Todo corpo tem direito ao cuidado, mas saúde sexual ainda esbarra em desigualdade e estigma

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

Falar de saúde sexual é falar de prazer. Não é apenas falar de infecções. É conhecer o próprio corpo, perceber quando alguma coisa muda, conversar sobre sexo sem tabu e conseguir procurar atendimento sem medo de julgamento.

É esse olhar mais amplo que marca o Dia Mundial da Saúde Sexual, celebrado em 4 de setembro. Em 2026, a World Association for Sexual Health (WAS) escolheu como tema “Every Body” (Todo corpo, em tradução livre), expressão que remete ao mesmo tempo a todas as pessoas e a todos os corpos. A WAS é uma organização sem fins lucrativos que reúne profissionais, pesquisadores, educadores e ativistas da sexologia e foi fundada em 1978.

A proposta é posicionar que saúde sexual envolve prazer, intimidade, autoestima, bem-estar e as mudanças que acompanham diferentes momentos da vida, mesmo que nem todo mundo ainda consiga acessar informação, prevenção e cuidado nas mesmas condições.

Para o infectologista Dr. Álvaro Furtado Costa, saúde sexual deveria fazer parte da rotina como qualquer outro acompanhamento médico:“Você não faz exame de sangue? Você não vai ao médico, faz check-up? A saúde sexual também implica um tipo de investimento que você faz na sua vida.”

Álvaro é presidente do Comitê de IST da Sociedade Brasileira de Infectologia, diretor da Sociedade Paulista de Infectologia, médico do Centro de Referência e Treinamento IST/Aids de São Paulo e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Segundo ele, esse cuidado começa por algo simples: olhar para o próprio corpo.“Se aparecer alguma lesão, alguma ferida, algum corrimento, alguma mudança nos seus genitais, procure um profissional de saúde”, recomenda.

Na prática, porém, vergonha e estigma ainda afastam pessoas dos serviços.

“Às vezes o que a gente vê no dia a dia são pessoas que têm vergonha de olhar para o seu genital, de olhar a lesão, de procurar. Têm medo de ser estigmatizadas quando chegam nos serviços”, conta.

Esse atraso pode ter consequências importantes. Infecções não diagnosticadas podem evoluir, e algumas delas estão associadas a problemas mais graves. O HPV, por exemplo, está relacionado a diferentes tipos de câncer. Algumas ISTs também podem afetar a saúde reprodutiva de pessoas com útero, quando não são diagnosticadas e tratadas.

Para quem tem vida sexual ativa, Álvaro defende uma rotina de testagem e uma conversa aberta sobre práticas sexuais.“O quanto você consegue usar camisinha 100% das vezes? Quais são suas práticas sexuais? Como você se expõe?”, questiona.

Hoje, a prevenção não significa apenas preservativo. Existem estratégias como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), medicamento utilizado antes de possíveis exposições para prevenir o HIV, e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), indicada depois de uma situação de vulnerabilidade ao vírus. Vacinação contra HPV e hepatites, uso de lubrificantes e testagem periódica também fazem parte da chamada prevenção combinada: diferentes ferramentas que podem ser escolhidas de acordo com a realidade de cada pessoa.

“Hoje eu tenho na medicina um avanço estratosférico, gigantesco, de estratégias de prevenção que a gente não tinha há 10, 15 anos atrás”, pontua o infectologista. 

O problema é que esse avanço não chega igualmente a todos. “As pessoas que têm mais acesso à informação, que têm acesso aos serviços de saúde de uma forma mais ampla, são melhores aconselhadas com relação à saúde sexual”, destaca.

É o que a saúde pública chama de determinantes sociais da saúde: fatores como renda, território, escolaridade, gênero e acesso aos serviços que influenciam diretamente as possibilidades de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Para mulheres cis, pessoas LGBTQIAPN+ e populações que historicamente enfrentam mais barreiras no sistema de saúde, não basta existir um medicamento, uma vacina ou um exame. É preciso conseguir chegar ao serviço e encontrar profissionais preparados para acolher diferentes corpos, identidades e práticas sem julgamento.

“Como a gente consegue atingir essa parcela da população que não consegue acessar os serviços de saúde? Com comunicação, falando sobre saúde sexual dentro das mídias”, afirma o médico.

O silêncio também aparece dentro das famílias e das escolas.

“A gente não consegue falar sobre saúde sexual nas escolas. Existe uma restrição muito grande de falar sobre sexo, sobre IST, como se a gente fosse estimular as pessoas a ter vida sexual”, disse.

Álvaro cita a vacinação contra o HPV como exemplo. Algumas famílias ainda associam a imunização de adolescentes ao estímulo à atividade sexual, apesar de a vacina ser uma importante ferramenta de prevenção contra tipos do vírus relacionados a cânceres.

Para a população LGBT+, a discussão exige ainda romper com uma lógica que durante muito tempo associou seus corpos quase exclusivamente a “risco” e doença. Saúde sexual também é prazer, consentimento, intimidade, autoestima e o direito de ser atendido sem que orientação sexual ou identidade de gênero se tornem motivo de constrangimento.

Álvaro propõe uma pergunta que parece simples, mas diz muito sobre essa relação com os serviços de saúde: “Quantas vezes eu falei com um profissional de saúde sobre a minha vida sexual? Quantas vezes eu recebi algum tipo de aconselhamento sobre isso? Se você não falar, às vezes o profissional não vai falar”, afirma.

Talvez esteja aí uma das principais barreiras. Ciência e prevenção avançaram, mas conversar sobre sexo ainda é difícil em muitos consultórios, escolas e famílias.

“A gente só conversa sobre saúde sexual em dias específicos. Mas isso não tem que ter um dia específico para conversar. Tem que conversar sempre.”

Essa dificuldade de falar sobre saúde sexual também aparece de forma diferente entre homens e mulheres. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia, com dados do Ministério da Saúde, mostrou que, entre adolescentes de 12 a 18 anos, os atendimentos de meninos por urologistas foram 18 vezes menores que os de meninas por ginecologistas.

Parte dessa diferença passa pela forma como o cuidado é ensinado desde cedo: meninas costumam ser levadas mais cedo ao sistema de saúde por questões ligadas à menstruação, contracepção e reprodução, enquanto muitos meninos crescem sem o mesmo espaço para conversar sobre o próprio corpo, prevenção ou sexualidade. Esse silêncio ajuda a entender por que vergonha, desinformação e demora em procurar atendimento ainda aparecem com tanta



Por Midia Ninja

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