Por Hyader Epaminondas
Tive o privilégio de assistir ao Charlie Brown Jr. em 2012, quando a banda abriu para o Linkin Park no Brasil, e lembro até hoje do absurdo que era ver a energia de Chorão rivalizando com a de Chester naquela noite. Os dois tinham uma presença de palco visceral, daquelas que fazem a gente esquecer por alguns instantes que existe qualquer coisa para além da música. Na época, ninguém fazia ideia de que aquele seria o último show de Chester no país, muito menos de que, alguns anos depois, perderíamos os dois para problemas psicológicos que, apesar de muitas vezes transformados em melodia, continuavam existindo para além dos palcos.
Faz tanto tempo que a própria lembrança parece pertencer a outra época. A era digital ainda caminhava a passos lentos, e eu só me dei conta do peso daquele encontro enquanto escrevia este texto. Chorão e Chester tinham essa capacidade de transformar angústias pessoais em poesias que encontravam eco nas experiências de milhões de pessoas, fazendo com que dores particulares ganhassem uma dimensão coletiva. Talvez essa seja uma das contradições mais cruéis da arte: reconhecer a própria dor na voz de outra pessoa, encontrar algum tipo de acolhimento naquilo que ela canta e, ainda assim, não conseguir dimensionar o sofrimento que essa mesma pessoa carrega para além daquilo que compartilha com o mundo.
Cada escolha uma renúncia, isso é a vida
Que um álbum do Charlie Brown Jr. sempre foi um reflexo da mente psicodélica, inquieta e absolutamente criativa de seu vocalista não é nenhuma novidade. Felipe Novaes e Hugo Prata deliberadamente escolhem deslocar o olhar para uma dimensão mais íntima dessa trajetória ao colocar no centro da narrativa o romance entre Alexandre e Graziela, o grande amor da vida do músico, cuja presença também atravessa a discografia da banda. É justamente essa história de amor, adaptada a partir do livro homônimo escrito por Graziela, que serve de base para revisitar a trajetória de Chorão por uma perspectiva atravessada pelos afetos e pelas marcas deixadas por uma relação que se tornou parte de seu próprio legado artístico.
Ao privilegiar Alexandre em detrimento de Chorão, o filme procura olhar para o homem por trás do artista, para as dores, as contradições e os vazios que alimentavam suas canções, mas que nem por isso se tornavam mais fáceis de suportar. E eles conseguem transmitir uma verdade na adaptação. Transformar as próprias feridas em música não significa saber lidar com elas fora do palco. Ao colocar esse relacionamento no centro da narrativa, os diretores revisitam o imaginário construído pelas canções do Charlie Brown Jr. para explorar o contraste entre a rebeldia que o artista transformava em identidade pública e as fragilidades de um homem que, longe dos holofotes, precisava lidar com os próprios conflitos.
O filme encontra em José Loreto e Fernanda Marques sua principal força. A entrega dos dois dá vida aos excessos dessa relação, fazendo com que os conflitos do casal encontrem nos gestos, nos olhares e na intimidade uma intensidade que remete à própria música de Chorão. Existe uma química que ajuda a sustentar a história, mesmo quando o roteiro não consegue acompanhar a complexidade dos personagens. Interpretar figuras tão presentes no imaginário popular exige mais do que reproduzir trejeitos conhecidos ou imitar uma personalidade reconhecível. É preciso encontrar o que existe de humano por trás do ídolo, sobretudo quando o público já chega à sala de cinema carregando suas próprias lembranças e afetos ligados àquelas canções.
O problema é que essa intensidade nem sempre encontra espaço para respirar e, em vários momentos, os cortes secos dão à montagem um ritmo que lembra os videoclipes da MTV, com sequências que parecem buscar um impacto imediato antes mesmo de desenvolver o que está acontecendo em cena. A referência faz sentido dentro do universo de uma banda que cresceu junto à cultura dos videoclipes, mas a impressão é que o filme, às vezes, está mais preocupado em produzir momentos de efeito do que em deixar os sentimentos dos personagens se desenvolverem. Algumas cenas parecem prontas para virar cortes de TikTok, como se precisassem fisgar o público a cada poucos segundos. O resultado é uma história que tem bastante coisa a dizer sobre seus personagens, mas que nem sempre encontra tempo para deixar essas emoções chegarem até o público.
