Por Renan Paiva
Em agosto de 2026, a Liga de Basquete Feminino (LBF) coroou uma das carreiras mais longas e consistentes de sua história. Tassia Pereira de Souza Carcavalli foi eleita a Jogadora Mais Valiosa (MVP) da temporada, atuando pelo Unimed Campinas. A premiação, entregue na cerimônia “Melhores do Ano”, reconheceu não apenas uma temporada de alto nível, mas também um marco pessoal: os 3.000 pontos alcançados na carreira.
A escolha não foi isolada. Tassia também integrou o Quinteto Ideal da LBF 2026, definido por votação entre os clubes participantes, ao lado de Lays (Sampaio Basquete), Hillary (Cerrado BRB), Letícia Cesário (Unimed Campinas) e Aline Moura (Sesi Araraquara).
Da formação à Seleção Brasileira
Nascida em 31 de maio de 1992, em São Paulo (SP), Tassia cresceu em um ambiente em que o basquete já fazia parte da rotina familiar. Sua irmã, Tatiane, praticava o esporte e foi sua primeira influência. Elizabete, sua mãe, trabalhou em funções ligadas à manutenção de quadras e organização de jogos, acompanhando de perto a formação da filha como atleta. E quando o assunto é apoio da família, ela também conta com uma parceria importante dentro de quadra: Yasmim Gonçalves, companheira de equipe e de vida.
“Minha família sempre me apoiou muito, principalmente minha mãe e minha irmã, sempre estiveram ao meu lado. E tem minha noiva Yasmim também, que atualmente mora comigo. Ela me incentiva muito, me fala a verdade, ajuda e auxilia. Então eu sei que essas pessoas fazem muita diferença na minha vida e na minha carreira”, disse em entrevista ao Uol, em 2024.
Ao longo de sua carreira, Tassia passou por algumas das equipes mais estruturadas do basquete feminino brasileiro. Ela jogou em Americana, atuou por Santo André, Uninassau, Blumenau, Corinthians e Campinas, equipe para a qual retornou em março deste ano como um dos principais nomes do elenco, assumindo a liderança dentro e fora de quadra. Sua trajetória reforça o perfil de atleta capaz de se adaptar a diferentes projetos e estilos de jogo.
A relação com Campinas ganhou um capítulo emblemático em 2019, quando o time foi campeão paulista. Na final contra o Ituano, em meio a dificuldades de estrutura, Tassia ajudou a mãe a secar a quadra durante o intervalo, em uma cena que virou símbolo da dedicação e do “fazer acontecer” que caracteriza sua geração de atletas.
Sua consistência e versatilidade como ala-armadora, capaz de pontuar, criar jogadas e defender múltiplas posições, a tornaram peça recorrente em clubes tradicionais e na Seleção Brasileira. Tassia fez parte de um ciclo importante da seleção, marcado pela busca de renovação após gerações vitoriosas. Ela integrou o elenco que conquistou a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara 2011, resultado que devolveu o Brasil ao pódio continental.

No ano seguinte, foi convocada para os Jogos Olímpicos de Londres 2012, onde o basquete feminino brasileiro caiu em um grupo forte e buscou se reafirmar no cenário mundial. A experiência olímpica, aos 20 anos, marcou sua consolidação como atleta de elite e abriu portas para uma sequência de convocações.
Um dos aspectos mais impressionantes de sua carreira é a presença recorrente nas grandes decisões da LBF. Tassia disputou cinco finais (2011/2012, 2013/2014, 2016/2017, 2022 e 2026) e conquistou dois títulos, ambos por Americana, em 2011/2012 e 2013/2014. Em 2026, o Unimed Campinas terminou como vice-campeão, após perder a série final melhor de cinco por 3 a 1 para o Sampaio Basquete. Ainda assim, a campanha foi suficiente para colocar Tassia no centro das atenções da premiação individual.
O caminho até o MVP da LBF 2026
Na temporada 2026 da LBF, Tassia foi uma das principais armas do Unimed Campinas. Como ala-armadora, combinou pontuação, criação e experiência para conduzir o time em momentos decisivos. Suas médias foram de 12,6 pontos, 4,0 rebotes e 2,7 assistências por partida, números que refletem um jogo completo e eficiente, especialmente aos 34 anos.
Além dos pontos, ela se destacou pela leitura de jogo e pela capacidade de assumir a responsabilidade em finais de posse: seja penetrando, seja abrindo espaço para as companheiras, seja batendo lances livres com alta precisão — fundamento em que seu aproveitamento a torna uma opção segura sob pressão.
Sua consistência ao longo da temporada chamou a atenção de técnicos, adversárias e dirigentes. Na votação promovida entre os clubes da liga, Tassia foi escolhida não apenas como MVP, mas também para o Quinteto Ideal.
A premiação aconteceu no dia 10 de agosto, e reuniu atletas, membros de comissões técnicas e profissionais da arbitragem que se destacaram durante a competição. O momento mais emocionante para Tassia veio quando sua mãe, Elizabete Pereira, subiu ao palco para entregar o troféu de MVP à filha. Na sequência, Bete também foi homenageada pela dedicação de longa data ao basquete feminino, em um gesto que resumiu anos de apoio e de presença constante nos bastidores.

