6 de setembro de 2026
Setembro, mês da “independência” na América Latina
Se o colonialismo europeu deixou cicatrizes, o novo século revela um rosto atualizado do intervencionismo
Por Carlos Ernesto Cano
A cada setembro, uma onda de comemorações percorre a América Latina. O México relembra o Grito de Dolores no dia 16, o Chile o início do seu processo de independência no dia 18, e cinco nações centro-americanas — Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica — celebram em 15 de setembro a assinatura da Ata de Independência da Capitania Geral da Guatemala, em 1821. São datas que evocam o fim do domínio espanhol e o nascimento de novas repúblicas.
No entanto, a gesta independentista que deveria inspirar orgulho contrasta com uma dívida histórica ainda não saldada: a do Haiti. O país caribenho conquistou sua independência da França em 1804, após a única revolução de escravizados bem-sucedida da história. Mas o preço dessa liberdade foi brutal. Em 1825, o rei Carlos X da França impôs uma indenização de 150 milhões de francos-ouro em troca do reconhecimento de sua soberania, uma soma que o economista Thomas Piketty classificou como o “resgate” mais escandaloso da história moderna.
O Haiti pagou durante décadas, empobrecendo-se até 1947, um fardo que ainda explica boa parte de sua miséria atual. Há algumas semanas, o presidente francês Emmanuel Macron chamou aquela decisão de “injustiça”, mas sem se comprometer a restituir os recursos. Uma comissão histórica vai estudar o caso, enquanto as demandas de reparação — estimadas pelo New York Times em até 115 bilhões de dólares em perdas — seguem sobre a mesa.
Mas se o colonialismo europeu deixou cicatrizes, o novo século revela um rosto atualizado do intervencionismo. Neste 2026, enquanto a América Latina comemora seus bicentenários, a sombra do “novo monopólio” se projeta a partir de Washington. O governo Trump reatualizou a doutrina Monroe sob o rótulo “Trump”, declarando todo o hemisfério como sua “área de interesse principal”. As evidências são contundentes.
Em janeiro passado, uma operação militar americana em Caracas sequestrou o presidente Nicolás Maduro, justificada em nome da “democracia” e da “segurança”, numa ação que a ONU classificou como “precedente perigoso”. Mas a interferência não se limita aos mísseis. A ingerência nos processos eleitorais virou norma: nas recentes eleições da Argentina, Brasil, Honduras e Colômbia, funcionários americanos pressionaram abertamente a favor de candidatos afins, ameaçando com sanções ou retirando apoios caso suas expectativas não fossem atendidas. O caso mais recente ocorreu no Brasil, onde o governo de Lula da Silva denunciou e vetou a entrada de dois enviados de Washington que planejavam se reunir com a oposição para questionar a transparência do sistema eleitoral. A resposta dos EUA foi a revogação do visto do embaixador brasileiro.
Esse padrão não é novo. Da deposição de Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, ao golpe contra Salvador Allende no Chile, em 1973, e à invasão do Panamá em 1989, a história está repleta de intervenções que, sob o manto do anticomunismo ou da “estabilidade democrática”, deixaram mortes e ditaduras.
Hoje o discurso muda, mas a prática é a mesma: a região continua sendo concebida como um “quintal” onde as decisões soberanas se subordinam aos interesses estratégicos da potência hegemônica do norte.
Assim, enquanto os países latino-americanos celebram a emancipação de uma coroa, a realidade evidencia que a luta pela autodeterminação continua. O desafio atual não é apenas preservar a memória dos “heróis crioulos independentistas”, mas também construir a unidade e a resiliência necessárias para dissuadir o novo colonizador que, sem disfarces, busca reordenar a região a seu bel-prazer.
A lição do bicentenário é clara: a independência plena, aquela que não depende do aval de potências estrangeiras, continua sendo uma tarefa pendente na região.
