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Conselho Direitos Ghe Santos Inhaí

REINA MALAK ELHAMIDY LEVA A EXPERIÊNCIA DE MULHER TRANS E REFUGIADA À ELEIÇÃO DO CONSELHO MUNICIPAL LGBTI+ DE SÃO PAULO

Ativista marroquina, refugiada política e especialista em políticas públicas participa da disputa por uma cadeira no colegiado que acompanha e propõe políticas para a população LGBTI+ da capital

A experiência de uma mulher trans, migrante e refugiada política entra no processo de escolha do Conselho Municipal de Políticas LGBTI+ de São Paulo. Reina Malak Elhamidy participa da eleição que definirá a composição do colegiado para o biênio 2026–2028, levando para a disputa uma trajetória construída entre a defesa dos direitos humanos, a militância LGBTQIA+, a proteção de pessoas refugiadas e a formulação de políticas públicas.

A eleição do Conselho Municipal de Políticas LGBTI+ ocorre em um momento de renovação da representação da sociedade civil. O colegiado é um órgão autônomo e permanente, de caráter consultivo e propositivo, responsável por contribuir para a construção de políticas públicas e para a promoção da cidadania e dos direitos da população LGBTI+ na cidade. Para o próximo mandato, são escolhidas representações de diferentes segmentos, entre eles lésbicas, gays, homens e mulheres bissexuais, travestis, mulheres trans, homens trans e uma representação de personalidade com atuação comprovada na promoção da diversidade sexual e de gênero.

É nesse espaço que Reina apresenta uma candidatura atravessada por uma experiência que ainda encontra pouca representação nos espaços institucionais: a de uma mulher trans refugiada que também atua politicamente a partir das demandas de pessoas migrantes e LGBTQIA+.

Sua trajetória começou no Marrocos, onde desenvolveu atuação em defesa dos direitos da população LGBTQIA+, das mulheres, das pessoas refugiadas e das trabalhadoras e trabalhadores do sexo. Em 25 de junho de 2023, durante uma manifestação pública em Casablanca, Reina levantou uma bandeira LGBTQIA+. Segundo o relato publicado pelo Museu da Pessoa, o gesto provocou uma escalada de ameaças e vigilância e, diante do risco de prisão, ela deixou o país poucas horas depois.

O exílio levou Reina ao Brasil, onde foi reconhecida como refugiada política. A experiência de deslocamento passou a fazer parte também de sua atuação política. Em São Paulo, ela passou a trabalhar com questões relacionadas à proteção de migrantes e refugiados LGBTQIA+, especialmente pessoas provenientes da região SWANA.

Essa experiência aparece diretamente em seu trabalho recente de formulação de políticas públicas. Em 2026, Reina apresentou a Nota Técnica REI/01/2026, intitulada “Lacunas de Proteção no Atendimento a Pessoas LGBTQIA+ Refugiadas na Polícia Federal em São Paulo”. O documento foi elaborado a partir de uma avaliação com 29 pessoas LGBTQIA+ solicitantes de refúgio e refugiadas da região SWANA residentes na capital.

Segundo os dados apresentados no trabalho, foram identificados relatos envolvendo condições de espera, discriminação, misgendering, agressões verbais, humilhação pública, filmagens sem consentimento, hostilidade associada a argumentos ideo-religiosos extremistas e três relatos de ameaças de morte. A partir dessas situações, a proposta apresentada por Reina é a criação de um protocolo de atendimento prioritário e protegido para pessoas LGBTQIA+ refugiadas em situação de vulnerabilidade.

“Eu quero participar desse conselho porque acredito profundamente que as pessoas que são mais afetadas pelas políticas públicas também precisam estar nos espaços onde essas políticas são construídas. Para mim, essa candidatura tem um significado muito especial. Uma mulher trans, uma refugiada política, vinda do Norte da África, com uma trajetória de atuação internacional em direitos humanos, política, políticas públicas e direitos LGBTQIA+, eu carrego não só uma experiência pessoal, mas também uma experiência de organização, de advocacy e de construção de políticas em diferentes contextos.