Na mesma noite, Tassia foi reconhecida por atingir a marca de 3.000 pontos na carreira na LBF, um feito alcançado por poucas atletas na história da liga. Ela recebeu uma placa comemorativa e uma bola dourada da Molten, destinada a grandes marcas pessoais.
Após receber o prêmio, Tassia fez questão de dividir o reconhecimento com o grupo. “Eu confesso mesmo, de verdade, que não esperava. Fiquei muito feliz, mas preciso repartir, porque é uma construção de um time inteiro, até a comissão”, disse em declaração reproduzida pelo site da LBF.
O discurso condiz com a imagem que ela construiu ao longo da carreira: de atleta discreta, mas competitiva, que valoriza o trabalho em equipe e entende o basquete como um esporte de conexões e responsabilidades compartilhadas. A fala também ecoa a realidade de muitas jogadoras que, mesmo em momentos de brilho individual, sabem que a estrutura ao redor — comissão técnica, colegas de time, família — é essencial para que o desempenho em quadra aconteça.
Características técnicas
Tassia é uma ala-armadora de 1,78m, com boa leitura de jogo, capacidade de penetração e arremesso de média distância. Sua versatilidade permite que atue tanto criando jogadas para as companheiras quanto assumindo a função de pontuadora em momentos decisivos. Ao longo da carreira, desenvolveu um jogo inteligente, baseado em movimentação sem bola, uso de bloqueios e tomada de decisão rápida, o que a torna difícil de marcar em sistemas que exigem rotação constante da defesa.
Outro ponto forte é a capacidade de manter a eficiência ofensiva mesmo em temporadas longas e desgastantes. Com o avanço da idade, ajustou o preparo físico e a rotina de treinos para preservar o corpo e sustentar o nível de competição, algo que se reflete na quantidade de jogos disputados e na presença nas decisões ao longo de mais de uma década.

Legado e impacto no basquete feminino brasileiro
A trajetória de Tassia Carcavalli resume parte da história recente do basquete feminino no Brasil: uma atleta que cresceu em um ambiente de recursos limitados, dependeu de apoio familiar e de projetos pontuais de clubes e, ainda assim, conseguiu se manter no mais alto nível por muitos anos. Sua presença constante nas finais da LBF, nas seleções de base e principal e em ações de promoção do esporte ajuda a dar visibilidade e referência para meninas que sonham em seguir no basquete.
O MVP de 2026, somado à marca de 3.000 pontos e à inclusão no Quinteto Ideal, funciona como um reconhecimento tardio, mas justo, de uma carreira construída com consistência, resiliência e amor ao esporte.
Em um esporte em que a rotatividade de atletas é alta e muitas carreiras são interrompidas precocemente por falta de estrutura, Tassia Carcavalli representa a possibilidade de construir uma trajetória longa, com altos e baixos, mas sempre perto do topo. Seu MVP em 2026 não é apenas o prêmio de uma temporada: é um símbolo de resistência, de adaptação e de uma paixão pelo basquete que atravessa gerações.
Acompanhar a história dela é também entender os bastidores da LBF, a importância dos clubes que investem de forma contínua e o papel das famílias e das redes de apoio para que atletas sigam competindo em alto nível.
