
O que será que as lésbicas sabem que ninguém mais sabe?
De relacionamentos intensos a uma comunidade que se fortalece mesmo contra todas as expectativas, existe um segredo sobre as mulheres que amam mulheres que pouca gente realmente entende.
Neste artigo, vamos explorar não só os termos que usamos para nos referir a nós mesmas, mas também a força da identidade sapatão, os mitos sobre a duração dos nossos relacionamentos e até os desafios da saúde sexual. Vem comigo descobrir o que está por trás do segredo das lésbicas!
Lésbica, Sapatona e Sáfica: Como se Referir a uma Mulher que se Relaciona com Outra Mulher
A forma como nos referimos a mulheres que se relacionam com outras mulheres não é apenas uma questão de vocabulário, mas também de identidade, pertencimento e até mesmo resistência.
O termo “lésbica” é o mais conhecido e historicamente ligado à visibilidade e luta feminista dentro da comunidade LGBTQIAP+. Já “sapatona” tem uma carga mais popular, muitas vezes usada de forma pejorativa, mas que foi ressignificada como um símbolo de orgulho e força. Por outro lado, “sáfica” é um termo mais recente e inclusivo, abrangendo não apenas lésbicas, mas também mulheres bissexuais e pansexuais que se sentem atraídas e se relacionamento afetivamente e sexualmente com outras mulheres.
A escolha de como se identificar varia de pessoa para pessoa.
Enquanto algumas preferem o clássico “lésbica” pelo seu peso político e histórico, outras se sentem mais conectadas com a rebeldia de “sapatona” ou com a fluidez de “sáfica”.
O mais importante é respeitar como cada uma deseja ser chamada – porque, no fim das contas, não é só sobre palavras, mas sobre reconhecer e valorizar nossa vivência e identidade.
Mas não é só sobre nomes – é sobre força, história e resiliência. A identidade sapatão carrega uma energia única, forjada na resistência e na necessidade de criar laços sólidos na comunidade. Afinal, de onde vem a força da mulher sapatona?
O que é a Tal Força da Sapatona e de Onde Surge
A força sapatona nasce no embate diário contra um mundo que insiste em nos enquadrar em padrões que nunca foram feitos para nós. Desde a infância, somos colocadas à prova: na família, onde muitas vezes enfrentamos a rejeição; na escola, onde o bullying vem disfarçado de “brincadeira”; no trabalho, onde nossa postura firme é vista como agressividade.
Se somos femininas, duvidam da nossa sexualidade. Se somos masculinas, dizem que queremos “ser homens”. A sociedade nos empurra para rótulos que não nos representam e espera que fiquemos caladas. Mas o que acontece? A gente resiste.
Ser sapatona é aprender a se defender cedo, é carregar no corpo e na voz a coragem de existir sem pedir permissão. E essa força não vem só da dor – vem da coletividade.
Criamos redes de apoio, cuidamos umas das outras, e transformamos espaços hostis em lugares onde podemos ser quem somos sem medo. É por isso que, quando uma sapatão entra no ambiente, sua presença se impõe. Não porque queremos provar algo para o mundo, mas porque nossa existência já é um ato de revolução.
Essa intensidade não se limita à forma como existimos no mundo – ela também marca nossos relacionamentos. O famoso ‘lesbian speedrun’ (maratona lésbica) é um clichê bem conhecido, mas será que os relacionamentos entre mulheres realmente acontecem tão rápido assim?
Vamos entender melhor essa dinâmica.
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Quanto Tempo Dura um Relacionamento Lésbico
Se existe um estereótipo famoso sobre casais de mulheres, é o da “maratona lésbica”, também conhecida pelo termo em inglês “U-Haul”.
O conceito vem da ideia de que mulheres que se relacionam entre si criam laços emocionais tão rapidamente que, em poucos encontros, já estão morando juntas.
O nome “U-Haul” faz referência a uma empresa de aluguel de caminhões de mudança, sugerindo que, no segundo date, uma delas já está chegando com as malas. Mas será que essa fama corresponde à realidade?
A verdade é que, em muitos casos, os relacionamentos entre mulheres realmente desenvolvem uma intimidade intensa desde o início. Isso acontece porque, além da atração romântica, afetiva e sexual, há uma forte conexão emocional e um senso de identificação mútua.
Muitas mulheres lésbicas e bissexuais cresceram sem referências de casais como elas e, quando finalmente encontram alguém com quem podem ser completamente autênticas, querem viver essa experiência ao máximo. Conversas profundas, trocas de vulnerabilidades e o sentimento de pertencimento criam um ambiente propício para essa aproximação rápida.
Porém, essa intensidade pode ser uma faca de dois gumes. Sem muitos exemplos de relacionamentos sáficos saudáveis na mídia ou no convívio social, alguns casais podem ter dificuldades para lidar com conflitos, criar limites saudáveis ou manter a individualidade. Isso faz com que algumas relações durem anos, enquanto outras terminam tão rápido quanto começaram.
No fim das contas, não há fórmula mágica – seja um romance intenso e passageiro ou uma parceria de vida, cada casal tem seu próprio ritmo.
Mas não é só na intensidade emocional que os relacionamentos lésbicos desafiam expectativas – a saúde sexual também é um tema cercado de mitos e desinformação. Afinal, como as lésbicas pegam ISTs e por que esse assunto ainda é pouco discutido?
