Por Rafaela Andrade e Emile Barbosa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
É com a bola no chão e o jogo rolando na TV ou nos telões que os torcedores brasileiros mais se encontram conectados. Unidos para torcer por uma seleção, pelo sonho do hexa, para gritar e comemorar uma vitória.
E é dessa união que nascem as pinturas e decorações das ruas. Com a chegada da Copa, as ruas brasileiras se transformam: elas viram torcida, com bandeiras, murais e pinturas que vão muito além da decoração, trazendo união, identidade e pertencimento comunitário. Mas onde toda essa tradição começou?

Não se sabe ao certo quando foi feita a primeira decoração de rua, mas dizem que ela começou depois do primeiro título do Brasil, em 1958. Na década de 1960, vizinhos já se juntavam em mutirões para transformar suas ruas durante a competição.
Foi a partir dos anos 1990 que a tradição ganhou seu marco, e, em 2002, se consolidou após o pentacampeonato da Seleção Brasileira. Agora, em 2026, o movimento ganha novo fôlego em diferentes cidades brasileiras. A tradição ressurge impulsionada pela nostalgia de quem já viveu esse sonho.
Considerada uma manifestação cultural ligada à paixão pelo futebol brasileiro, a prática resgata o sentimento de convivência e união. Isabela Boechat, do Centro Cultural Capiberibe 27, em Santo Cristo, conta em entrevista às Nações Unidas Brasil: “Pintar a rua sempre representou muito mais do que futebol. É um símbolo de convivência, identidade e orgulho do lugar onde a gente vive. Quando a rua ganha cor, as pessoas também voltam a se encontrar, conversar e ocupar o espaço público de forma positiva”.

Como uma verdadeira galeria a céu aberto, a Rua 13 conta com bandeirolas estrategicamente posicionadas que formam símbolos da Copa, como o campo de futebol e a tão estimada camisa 10, além de paredes e chão pintados por grafiteiros e moradores locais, e até mesmo uma kombi com as cores da Seleção Canarinho.
A tradição já tem cerca de 16 anos e vai além do espírito esportivo, impactando diretamente o exercício da cidadania dos moradores, em especial os jovens, diariamente expostos à criminalidade da região. Assim como os tambores do Olodum, grande personagem das transmissões da Copa do Mundo, a rua conta com o projeto Repiquesia, que, por meio da promoção de atividades musicais, tem o objetivo de reafirmar a cultura de rua através da percussão.
“O impacto contínuo das nossas atividades na rua dá a esses jovens novas perspectivas de vida assim que são formados no Repiquesia. Muitos deles, hoje em dia, já exercem atividades remuneradas através da música e estão até engajados com outras bandas”, conta Thamara Azevedo, líder comunitária e produtora do Repiquesia.
Os mais de 150 metros de arte da Rua 13 tornaram-se ponto turístico, e o local já recebeu grandes artistas locais e marcas, além de ser destaque da Prefeitura de Salvador.
Mais do que uma tradição ligada ao futebol, as ruas pintadas revelam a capacidade das comunidades de transformar o espaço público em um lugar de encontro, memória e celebração. Em meio à expectativa pela Copa do Mundo de 2026, a arte que colore bairros de diferentes cidades brasileiras reafirma que o torneio também é vivido longe dos estádios, nas calçadas, nos muros e nas histórias compartilhadas entre vizinhos.