Quando falamos da população LGBTQIA+, não estamos falando de uma experiência única. Existem pessoas trans, pessoas negras, pessoas com deficiência, trabalhadores sexuais, pessoas em situação de rua, pessoas em situação de pobreza, pessoas migrantes e refugiadas. Essas identidades e experiências se cruzam. Se queremos construir políticas públicas que realmente respondam à realidade da população LGBTQIA+, precisamos garantir que as pessoas que vivem essas diferentes realidades também estejam nos espaços de decisão.

Tenho muito orgulho de participar desse processo justamente como mulher trans e refugiada política. E considero muito importante que, neste ano, migrantes e refugiados também possam participar desse processo, inclusive como candidatos. Durante muito tempo, fomos vistos apenas como pessoas que precisam receber políticas públicas. Mas nós também produzimos conhecimento, construímos soluções e temos muito a contribuir para a formulação dessas políticas.

Eu sempre digo que lar não é necessariamente o lugar onde você nasceu, nem simplesmente a nacionalidade que está no seu passaporte. Lar é o lugar que te dá espaço para lutar, participar e reivindicar seus direitos. O Brasil me deu esse espaço. São Paulo me deu esse espaço. Por isso, agradeço profundamente todas as pessoas e movimentos que lutaram para que migrantes e refugiados pudessem participar desses espaços de participação social, porque essa conquista não começou comigo. Eu estou chegando a uma porta que muitas pessoas lutaram para abrir.

Meu desafio agora é fazer com que essa porta permaneça aberta e que outras pessoas possam atravessá-la depois de mim. Eu não estou entrando nesse conselho simplesmente para ocupar uma cadeira. Quero ocupar uma responsabilidade: levar para dentro desse espaço as vozes de pessoas que passaram anos sendo marginalizadas e que muitas vezes não tiveram acesso aos espaços onde as decisões são tomadas.”

A candidatura ao Conselho Municipal LGBTI+ conecta essa experiência internacional e migratória à política pública municipal. A disputa não se limita à identidade de uma candidata, mas coloca em discussão quais grupos conseguem ocupar espaços de participação social e levar suas demandas para dentro das estruturas responsáveis por acompanhar e propor políticas públicas.

A presença de uma mulher trans refugiada também aproxima duas agendas que frequentemente aparecem separadas: a política de diversidade sexual e de gênero e a política migratória. Para Reina, questões como documentação, acesso à Justiça, barreiras linguísticas, proteção contra discriminação e atendimento adequado não podem ser tratadas isoladamente quando atingem pessoas LGBTQIA+ que também vivem a condição migratória ou de refúgio.

Sua atuação institucional já passou pelo Conselho Municipal de Imigrantes de São Paulo. Nas eleições do colegiado para o biênio 2025–2027, Reina teve sua candidatura como pessoa física imigrante deferida pela Prefeitura, demonstrando uma trajetória anterior de participação formal nos espaços de representação da população migrante da capital.

Agora, a disputa por uma cadeira no Conselho Municipal de Políticas LGBTI+ coloca essa trajetória diante de outro espaço de participação social. A candidatura ocorre dentro do processo eleitoral oficial iniciado pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, que publicou o edital do pleito em julho de 2026. As inscrições de candidaturas foram encerradas em agosto e a eleição está prevista para 31 de outubro.

Mais do que uma mudança de conselho, a candidatura representa a tentativa de levar para a política municipal uma experiência construída na intersecção entre gênero, sexualidade, migração e refúgio.

Reina chega ao processo eleitoral depois de uma trajetória em que a política não aparece apenas como disputa institucional, mas também como instrumento de sobrevivência, organização comunitária e formulação de respostas para problemas concretos.

Da bandeira LGBTQIA+ levantada em Casablanca às discussões sobre atendimento de pessoas refugiadas em São Paulo, sua trajetória atravessa fronteiras e diferentes formas de participação política.

Agora, essa experiência está colocada diante de uma nova disputa: ocupar um espaço dentro do Conselho Municipal de Políticas LGBTI+ e contribuir, a partir da perspectiva de uma mulher trans e refugiada, para o debate sobre os direitos e as políticas públicas voltadas à população LGBTI+ da maior cidade do país.

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Ghe Santos

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