Como as Lésbicas Pegam ISTs (Infecções Sexualmente Transmitidas)
A saúde sexual entre mulheres que se relacionam com mulheres ainda é um tema cercado de desinformação e negligência, tanto pela sociedade quanto pelo próprio sistema de saúde.
Muitas pessoas – incluindo profissionais da área médica – acreditam erroneamente que lésbicas têm risco zero de contrair Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), o que não é verdade.
Essa falsa sensação de segurança pode levar à falta de prevenção e ao diagnóstico tardio de algumas doenças.
Lésbicas podem contrair ISTs – assim como qualquer mulher que se relaciona com mulher como bissexuais e pansexuais. E isso acontece por meio de várias formas de contato íntimo.
O sexo entre mulheres muitas vezes envolve contato pele a pele, troca de fluidos corporais, uso compartilhado de objetos sexuais e até pequenas lesões microscópicas na mucosa genital, que podem ser portas de entrada para vírus e bactérias.
Entre as ISTs que podem ser transmitidas entre mulheres, as mais comuns são:
- HPV (Papilomavírus Humano): uma das ISTs mais frequentes no mundo, o HPV pode ser transmitido pelo contato pele a pele, mesmo sem penetração. Como o sexo lésbico geralmente envolve carícias, sexo oral e uso de dedos ou brinquedos compartilhados, o risco de transmissão existe. O HPV pode causar verrugas genitais e está associado ao câncer de colo do útero, vulva e ânus.
- Herpes Genital: transmitida pelo contato direto com a pele ou mucosa infectada, a herpes pode ser passada por meio de sexo oral, beijos e contato com áreas genitais durante o sexo. Como o vírus pode estar presente mesmo sem sintomas aparentes, muitas pessoas o transmitem sem saber.
- Clamídia e Gonorreia: ambas são causadas por bactérias e podem ser transmitidas através do sexo oral, compartilhamento de brinquedos sexuais sem higienização adequada ou contato entre secreções vaginais e anais.
- Tricomoníase: uma infecção causada por um parasita que pode ser transmitido através do contato direto com secreções vaginais. Embora seja mais comum em relações heterossexuais, também pode afetar mulheres que fazem sexo com mulheres.
- Sífilis: transmitida pelo contato direto com feridas causadas pela infecção, a sífilis pode ser passada por meio do sexo oral ou contato com áreas genitais infectadas.
- HIV: embora o risco de transmissão do HIV entre mulheres seja menor do que em relações heterossexuais ou entre homens cis gays, ele ainda existe. O vírus pode ser transmitido pelo contato com sangue, pequenas fissuras na mucosa vaginal e uso compartilhado de brinquedos sexuais sem proteção adequada.
Agora, um ponto muito importante sobre tudo isso:
Como se Proteger
A prevenção é fundamental para manter a saúde sexual em qualquer tipo de relação, incluindo entre mulheres. Algumas medidas importantes incluem:
- Uso de barreiras de proteção: preservativos internos (também chamados de preservativos femininos) e dental dams (lenços de látex usados para sexo oral) podem reduzir o risco de transmissão de ISTs. Embora não sejam amplamente divulgados ou incentivados, são métodos eficazes.
- Higienização de brinquedos sexuais: brinquedos devem ser higienizados com água e sabão neutro ou produtos específicos antes e depois do uso. Se forem compartilhados entre parceiras, o ideal é usar preservativo nos objetos e trocá-lo entre uma pessoa e outra.
- Vacinação: vacina contra o HPV é uma ferramenta essencial de prevenção e está disponível no SUS para adolescentes e pessoas com até 45 anos em alguns casos. A vacina contra a hepatite B também é recomendada.
- Exames regulares: mulheres lésbicas muitas vezes negligenciam exames ginecológicos por não se sentirem acolhidas em consultórios médicos ou por acreditarem que não estão em risco. No entanto, exames como o Papanicolau (preventivo do câncer de colo do útero) e testes para ISTs são essenciais para a saúde.
- Conversar com quem você se relaciona: falar sobre saúde sexual e histórico de exames é uma parte importante da prevenção. Ainda existe um tabu sobre discutir ISTs, mas estabelecer esse diálogo pode evitar problemas futuros.
A Falta de Informação e Atendimento Adequado
Infelizmente, a desinformação sobre a saúde sexual de mulheres sáficas também se reflete no atendimento médico. Muitas lésbicas relatam que, ao procurar ginecologistas, são questionadas sobre métodos contraceptivos ou ouvem que “não precisam se preocupar com ISTs porque não transam com homens”. Esse desconhecimento pode levar à falta de diagnóstico e prevenção, colocando essas mulheres em risco desnecessário.
Além disso, a ausência de campanhas de conscientização voltadas para mulheres que fazem sexo com mulheres reforça a falsa sensação de segurança.
A realidade é que toda forma de contato sexual pode envolver riscos, e é essencial que mulheres lésbicas e bissexuais tenham acesso a informações e cuidados adequados.
A saúde sexual lésbica não pode continuar sendo tratada como um tema invisível. Embora o risco de algumas ISTs possa ser menor do que em outros tipos de relação, ele ainda existe e deve ser levado a sério.
A prevenção passa por informação, exames regulares e uso de métodos de proteção. Afinal, o segredo das lésbicas não é só a intensidade dos relacionamentos ou a força da comunidade – também deve ser o cuidado com a própria saúde.