Por outro lado, existe um cuidado em recuperar a atmosfera do final dos anos 1990 e do início dos anos 2000. As roupas, os espaços e as referências visuais ajudam a resgatar uma época em que a banda fazia parte do cotidiano de uma geração, entre a televisão, os clipes e as músicas que acompanhavam as primeiras experiências de amor, rebeldia e descoberta. O problema é que essa memória funciona melhor como reconhecimento do período do que como uma janela para o mundo interior de Alexandre. O filme consegue a proeza de nos transportar para aquele tempo, mas nem sempre encontra imagens capazes de expressar o que significava vivê-lo para alguém como Chorão.
É justamente aí que a cinebiografia deixa escapar parte de seu potencial. A trajetória de seu biografado oferece um terreno fértil para explorar como os vazios, as frustrações e os desejos de um homem se transformam em música e, depois, passam a fazer parte da vida de milhares de outras pessoas. Seria interessante perceber como essa subjetividade aparece nas imagens, na maneira como os personagens ocupam os espaços ou na forma como o romance modifica a relação de Alexandre com o mundo. Em vez disso, o filme muitas vezes se limita a acompanhar os acontecimentos, como se reconstituir os episódios de uma vida fosse suficiente para alcançar aquilo que existia por trás deles. É nítido como falta um olhar mais criativo para transformar essa história em cinema, para fazer com que as imagens revelem algo que as próprias canções, por mais conhecidas que sejam, não conseguem contar sozinhas.
A trilha sonora sofre de um problema parecido. Em um filme sobre Chorão, cada música chega carregada de memória. Basta reconhecer os primeiros acordes para que o público seja transportado para outro momento da própria vida. É justamente por isso que a escolha das canções exige cuidado. Quando a música acompanha o sentimento de uma cena, ela amplia aquilo que os personagens não conseguem dizer, mas, quando parece apenas sublinhar uma emoção que já está explícita, acaba competindo com as imagens.
Em alguns momentos, a impressão é a de assistir a um episódio muito bem dirigido de “Malhação”, em que a música entra para garantir que o público entenda exatamente o que deve sentir. O repertório do Charlie Brown Jr. tem força de sobra para provocar essas emoções por conta própria, mas o filme nem sempre confia na possibilidade de construir algo novo a partir delas.
Então vamo viver e um dia a gente se encontra
José Loreto e Fernanda Marques conseguem sustentar o interesse por uma história que tenta conciliar a dimensão pública de um dos grandes nomes do rock brasileiro com as dores de um relacionamento vivido longe da idealização que acompanha seus ídolos.
Loreto, em particular, entrega uma atuação impressionante, incorporando a visceralidade de Chorão sem se limitar à imitação de seus trejeitos, como se encontrasse na própria inquietação do personagem a matéria-prima para reconstruir sua presença, seus excessos e suas fragilidades, de alguém cuja personalidade parecia transbordar para tudo ao seu redor. A nostalgia da época e a força das interpretações ajudam a aproximar o público de Alexandre, mesmo quando a montagem e a trilha sonora parecem ter pressa em conduzir suas emoções.
O filme quer olhar para o homem que existia por trás de Chorão, mas nem sempre consegue escapar da imagem que já conhecemos. Existe uma ironia nessa tentativa de reconstruir sua história a partir de um relacionamento que também atravessou sua obra, especialmente quando pensamos em “Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?”, canção cujo título carrega uma pergunta que parece sintetizar as contradições entre amar alguém e conseguir fazê-lo feliz.
A música continua encontrando eco na experiência de quem a escuta, mas a cinebiografia nem sempre consegue transformar essa potência afetiva em imagens capazes de revelar algo novo sobre o homem por trás do artista. É um bom filme para conhecer o artista, mas fica a sensação de que suas canções continuam dizendo muito mais sobre suas contradições, enquanto o filme permanece preso à superfície de uma história que merecia ser explorada com maior subjetividade.
Fonte: Mídia Ninja.
