Por Vinicius Francisco
O silêncio da área de exposições foi interrompido por gritos que ecoaram pelos pavilhões da AIDS 2026. “Access now!”, “Break the patents!” e outras palavras de ordem anunciavam a chegada de dezenas de ativistas que atravessaram toda a conferência até ocuparem o estande da Gilead, uma das maiores farmacêuticas presentes no evento.
A manifestação começou por volta das 14h30 e rapidamente atraiu a atenção de centenas de participantes. Quem circulava pelo espaço interrompeu reuniões, palestras e conversas para acompanhar a marcha. Celulares foram erguidos para registrar a cena enquanto os ativistas cercavam o estande com cartazes denunciando o que chamam de exclusão no acesso ao lenacapavir, medicamento apontado como uma das maiores revoluções recentes na prevenção do HIV.


As mensagens eram diretas. “Lenacapavir: testado no Brasil, negado aos brasileiros.” Outras placas faziam a mesma denúncia em relação ao Peru, ao México e à Argentina. Também havia críticas à política de patentes da farmacêutica e ao preço da tecnologia, com frases como “Pharma greed is killing us” e “Brazil, break the patents”.
No meio da manifestação, conversei com Susana Van der Ploeg, coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual, secretariado pela ABIA. Ela afirmou que o Brasil ajudou a produzir as evidências científicas sobre o medicamento, mas ainda não tem acesso garantido à tecnologia. Para ela, não faz sentido que países que participaram das pesquisas continuem esperando enquanto o medicamento permanece inacessível para grande parte da população.
Também entrevistei Asia Russell, diretora executiva da Health GAP, uma das organizações que lideraram o protesto. Ela acusou a Gilead de priorizar os lucros em detrimento da saúde pública e defendeu que o lenacapavir seja disponibilizado de forma ampla nos países da América Latina, especialmente naqueles que contribuíram para o desenvolvimento da tecnologia.


A manifestação durou vários minutos e terminou sob aplausos de participantes da conferência. Mais do que um protesto contra uma empresa, o ato recolocou no centro da AIDS 2026 uma discussão histórica da resposta ao HIV: descobrir um medicamento muda a ciência. Garantir que ele chegue às pessoas muda vidas.
