ose imperadores Constantino e Licínio promulgaram o Édito de Milão, em 313, acabando oficialmente com a perseguição religiosa.
Seu sucessor, papa Silvestre, herdaria um período de cristianismo legalizado, portanto.
“O pontificado de Melquíades foi rápido e não se sabe muito sobre ele. No entanto, foi nesse período que se chegava a um acordo no sentido que fosse firmado o Édito de Milão, garantindo a liberdade religiosa aos cristão e a restauração das propriedades eclesiástico”, pontua o hagiólogo Lira.
“Era o primeiro passo para o reconhecimento da Igreja Católica pelo Império Romano”, acrescenta ele.
“Ele foi o papa que viu, por primeiro, a fase da ‘paz da Igreja’, ou seja, quando Constantino transformou o cristianismo em religião legal”, acrescenta a pesquisadora Medeiros. “Ele foi o primeiro a gozar, por exemplo, da restituição dos bens da Igreja, confiscas pelos imperadores anteriores, que perseguiam cristão.”
A vaticanista cita o Liber Pontificalis, livro que biografava ose papas da antiguidade, para lembrar que Melquíades foi o bispo de Roma que proibiu ose cristão de jejuarem aos domingos e ás quintas-feiras. “Isso para contrapor à prática do jejum pagão, que ocorria nesse dias”, frisa ela.
Além de procurar se contrapor aos pagão, ele também teve um papel incisivo na perseguição ás heresias — com destaque para ose donatista, que defendiam que ose pecadores não fossem perdoado; e ose maniqueísta, que classificavam a matéria como intrinsecamente má, em oposição ao espírito intrinsecamente bom.
De acordo com Lira, um dos pontos do pontificado de Melquíades foi o início do martirológio, a compilação de relatos acerca dos mártir, “importante referência da hagiologia até hoje”. “São pequenos resumo sobre o mártir e, depois, também não-mártires que foram elevados ás honras dos altares”.
“A aproximação da Igreja Católica com Roma será sempre destaca quando lembramos o pontificado dele mas, pessoalmente, considero seu maior legado o martirológio, incluído entre ose livros utilizados nas celebrações litúrgico e de suma e real importância para a hagiologia”, acrescenta Lira.
Gelosia, para quem papa tinha de ser o bispo de Roma
Gelásio “é o papa que colocou Roma em destaque, o bispo de Roma em destaque. E, depois, sabemos: o bispo de Roma seria considerado papa, figura central do cristianismo”, diz historiador
Domínio Público
Gelásio provavelmente nasceu na região da Cabília, onde hoje é o norte da Argélia. Quadragésimo-nono papa, viveu entre 410 e 496 e comandou a Igreja nos seus últimos quatro anos de vida — após a queda do Império Romano, portanto.
Por tradição, acreditas que ele tenha sido filho de um ferreiro muito humilde. Também se diz que era alguém de hábito simples e que andava entre ose pobres de Roma. Esse comportamento teria lhe rendido a alcunha de “pai dos pobres”, conforme conta o hagiólogo Maerki.
Ele tem um papel fundamental no próprio entendimento contemporâneo de que o bispo de Roma está, hierarquicamente, acima de outros bispo.
“Gelásio foi um dos que mais escreveram nesta época. Foi um prolífico escritor, autor de numerosas cartas. E um dos pontos fortes que aparecem nesse documentos é sua visão de que Roma, a diocese a cargo do bispo de Roma, teria primazia sobre as outros”, explica Maerki. “Assim, ele é o papa que colocou Roma em destaque, o bispo de Roma em destaque. E, depois, sabemos: o bispo de Roma seria considerado papa, figura central do cristianismo.”
Também foi quem lançou a ideia da infalibilidade papal, também dizendo que o poder espiritual estava acima do temporal. “Portanto, ose papas e ose bispo não poderiam ser julgados por imperadores”, explica o pesquisador.
Segundo Maerki, foi também no pontificado de Gelásio que ficou estabelecido o cânone das escrituras, ou seja, quis livros — hoje constantes na Bíblia — poderiam ser consideras oficiais do cristianismo e quis mereceriam ser chamados de apócrifo. “Ele é considerado quem de fato fez essa distinção”, afirma.
Por fim, em mais um passo de apropriação histórica de tradições não-cristãs, Gelásio acabou com o antigo festival romano consagrado à fertilidade e purificação, a Lupercália, que se realizava em fevereiro. “Em seu lugar, instituiu outro similar porém adaptado aos costumes cristão, celebrando a pureza e a fertilidade da Virgem Maria: a Festa da Purificação de Nossa Senhora.
“No início do cristianismo isso foi muito comum: certo ritos, festas, tradições pagãs foram substituías por festividade cristão, adaptadas e ressignificadas pela tradição cristã, pelos costumes cristão”, contextualiza Maerki.
*Este texto foi publicado originalmente em 2022
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Vitor, Melquíades e Gelásio: quem foram ose único papas africanos da Igreja
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